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Análise: É o vírus, estúpido!

20.jun.2020 - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursa a apoiadores durante comício em Tulsa, Oklahoma - Nicholas Kamm/AFP
20.jun.2020 - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursa a apoiadores durante comício em Tulsa, Oklahoma Imagem: Nicholas Kamm/AFP
Kennedy Alencar

Kennedy Alencar

Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na Folha de S.Paulo, onde foi redator, repórter, editor da coluna "Painel' e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro "Kosovo, a Guerra dos Covardes" (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas "É Notícia' e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário "What Happened to Brazil", realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada "Brasil em Transe", o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

26/06/2020 12h20

A cerca de quatro meses da eleição, o crescimento de casos de covid-19 em 33 dos 50 Estados americanos é mais uma notícia ruim para o presidente Donald Trump. O agravamento da pandemia torna mais lenta a já vagarosa recuperação da economia, a principal aposta do republicano para tentar se reeleger em 3 novembro.

Entre o fim de abril e começo de maio, Trump fez pressão pela reabertura da economia em Estados que não atendiam aos critérios sanitários do seu próprio governo para que pudessem dar esse passo com segurança. O presidente dizia publicamente que o país não poderia mais "ficar fechado" e atacou governadores democratas que se recusavam a atender ao chamado por uma reabertura a jato.

Neste começo de verão, os três estados mais populosos do país, Califórnia, Flórida e Texas, veem os números de covid-19 subirem a patamares alarmantes. No Arizona, a situação parece fora de controle, com recordes recentes de novos casos ameaçando estrangular a capacidade de atendimento hospitalar. Governadores voltaram a discutir medidas para incentivar as pessoas a ficar em casa, respeitar o distanciamento social e tornar obrigatório usar máscara em público.

No começo de junho, parecia que o coronavírus havia dado uma trégua, mas foi uma ilusão de fim de primavera. Neste fim de mês, apenas estados que jogaram duro para enfrentar a pandemia e foram cuidadosos ao reabrir a economia têm apresentado taxas baixas de infecção por coronavírus.

Nova York, Nova Jersey, Massachusetts e Connecticut, estados que foram duramente atingidos em março, abril e maio, são exemplos de que cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

No atual cenário, a recuperação da economia em todo o país não acontecerá num ritmo que possa trazer dividendos eleitorais a Trump. Pelo contrário. Sua estratégia é a do tiro no pé, como mostram as pesquisas que apontam vantagem folgada do democrata Joe Biden na disputa pela Casa Branca.

O presidente americano tem exercido uma liderança irresponsável do ponto de vista sanitário. Faz comícios em plena pandemia, questiona a testagem em larga escala e se recusa a usar máscaras em público, dando um mau exemplo que acaba sendo seguido pela parte mais radical da sua base de eleitores. Trump conseguiu politizar até o uso da máscara —expediente que, comprovadamente, diminui o risco de transmissão do coronavírus.

Ao negar a ciência, sabotar a quarentena e pensar apenas em seus interesses pessoais, líderes como Trump apenas esticaram o sacrifício econômico do conjunto da sociedade.

Sem controlar a pandemia, não haverá confiança dos agentes econômicos e dos consumidores para um ambiente de negócios minimamente saudável. É ruim para a população, mas também para os objetivos eleitorais de Trump. Como diria James Carville, "é o vírus, estúpido!".