Operação Lava Jato

Em depoimento à PF, Lula fica irritado, brinca e fala palavrão; leia trechos

Flávio Costa, Nathan Lopes, Wellington Ramalhoso e Marcelo Freire

Do UOL, em São Paulo

  • Marcelo Machado de Melo/Reuters

    Por decisão do juiz Sérgio Moro, o ex-presidente foi obrigado a depor à Polícia Federal, no último dia 4

    Por decisão do juiz Sérgio Moro, o ex-presidente foi obrigado a depor à Polícia Federal, no último dia 4

O ex-presidente Luiz Inácio da Silva mostrou-se irritado, constrangido e, por vezes, irônico, ao prestar depoimento à Polícia Federal. Alvo da 24ª fase da Operação Lava Jato, Lula foi obrigado a depor no aeroporto de Congonhas, no último dia 4 de março.

A íntegra do depoimento foi disponibilizada pela Justiça Federal no Paraná nesta segunda-feira (14), um dia após os protestos contra a presidente Dilma Rousseff e o próprio ex-presidente.

Durante o depoimento, Lula afirmou desconhecer detalhes sobre as transações financeiras do instituto que leva o seu nome, reclamou de "vazamentos da Lava Jato" à imprensa. Ele negou novamente ser dono do sítio de Atibaia e declarou ter desistido da compra do tríplex do Guarujá por considerá-lo inadequado para a família e afirmou que a investigação contra ele é uma "sacanagem homérica".

A investigação apura se empreiteiras favoreceram Lula, que seria o dono do apartamento e do sítio. 

O ex-presidente reafirmou que é amigo de José Carlos Bumlai, preso desde novembro pela Operação da Lava Jato, mas declarou desconhecer qualquer operação ilegal envolvendo o pecuarista.

Leia abaixo trechos do depoimento:

Sobre o promotor Cassio Conserino, do MP-SP

"Se você está atrás da verdade, você mande prender um cidadão do Ministério Público, que diz que o apartamento é meu, mande prendê-lo", sugeriu Lula ao delegado federal Luciano Flores de Lima, que conduziu o depoimento.

O ex-presidente referia-se ao promotor Cassio Conserino, um dos três membros do Ministério Público que, na semana passada, o denunciou à Justiça elos crimes de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica no caso do tríplex do GuarujáConserino também pediu a prisão de Lula.

Moacyr Lopes Junior/Folhapress
Ministério Público de SP e Lava Jato investigam a propriedade do tríplex no Guarujá

Pedalinho do constrangimento

Sobre os dois pedalinhos que permanecem no sítio de Atibaia (SP) e que têm capas que estampam nomes de seus netos, Lula mostrou irritação. "Eu fico, acho que não é legal, eu fico constrangido de você me perguntar de pedalinho e de me perguntar de um barco de R$ 3.000, sinceramente eu fico (...)"

"Bom churrasqueiro"

O delegado da PF pergunta ao ex-presidente quem costuma acompanhá-lo, além da mulher Marisa Letícia, quando ele visita o sítio em Atibaia, que está em nome de Fernando Bittar e Jonas Suassuna. Lula responde: "Meus amigos". O delegado pergunta então se Fernando Bittar é um desses amigos. Lula responde: "Dentre os quais, o Fernando Bittar, que, aliás, é um bom churrasqueiro."

Jefferson Coppola/Revista Veja
Sítio em Atibaia (SP) frequentado por Lula e familiares

"Vão ter que ter coragem de me tornar inelegível"

"Acho que muita gente que fez desaforo pra mim, vai aguentar desaforo daqui pra frente. Vão ter que ter coragem de me tornar inelegível. Porque, é o seguinte, eu tenho uma história de vida, eu tenho uma história de vida, a minha mulher com 11 anos de idade já trabalhava de empregada doméstica e minha mulher prestar um depoimento sobre uma porra de um apartamento que não é nosso?! Manda a mulher do procurador vir prestar depoimento, a mãe dele. Por quê que vai minha mulher? Por que as pessoas não levam em conta a família que está lá, a molecada frequenta escola. Então, eu quero te dizer o seguinte: eu ando muito puto da vida, muito, muito zangado porque a falta de respeito e a cretinice comigo extrapolou. E olha que eu tenho me comportado, tenho tentado manter a linha, vou cumprir tudo que eu acho que tem que ser cumprido, porque nesse país ninguém cuidou mais de fazer lei pra cobrir a corrupção do que nós, ninguém, ninguém."

