PUBLICIDADE
Topo

Conversa de policial preso revela "drible" na PF e mala pronta para cadeia

Folhapress
Imagem: Folhapress
Josmar Jozino

Josmar Jozino

Jornalista há 35 anos. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado, entre eles, "Cobras e Lagartos', obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

16/07/2020 04h02

A grande preocupação do capitão da Polícia Militar (PM) Douglas Takahashi, 40 anos, quando teve seu apartamento invadido por agentes da Polícia Federal (PF) em 23 de junho de 2017, não eram as 3.219 unidades de anabolizantes proibidos nem os R$ 219 mil em espécie encontrados no imóvel.

O medo do oficial, um policial muito elogiado por superiores quando atuou na divisão de Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), foi a apreensão de um carregador de pistola calibre 40, com numeração raspada, guardado no veículo dele, estacionado na garagem do edifício no bairro do Jabaquara, zona sul.

Takahashi foi preso duas semanas depois, em 7 de julho de 2017, na Operação Proteína, deflagrada pela PF em cinco estados contra uma quadrilha especializada em comercializar anabolizantes e outras drogas. Segundo investigações da PF, os acusados movimentavam R$ 2 milhões por mês.

No dia da invasão ao prédio onde Takahashi morava, os agentes não o prenderam e apenas cumpriram mandados de busca e apreensão. O oficial ficou surpreso, pois já havia até arrumado a mala com roupas para levar para o Presídio Militar Romão Gomes, na Água Fria, zona norte.

Na noite de 23 de junho e no início da tarde do dia seguinte, o PM, do telefone celular, ligou para um colega não identificado. Takahashi só não sabia que seu aparelho havia sido grampeado com autorização da Justiça Federal.

"Cheguei a preparar minha mala"

Em um dos diálogos, interceptado às 21h52, o capitão comenta com o amigo: "Que sorte eu dei. Cheguei até a preparar minha mala para levar ao presídio". Outra ligação, feita para a mesma pessoa, foi monitorada às 12h59 de 24 de junho.

O capitão, aparentando estar preocupado com a situação, fala com o amigo: "Mano, acharam o carregador raspado, da pistola 40, no carro. Se eles jogarem ácido em cima da numeração e se berrar (identificar), aí vai dar inquérito, né", prevê o PM.

Na continuação da conversa, Takahashi diz que iria tentar falar e negociar com o responsável pela perícia no carregador apreendido: "Vou tentar entrar em contato com a perícia para tornar o laudo inconclusivo. Se ficar inconclusivo, já é mil grau".

Ele explica ainda para o interlocutor que em sua defesa, para justificar a posse dos anabolizantes, iria alegar que é treze compulsivo (na linguagem policial, treze significa pessoas com transtornos psicológicos).

Takahashi afirmou que dinheiro apreendido era de policiais

Em outro trecho, o capitão afirma que os agentes federais apreenderam o dinheiro que era de policiais. E depois ele acrescenta que iria trocar de telefone celular: "Esse número vai sair do ar". Antes de encerrar o diálogo, Takahashi faz outra revelação comprometedora.

Ele conta para o amigo que, quando os agentes federais bateram na porta do apartamento e gritaram para abrir que era a polícia, ele respondeu que também é policial e pediu para um deles passar o mandado de busca e apreensão por debaixo da porta.

"Faltou pouco pra derrubar a porta. Eu falei 'calma, aqui é polícia também'. Passa o mandado de busca e apreensão por debaixo da porta. Nessa dai, até ler o bagulho, deu pra, né"... O interlocutor responde: "Pra administrar né"? Takahashi diz: "É, alguma coisa, mas muito pouca coisa".

Para a Polícia Federal, esse último diálogo interceptado pelos agentes indica que o capitão eliminou provas consideradas importantes para as investigações e conseguiu dispensar algo ilícito que guardava no apartamento.

Justiça e MPF apontaram delitos e tentativa de eliminar provas

O Ministério Público Federal (MPF) pediu a condenação dele e argumentou: "Na condição de oficial da PM violou deveres inerentes à sua profissão, que se destina a combater crimes, e passou a cometê-los, integrando organização criminosa destinada à prática de delitos hediondos".

Para a Justiça Federal, o oficial tentou interferir na investigação para eliminar as provas que seriam produzidas, inclusive o resultado na perícia no carregador da pistola calibre 40, que ficou a cargo da Polícia Militar.

No dia 27 de abril de 2018, Douglas Takahashi foi condenado a nove anos e quatro meses de prisão em regime fechado, por associação à organização criminosa, e também à perda do cargo público, pelo juiz Fernando Toledo Carneiro, da 7ª Vara Criminal Federal de São Paulo. Hoje ele está em prisão domiciliar.

