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Salles ataca Noruega e diz que diretor do Inpe saiu por 'lenha na fogueira'

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

07/08/2019 16h03

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, atacou hoje a Noruega, principal doador do Fundo Amazônia, e declarou que o ex-diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o físico Ricardo Galvão, perdeu o cargo por "colocar lenha na fogueira".

A demissão ocorreu na última sexta (2) depois que o cientista rebateu críticas do presidente Jair Bolsonaro (PSL) na divulgação de dados sobre desmatamento. Os números foram considerados sensacionalistas pela chefia do Executivo. Na troca, o governou nomeou um militar, Darcton Policarpo Damião.

"Precisaria ter colocado esse ponto de razoabilidade e bom senso e ele se furtou a isso. Pelo contrário, colocou lenha na fogueira", disse Salles durante audiência pública no Senado Federal. A reunião tem como objetivo principal discutir a gestão do Fundo Amazônia.

O ministro voltou a dizer que os dados do Inpe não são confiáveis, o que é contestado pela comunidade científica, mas reconheceu que o desmatamento está crescendo no país ano após ano. Na visão dele, há, por outro lado, distorções e uma visão "alarmista" que atenderiam aos interesses de ONGs e outros grupos.

"Ninguém aqui quer discutir o termômetro", disse ele, em referência à crítica de que o governo brigaria com o termômetro em vez de combater a febre. Para o ministro, existe uma "pauta política" como pano de fundo na causa ambiental e que, utilizando-se do "alarmismo", proporcionaria a injeção de recursos para os supostos grupos interessados.

Salles também buscou defender o governo Bolsonaro ao dizer que o desmatamento vem aumentando desde 2012 e que os dados do Inpe já haviam sido contestados antes, nos governos Michel Temer (MDB), Dilma Rousseff (PT) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O ministro declarou que o país não é um "patinho feio" em relação a outras nações no que diz respeito ao meio ambiente. Também apontou uma suposta hipocrisia em referência a Noruega, que doou R$ 3,2 bilhões para ações de defesa socioambiental na Amazônia, mas ameaçou se retirar do fundo devido a mudanças de governança propostas pelo Ministério do Meio Ambiente.

Salles lembrou que a Noruega explora petróleo no Ártico e permite a caça de baleias.

Também nesta quarta-feira (7), o ministro disse, em audiência pública na Câmara, que os recursos do Fundo Amazônia são inexpressivos diante dos problemas da região.

"O Fundo Amazônia, tendo sido uma doação ao governo brasileiro, alocada em um banco público brasileiro, para resolver questões que estão subordinadas à soberania brasileira, ele só deve ser aplicado à luz do que interessa ao Brasil, ainda que seja uma origem de doação estrangeira, porque se assim não for nós não estamos falando de doação, e sim de colocação condicionada de recursos, que me parece não ser o caso, e se for, talvez seja o caso de refletir que nos interessaria, até por ser um montante tão inexpressivo diante da necessidade de uma região tão grande", disse Salles.

Fundo Amazônia

Criado em 2008 para receber doações destinadas a ações contra o desmatamento, o Fundo Amazônia foi alvo de críticas da gestão Bolsonaro. Isso porque países que investiram na iniciativa, como Noruega (R$ 3,2 bilhões) e Alemanha (R$ 200 milhões), tem pressionado o governo a manter o rigor das políticas ambientais e de combate ao desmate, que tem crescido em 2019, segundo mostram os próprios dados do Inpe.

Em maio, Salles disse que havia irregularidades no fundo, o que foi rebatido pelas autoridades norueguesas e alemãs. O ministro tem planos de realizar mudanças em relação à estrutura do Fundo Amazônia, reduzindo o número de conselheiros de 24 para sete e priorizando o governo federal na composição. As embaixadas dos dois países europeus já se manifestaram publicamente contra a proposta.

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