Zanone Fraissat/Folhapress

'Nem dízimo de igreja é espontâneo'

Perguntado se é comum empresas procurarem espontaneamente seu instituto para oferecer doações, Lula disse que "ninguém procura ninguém espontaneamente para dar dinheiro".

"Nem o dízimo da igreja é espontâneo. Se o padre ou o pastor não pedir, meu caro, o cristão vai embora, vira as costas e não dá o dinheiro. Então, dinheiro você tem que pedir, você tem que convencer as pessoas do projeto que você vai fazer, das coisas que você vai fazer", disse o ex-presidente.

"Lamentavelmente, no Brasil, ainda não é uma coisa normal. Mas, no mundo desenvolvido, isso já é uma coisa normal, ou seja, não é nem vergonha nem crime alguém dar dinheiro para uma fundação. Aqui no Brasil, a mediocridade ainda transforma tudo em coisas equivocadas".

No depoimento, o ex-presidente também disse que não pede dinheiro porque não faz parte de sua vida política. "Desde que estava no sindicato, eu tomei uma decisão: 'eu não posso pedir nada a ninguém porque eu ficaria vulnerável diante das pessoas'".

O delegado, então, questionou Lula: "o senhor nunca pediu dinheiro em nome do instituto?". A resposta: "não, e pretendo não pedir nos últimos anos que eu tenho de vida".

O anão dos vazamentos

"Eu fui presidente durante 8 anos, a Dilma já está há 5 [anos]. Até hoje ela se queixa do vazamento das reuniões que ela faz, termina a reunião tem uma coisinha no jornal. No meu tempo a gente dizia que tinha um anão embaixo da mesa da Presidência da República, porque com a gente lá acontecia, e esses companheiros conseguiram comprar um sítio e ficaram de agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro e janeiro sem vazar essa porra."

Marcelo Machado de Melo/Reuters

'Quero que você conheça'

Após o delegado da PF perguntar se conhecia a empresar Flex BR --que pertence a um de seus filhos e recebeu dinheiro do instituto, segundo o MPF--, Lula reagiu com ironia: "Essa eu faço questão que você conheça". "Eu não conheço, quero que você conheça, eu não conheço, quero que você vá conhecer", disse o ex-presidente.

Flores, então, pergunta por quê. Lula diz: "Porque é uma peça de ficção. Eu não conheço, não sei onde fica. Eu sei que vocês estão investigando ela porque eu vi no relatório. Deus queira que vá muita gente da Polícia Federal lá para ver, e ver o que ela já produziu na vida. Se eu não ouvi falar? Se eu não tivesse ouvido falar, eu teria ouvido aqui na petição que me mandaram aqui, porque tem escrito nela".

'O que tem para comer?'

Avisado por um agente da PF sobre lanches disponíveis para comer ao longo do depoimento, Lula perguntou: "o que vocês têm aqui para comer?".

Depois, o delegado ironizou: "o ex-presidente, no fim, saiu sem café e tem todo o direito aí de se alimentar". Em seguida, Lula disse que não queria "só um pãozinho". "Então vou aproveitar para pegar um cafezinho também", falou o delegado. Lula, então, disse que iria escolher um "misto quente" e chegou a oferecer o alimento para seu advogado: "o senhor quer? O senhor tomou café em casa? Tem pão de queijo aqui, olha, quem quiser pão de queijo".

Frango no cofre

"A primeira viagem que eu fiz para a ONU, 23 de setembro de 2003, os companheiros que levam a bagagem, alguns companheiros de segurança levaram frango com farinha, chegaram no hotel que todo mundo acha que é chique, o Waldorf Astoria. Eles imaginaram que o cofre era o micro-ondas e colocaram o frango lá dentro, e não conseguiram abrir o cofre, acho que o frango deve estar lá até hoje ou o cara do hotel encontrou o frango. O pessoal da presidência comia coisa que levava, às vezes cozinhava no quarto, porque a diária não dava para pagar nada."

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