Advogado afirma que dinheiro apreendido era fruto de trabalho legítimo

Francisco Tolentino Neto, advogado do capitão Douglas Takahashi, disse que seu cliente foi condenado injustamente e que há um recurso, em segunda instância, pedindo a revisão da pena.

Segundo Tolentino Neto, o capitão tem uma empresa e o dinheiro apreendido no apartamento dele era fruto do trabalho e que tudo foi declarado legalmente à Receita Federal.

O defensor afirmou que Takahashi jamais vendeu anabolizante e que não há prova de que ele seja integrante de associação criminosa. O advogado acrescentou que o carregador de pistola encontrado no carro nunca foi de seu cliente e que o oficial não estava presente no momento da apreensão.

Tolentino Neto afirmou também que foi oferecida a oportunidade de delação premiada para Takahashi, mas ele não aceitou porque nada tem a delatar.

Condenado e preso, PM ainda recebe salário

O advogado explicou que Takahashi ainda pertence aos quadros da Polícia Militar, pois seu processo administrativo não foi encerrado; que o oficial teve seus proventos suspensos e que cumpre a pena em regime domiciliar.

Porém, no Portal da Transparência Estadual, site oficial do Governo de São Paulo, consta que no mês passado Douglas Takahashi teve remuneração de R$ 10.193,69 e total líquido de R$ 2.958,00.

A reportagem procurou o Serviço de Comunicação Social da Polícia Militar, na noite de terça-feira (14/7) para saber se foi realizada a perícia no carregador apreendido e qual o resultado do laudo. Porém, até a conclusão da reportagem, nesta quarta-feira (15/7), a PM não havia dado retorno.

Família de assaltante reclama de execução em 2010

Quando atuou na Rota, Takahashi participou de ações contra integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Uma das operações polêmicas comandadas por Takahashi aconteceu às 23h do dia 17 de maio de 2010 na avenida Radial Leste, imediações da Estação Guilhermina-Esperança da Linha 3-Vermelha do Metrô de São Paulo.

O assaltante de bancos e de joalherias Fábio Fernandes da Silva, 28, o Vampirinho, trafegava pela via com sua BMW vermelha. A bordo do veículo estava sua namorada, uma jovem de 26 anos, ex-mulher de um policial militar.

Douglas Takahashi era tenente e disse que recebeu denúncia anônima informando que dois indivíduos foragidos da Justiça estariam na Radial Leste, sentido Centro.

Segundo o então tenente, o carro com os suspeitos foi avistado e perseguido. Takahashi afirmou que o motorista tentou empreender fuga, mas colidiu com outros dois carros e desceu da BMW com uma submetralhadora, atirando contra os policiais.

Justiça afirma que policiais agiram em legítima defesa

O oficial acrescentou que Vampirinho foi baleado no revide e levado para o Hospital Santa Marcelina, em Itaquera, zona leste, onde morreu. O caso foi registrado no 10º DP (Penha), como resistência seguida de morte.

A namorada de Vampirinho, a princípio, contou a mesma versão dos policiais. Porém, dias depois, integrantes do PCC a encontraram e questionaram se ela havia falado a verdade no 10º DP. O inquérito policial, no entanto, seria investigado pelo 21º DP (Vila Matilde).

A garota foi então até a delegacia da Vila Matilde e contou outra história. Afirmou que foi ameaçada pelos policiais da Rota e obrigada a contar a versão mentirosa de resistência seguida de morte. No 21º DP, a jovem afirmou que Vampirinho estava desarmado e que quando foi abordado por PMs da Rota na BMW, ele parou o carro e colocou as mãos para cima.

Ela revelou que foi puxada pelos cabelos para fora do carro e que um policial a obrigou a se deitar com o rosto colado no chão. Em seguida ouviu três tiros. Vampirinho estava praticamente morto. A camiseta que ele usava, que indicava que os disparos foram à queima-roupa, sumiu.
A garota afirmou também que só não morreu porque contou aos PMs que era ex-mulher de um policial militar. Meses depois, o DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) assumiu as investigações do caso.

Takahashi e os outros dois policiais foram investigados pela morte de Vampirinho. A Justiça entendeu que os PMs agiram em legítima defesa e no estrito cumprimento do dever.

Já para os parentes de Vampirinho, ele foi executado pelos policiais militares comandados por Takahashi. A família dele entrou com ação na Justiça contra o Estado pedindo indenização por danos morais e materiais. O processo está em andamento.