Decepcionados com vida na Europa, imigrantes iraquianos decidem voltar a Bagdá

Tim Arango

Em Bagdá (Iraque)

  • Ilvy Njiokiktjien/The New York Times

    Os iraquianos Muntadher Tareef e Hosham Hasse, à direita, conversam com o agente de viagens Muhiadin Hassan para acertar retorno a Bagdá depois de 5 meses na Finlândia

    Os iraquianos Muntadher Tareef e Hosham Hasse, à direita, conversam com o agente de viagens Muhiadin Hassan para acertar retorno a Bagdá depois de 5 meses na Finlândia

Noite após noite, Mohammed al-Jabiry se revirava na cama em um centro de refugiados na Finlândia, comparando a vida na Europa com a de Bagdá. Depois de muitas noites sem dormir, ele decidiu voltar para casa.

"No Iraque posso encontrar uma garota para me casar", raciocinou Jabiry, 23. "E minha mãe está aqui [em Bagdá]."

Houve outras coisas que o levaram a retornar, como o alto preço dos cigarros e o clima frio. "Na Europa fiquei isolado", disse. "A vida na Europa não era o que esperávamos."

No ano passado, atraído pelas reportagens na imprensa sobre a passagem fácil pela Turquia, dezenas de milhares de iraquianos se uniram a sírios, africanos e afegãos na grande onda migratória para o continente europeu. Hoje, milhares de iraquianos estão voltando para casa.

Muitos dizem que chegaram à Europa com expectativas irreais de sucesso rápido. Alguns também explicam que a recepção calorosa que tiveram dos europeus no último verão deu lugar a suspeitas, depois dos atentados terroristas em Paris cometidos pelo grupo Estado Islâmico em novembro.

Muitos iraquianos ficaram na Europa, é claro, especialmente aqueles que foram deslocados de territórios controlados pelo EI. E outros ainda arriscam tudo e atravessam o mar para chegar lá. Na semana passada, os corpos de cinco iraquianos que se afogaram no mar Egeu foram devolvidos a Kirkuk, no norte do Iraque.

Os que retornam refletem amplamente outro segmento da migração: os que deixaram Bagdá por motivos econômicos, ou meramente por curiosidade depois de ver tantas reportagens sobre migrantes chegando alegremente às praias da Europa.

No último verão, o Facebook se encheu de postagens sobre a viagem. Agora, alguns iraquianos na Europa estão usando a rede social para dissuadir seus conterrâneos. Um vídeo postado recentemente mostra um iraquiano se queixando da comida na Europa e dizendo: "Estou só esperando meu voo para Bagdá, e voltarei logo. Aconselho todo mundo a não correr o risco de vir para a Europa."

A Organização Internacional para Migrações disse que ajudou quase 3.500 iraquianos a regressar a seu país no ano passado --apenas uma parte do número total que retorna, pois muitos o fazem com a ajuda dos governos locais ou das embaixadas iraquianas nos países europeus.

"Desde o início deste ano, os pedidos de ajuda estão aumentando", disse Thomas Weiss, chefe da missão da organização no Iraque.

O governo iraquiano enviou há pouco tempo uma delegação à Europa para organizar o retorno de iraquianos e poderá enviar aviões fretados para trazê-los de volta.

"Há um grande número de migrantes iraquianos que querem voltar da Europa", disse Satar Nawrooz, o porta-voz do Ministério da Migração e Deslocamento do Iraque. "Alguns querem voltar por motivos pessoais, outros porque seus pedidos de residência foram recusados ou por causa do custo de vida elevado. Não temos a conta total porque muitos voltam às própria custas, e não do ministério."

Muitos dos que retornam ao Iraque também estão quebrados, tendo vendido a maior parte de seus bens para pagar a contrabandistas para tirá-los da Turquia, em uma perigosa viagem por mar até a Grécia.

"Nosso sonho era sair do país", disse Haitham Abdulatif, 48, que vendeu seu Mercedes por US$ 8 mil para pagar pela viagem que fez com sua filha de 10 anos. "Só se falava nisso, na TV, na rede social..." Ele chegou à Bélgica com isso em mente: "Esperava que me dessem uma casa e um bom emprego, para que eu tivesse uma vida melhor. Era com isso que eu sonhava".

A realidade, segundo ele, foi muito diferente. Rapidamente gastou os US$ 8 mil que havia levado, principalmente pagando aos contrabandistas, e se viu quase quebrado. Detestou a comida (leite e torradas no desjejum, disse ele, e sanduíches de queijo no almoço). E obter a residência e encontrar um trabalho decente levaria meses, segundo disse.

Finalmente, Abdulatif procurou as autoridades do acampamento e disse que queria voltar para o Iraque. "Eles ficaram surpresos", contou ele. "Mas eu lhes expliquei que preferia morrer no meu país a morrer em um país estranho."

Muitos iraquianos também não contavam com a dificuldade de chegar a uma sociedade liberal europeia vindos de uma cultura árabe conservadora.

"Eu senti que não poderia viver em uma sociedade aberta", disse Aqeed Hassan, 26, que toca clarinete e, de volta a Bagdá depois de migrar para a Finlândia, tenta conseguir um emprego em uma banda militar. "Minha mulher usa a cabeça coberta, e eu não sentia que eles gostavam dos árabes."

Mas Jabiry disse que no início foi tratado calorosamente, embora também como uma curiosidade. "Nos primeiros dias depois que chegamos, as pessoas ficavam impressionadas conosco", disse ele. "Tiravam fotos de nós, convidavam-nos para sua casas. Elas gostavam de nossa pele morena e do cabelo escuro."

Depois dos ataques em Paris, porém, muitos europeus começaram a ver os migrantes como uma ameaça à segurança. "Eles desviavam seus olhares de nós", disse ele. "Senti que o povo Finlândia realmente não nos queria mais."

Ele disse que não foi obrigado a partir pelas autoridades finlandesas, mas notou placas que surgiram no campo de refugiados onde vivia, dizendo que o governo pagaria passagens de avião para os que quisessem voltar para casa.

Alguns iraquianos que voltaram tinham boas lembranças de seu contato com a cultura europeia, e poucos lamentam ter tentado uma nova vida. "Era muito verde e limpo", disse Abdulatif. "Era bonito. Até a moral das pessoas --todos nos respeitavam. Todo mundo dizia 'bonjour' para mim todas as manhãs."

"Era 99,9% diferente de Bagdá. As pessoas aqui falam de modo sectário: ele é sunita, ele é xiita, ele é curdo." E acrescentou: "Agora considero a viagem uma coisa divertida. Não me arrependo".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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