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Plástico, tinta e cosméticos emitem mais gases cancerígenos do que carros

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Compostos derivados de petróleo emitem gases que poluem o ar em grandes cidades Imagem: Getty Images

Fernando Cymbaluk

Do UOl, em São Paulo

15/02/2018 17h00

Sabe o cheiro de tinta que fica em uma sala com paredes recém-pintadas? O perfume de xampu durante o banho? Ou o cheiro de plástico na embalagem da TV novinha? São os COV's (Compostos Orgânicos Voláteis), subprodutos da destilação do petróleo, a matéria-prima de todos esses materiais --excetuando o que não é feito à base do óleo fóssil. Eles são agentes de poluição do ar e prejudiciais à saúde, podendo causar câncer. 

Um estudo publicado nesta quinta-feira (15) na revista Science mostra que o problema é bem maior do que se imaginava. COV's também são emitidos por produtos derivados do petróleo. Mas os compostos que evaporam de produtos que usamos no dia a dia contribuem para a poluição do ar de forma equivalente à queima de gasolina ou diesel pelos veículos, mostra a pesquisa.

Os COVs, emitidos tanto pelos combustíveis quanto por produtos industrializados, sofrem reações que geram gases nocivos à saúde, como tolueno, benzeno, propeno. Alguns deles, como o benzeno, são cancerígenos. Os COVs também são um dos principais precursores de ozônio e formam partículas finas, ambos prejudiciais à saúde.

"O que esse grupo fez e que ninguém tinha feito foi quantificar o impacto de COV's dos produtos do dia a dia", diz o físico Paulo Artaxo, da USP (Universidade de São Paulo), que não participou da pesquisa publicada na Science. "A emissão por esses materiais é significativa", completa.

Apesar desses produtos de uso diário comporem a menor parte dos derivados de petróleo que utilizamos, eles contribuem com ao menos metade dos COV's lançados na atmosfera, de acordo com o estudo liderado por Brian C. McDonald, da Universidade do Colorado, nos EUA. 

A emissão de COVs, no entanto, não está ligada ao aquecimento global, causado por gases estufa, como o gás carbônico, emitido pela queima de combustíveis.

O grupo liderado por Brian C. McDonald, da Universidade de Colorado, dos EUA, utilizou dados de poluição do ar, de química atmosférica e de estatísticas de produção industrial da cidade de Los Angeles, na Califórnia, para chegar aos resultados.

"A alta fração de emissões de COV's por produtos derivados de petróleo são consistentes com as medições urbanas observadas em ambientes interiores [domésticos] e exteriores", dizem os pesquisadores. Eles mostram que enquanto esses produtos componham menos de 5% do total de derivados de petróleo usado em Los Angeles, a contribuição para a emissão de COV's chega a quase 50%.

Luis Moura/Estadão Conteúdo
Imagem: Luis Moura/Estadão Conteúdo

Como poluem mais que os carros?

Segundo os pesquisadores, regulamentações que impuseram quantidades limites de emissões de COVs por veículos fizeram com que a participação da queima de gasolina e diesel na poluição do ar urbano diminuísse. Contudo, não havia dados sobre o impacto das emissões por produtos industrializados de uso diário.

"A queima de combustível produz monóxido e dióxido de carbono, além de partículas. A emissão de COV's pelos automóveis é proporcionalmente pequena", explica Artaxo.

Contudo, ele pondera que a participação de carros na poluição por gases nocivos à saúde é grande.

Em São Paulo, por exemplo, há milhões de automóveis circulando. Jamais haverá emissão comparável vinda de produtos industrializados."

Paulo Artaxo, professor da USP

O que fazer para evitar poluição?

No artigo, os pesquisadores argumentam que para melhor combater a poluição do ar, é necessário entender quais são as fontes mais importantes de COV's. Nesse sentido, o estudo dá maior clareza ao problema.

Segundo o estudo, enquanto a regulação das emissões pelos escapamentos criados nos últimos anos nos EUA e na Europa fizeram com que a emissão de COV's por automóveis caísse, conter as emissões de pesticidas, revestimentos, tintas, adesivos, produtos de limpeza, de higiene pessoal e plásticos em geral continua sendo um desafio. 

"Existem plásticos que emitem menos COV's, como sacolas biodegradáveis", opina Artaxo. Se mudar processo produtivo do plástico, é possível diminuir muito [a emissão de compostos voláteis poluentes]", completa.

Contudo, segundo o pesquisador, o novo estudo mostra mais uma faceta da poluição provocada por produtos industrializados derivados do petróleo e a necessidade da diminuição de seu uso.