PUBLICIDADE
Topo

Após 9 meses, polícia não sabe como 593 kg de maconha sumiram de delegacia

Roberto Valdivia/Unsplash
Imagem: Roberto Valdivia/Unsplash
Josmar Jozino

Josmar Jozino

Jornalista há 35 anos. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado, entre eles, "Cobras e Lagartos', obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

17/07/2020 04h03

Quem trocou por cacos de tijolo baiano os 593 kg de maconha apreendidos com um traficante de drogas e armazenados por seis anos em uma sala no 90º Distrito Policial (Parque Novo Mundo), zona norte da Capital?

A Corregedoria da Polícia Civil, órgão fiscalizador da instituição, investigou o caso durante nove meses e até agora não sabe responder essa pergunta.

A troca da maconha foi descoberta no dia 15 de março do ano passado, na presença de promotores de Justiça e de policiais, quando a droga deveria ser incinerada.

Promotores de Justiça estranharam a diferença de peso de um dos pacotes, que estaria mais leve. Quando retiraram o lacre tiveram uma surpresa: Em vez de maconha havia tijolos, barro, gesso, madeira e cal, ou seja, materiais usados na construção civil.

Em nota, a SSP (Secretaria Estadual da Segurança Pública) informou nesta quarta-feira (14) à reportagem que o caso foi investigado em inquérito pela 2ª Divisão de Crimes Funcionais da Corregedoria e relatado à Justiça em 17 de dezembro de 2019, sem indiciamento.

Ainda segundo a SSP, após a manifestação do Ministério Público do Estado de São Paulo, o caso foi arquivado em 19 de janeiro deste ano.

Piadas e espanto

Quando o episódio foi tornado público em primeira mão pela imprensa escrita, leitores consideraram o caso um deboche e escreveram centenas de depoimentos engraçados, a grande maioria ironizando o sumiço de quase 600 kg de maconha do distrito policial.

Já o ex-secretário Nacional Antidrogas Walter Maierovitch ficou espantado com o fato de a Corregedoria ter relatado o inquérito sem haver indiciamento.

"É um espanto mesmo não ter nenhum indiciado. Eu considero impossível mais de meia tonelada de maconha sumir de uma delegacia sem deixar um indicativo, sem ninguém saber nem ter visto nada".

Para Maierovitch, a situação é muito preocupante: "Assim como sumiu quase 600 kg de maconha, também pode desaparecer centenas de quilos de cocaína das delegacias, além de outras drogas mais fortes", ressaltou.

Apreensão foi feita em 2013 no interior de SP

Os 593 kg de maconha foram apreendidos em 14 de maio de 2013 por três policiais do 90º DP em um caminhão estacionado em um posto de combustível na cidade de Itatiba (SP).

O entorpecente estava escondido em meio a uma carga de balcões de pias. O motorista foi preso em flagrante e autuado por tráfico. Um policial que participou da prisão dele chegou a ser preso pela Polícia Federal em junho de 2017, durante uma operação contra a venda ilegal de anabolizantes.

A nota divulgada pela Secretaria Estadual da Segurança Pública não informa se os três policiais que realizaram a apreensão da maconha foram investigados pelo desaparecimento da droga.

ERRATA: O título original da reportagem citava a Polícia Militar quando o caso ocorre no âmbito da Polícia Civil.