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Óleo no NE: Tamar adia soltura de filhotes de tartarugas por risco de morte

Tartaruga oleada encontrada na praia da Redinha, em Natal - Centro de Descontaminação de Fauna Oleada da UERN
Tartaruga oleada encontrada na praia da Redinha, em Natal Imagem: Centro de Descontaminação de Fauna Oleada da UERN

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió

07/10/2019 12h54Atualizada em 07/10/2019 16h47

O projeto Tamar suspendeu, temporariamente, a soltura de filhotes de tartaruga marinha em Sergipe e no extremo norte da Bahia devido ao risco de morte dos animais com a contaminação de petróleo na costa do Nordeste brasileiro. Seiscentos filhotes que nasceram no fim de semana estão sendo mantidos em piscinas até que órgãos ambientais definam junto com o Tamar um local seguro para a soltura dos animais.

A instituição havia divulgado que eram 200 filhotes, na manhã de hoje, mas atualizou nesta tarde para 600 animais. O número pode aumentar, pois há outros ninhos em período de eclosão.

O litoral do Nordeste brasileiro está afetado pela presença de óleo cru, de origem desconhecida. Pelo menos 132 praias, de 61 municípios nos nove estados nordestinos, foram atingidas pelo óleo, segundo dados do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) repassados ontem.

Uma tartaruga de pente (Eretmochelys Imbricara) foi encontrada morta com manchas de óleo na praia de Mangue Seco, no município de Coqueiro (BA), no fim de semana. O animal foi levado para Sergipe para análise do casco. A tartaruga morta ainda não foi contabilizada pelo Ibama.

O engenheiro de pesca do projeto Tamar, Augusto Cesar Coelho, explica que a letalidade do óleo, que é tóxico, compromete diretamente a soltura dos filhotes. "O problema não é só o óleo na praia, é no mar que esse material pode matar as tartarugas e, principalmente, seus filhotes", diz.

Os filhotes que aguardam definição do local de soltura são da espécie Lepidochelys olivácea (tartaruga-oliva), que tem classificação de perigo de extinção, segundo o Ministério do Meio Ambiente.

"O ideal é que os filhotes sejam soltos logo que nascem, mas nessa condição que a área está, eles correm risco de morrer. Esses filhotes não podem interagir no mar com o óleo, pois podem não sobreviver. Estamos mantendo os filhotes em piscinas monitoradas por veterinários até que o Ibama e ICMBio definam um local seguro, se soltaremos em alto mar ou em outra área não atingida", explica o engenheiro de pesca.

Temporada de reprodução

Segundo o Tamar, nascem cerca de 1 milhão de filhotes de tartarugas por ano na área afetada pelo óleo do extremo Norte da Bahia até o litoral de Sergipe. Manchas de óleo foram encontradas na reserva biológica de Santa Isabel, em Pirambu (SE), uma das bases do projeto Tamar.

A temporada de reprodução das tartarugas marinhas no Brasil começa em setembro, com as primeiras desovas. Nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, ocorre o maior número de nascimento de tartarugas marinhas.

Das sete espécies de tartarugas marinhas existentes no mundo, cinco desovam no Brasil. As regiões Nordeste e Sudeste possuem importantes áreas de desova destas cinco espécies de tartarugas marinhas: tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), tartaruga-verde (Chelonia mydas), tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea) e tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea). Todas as cinco espécies correm risco de extinção.

O projeto Tamar destaca que esta temporada reprodutiva está promissora, pois a ocorrência de ninhos começou um mês antes, em agosto, e há uma grande quantidade de ninhos nas praias brasileiras. O maior número de ninhos é de tartaruga-oliva.

"Desde agosto, estão sendo registrados inúmeros ninhos desta espécie no litoral sergipano e no extremo norte baiano. Ocorrências de tartaruga-cabeçuda também já foram observadas nestes estados desde o início da temporada", destaca o projeto Tamar.

Segundo o Tamar, as praias da Bahia e de Sergipe registram desovas de quatro espécies e, juntas, formam a mais importante área de reprodução da tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea).

Chegada das manchas no litoral do nordeste

As primeiras manchas surgiram no litoral de Pernambuco, no início de setembro. Depois, material semelhante foi encontrado na Paraíba, Alagoas, Rio Grande do Norte e se espalhando para o Ceará, Piauí e Maranhão. Por fim, o material chegou ao estado da Bahia no último dia 3.

O governo de Sergipe decretou estado de emergência nos municípios atingidos pelo óleo. As medidas tomadas foram tomadas por conta do surgimento de extensa mancha de óleo na praia dos Artistas, em Coroa do Meio. A praia foi interditada devido à presença do material, que é tóxico. Segundo a Adema (Administração Estadual do Meio Ambiente), esta é a maior concentração da substância já encontrada nos nove estados nordestinos afetados pelo derramamento de petróleo cru desde o mês passado.

A Petrobras afirma que o material trata-se de petróleo cru e que não é compatível com substratos extraídos no Brasil.

A fauna marinha está sofrendo com a poluição do petróleo cru encontrado no litoral de todos os estados do Nordeste brasileiro. Pelo menos 12 animais apareceram cobertos com a substância. Onze tartarugas marinhas e uma ave foram resgatadas oleadas, mas apenas quatro tartarugas estão vivas, segundo relatório do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) determinou em um decreto, publicado no sábado (5), investigação sobre as causas e de quem é a responsabilidade sobre o derramamento de óleo que vem atingindo a costa nordestina há um mês. No despacho, Bolsonaro determinou que sejam apresentados, no prazo de 48h, dados coletados e as providências tomadas sobre o problema ambiental. A investigação deve ser feita pela Polícia Federal, Comando da Marinha, Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

A Polícia Federal instaurou inquérito, no último dia 2, para investigar o derramamento de óleo no litoral do Nordeste. O MPF (Ministério Público Federal) no estado também apura o desastre ambiental.

Mancha extensa de o?leo e? filmada na praia dos Artistas, em Aracaju

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