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SP: Ustra vira Judas em ato contra golpe de 64; RJ pede tortura nunca mais

Bernardo Barbosa e Marina Lang

Do UOL, em São Paulo, e colaboração para o UOL, no Rio

31/03/2019 16h58Atualizada em 31/03/2019 19h33

Um boneco "Judas" representando o coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932-2015), que já foi reconhecido judicialmente como torturador durante a ditadura militar, foi queimado durante ato contra a comemoração do golpe militar de 1964 na avenida Paulista, em São Paulo. Ustra sempre negou envolvimento em casos de tortura.

Antes de ser queimado, o boneco trazia pendurada uma placa dizendo "Sou Ustra, torturador, ídolo do Bozo". O presidente Jair Bolsonaro (PSL) já fez elogios públicos a Ustra -- no ano passado, afirmou que "A Verdade Sufocada", escrito pelo coronel para falar da luta armada de esquerda na ditadura, era seu livro de cabeceira.

Ustra foi apontado pela Comissão Nacional da Verdade como um dos responsáveis por torturas durante a ditadura militar. Em 2008, a Justiça de São Paulo o reconheceu como torturador.

No ano passado, a mesma Justiça paulista extinguiu processo em que Ustra foi condenado a indenizar a família do jornalista Luiz Eduardo Merlino, torturado e morto no DOI-CODI -- órgão de repressão que foi chefiado pelo coronel. O Judiciário entende que o pleito da família tinha prescrito.

Além do protesto contra a comemoração do golpe militar, o ato na avenida Paulista teve pedidos de "Fora Bolsonaro", entre outras palavras de ordem contra o presidente, e de "Lula livre", pela liberdade do ex-presidente petista. O assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) também foi lembrado.

Boneco representando o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra foi hostilizado durante ato em São Paulo - Bernardo Barbosa/UOL
Boneco representando o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra foi hostilizado durante ato em São Paulo
Imagem: Bernardo Barbosa/UOL

Na segunda-feira da semana passada, o governo anunciou que Bolsonaro tinha revertido uma proibição de comemorações do golpe militar pelas Forças Armadas. Depois, o presidente disse que o objetivo era "rememorar", e não comemorar.

A manifestação foi convocada pelos partidos PCO e PCdoB, além da central sindical CUT. Segundo João Pimenta, da juventude do PCO e um dos organizadores do ato, a decisão de Bolsonaro é "ultrajante" para todos os que foram mortos, torturados e desaparecidos na ditadura militar.

"É um negócio que a gente não pode permitir, não dá para aturar", disse. "O que eles estão fazendo não é só uma questão de história, não é só o passado e o presente que estão em disputa aqui. É uma questão do futuro. O que eles querem fazer é preparar o terreno para uma nova intervenção."

Hoje, a Presidência divulgou uma foto de um papel assinado por Bolsonaro com a frase: "Quem esquece seu passado está condenado a não ter futuro". O presidente está em viagem oficial a Israel.

Segundo a PM, cerca de 150 pessoas participaram do ato na avenida Paulista.

No Rio, manifestante pede: "tortura nunca mais"

No Rio, a manifestação juntou o repúdio à ditadura com atos em defesa da memória da vereadora assassinada Marielle Franco (PSOL) e pedidos pela liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Vários políticos de partidos como PSB, PCdoB e PT foram à manifestação, na Cinelândia, região central.

No Rio, o administrador Herbert Garcia e os filhos empunhavam cartazes contra a tortura - Marina Lang/UOL
No Rio, o administrador Herbert Garcia e os filhos empunhavam cartazes contra a tortura
Imagem: Marina Lang/UOL

"A gente tem que lembrar o povo brasileiro o quão foi horrível o que aconteceu naqueles 21 anos, quantas pessoas morreram. 20 mil pessoas foram torturadas, 2000 índios foram mortos. A gente tem que avisar a população que isso não pode voltar. Tortura nunca mais", disse ao UOL o administrador Herbert Garcia, 50.

Garcia e os filhos empunhavam cartazes contra a tortura, método usado pela ditadura para oprimir militantes e opositores ao regime. "Sempre fui contra o golpe e sobretudo contra a tortura. É muito desumano. É horrível que o Bolsonaro seja a favor de comemorar algo tão amedrontador", disse a estudante Antonia Pereira Garcia, 19, filha do administrador.

"Sou contra essa ideia retardada do Bolsonaro para comemorar 1964. Acompanho meu pai, que defende as ideias comunistas e sou contra essa ideologia que o Bolsonaro tenta nos fazer engolir", disse o irmão de Antonia, o estudante Pedro Eduardo Pereira Garcia, 17.

"A ditadura implantada em 64 ainda produz efeitos nefastos na sociedade brasileira. Lembrar a ditadura significa repudiar a ditadura. O Brasil tem um legado de mortos e desaparecidos e um legado de impunidade. A impunidade de ontem gerou impunidade hoje, porque matança e tortura ainda são expedientes do Estado", disse o deputado Wadih Damous (PT-RJ), presente no ato.

Ato contra o aniversário do golpe de 64 na Cinelândia critica o presidente: "Bolsonazi' - Marina Lang/UOL
Ato contra o aniversário do golpe de 64 na Cinelândia critica o presidente: "Bolsonazi'
Imagem: Marina Lang/UOL

"Tudo o que a ditadura produziu a gente tem que dizer 'não'. A obscenidade [de Bolsonaro] ficou clara quando se negou a tortura, o desaparecimento de pessoas, a censura nas artes e à imprensa, o desaparecimento de pessoas que até hoje são procuradas por suas famílias. É desrespeitoso é indigno", disse a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

"É extremamente grave que o chefe de Estado do nosso país proponha que os quartéis comemorar um golpe de estado, ao qual se seguiu uma ditadura violentíssima da qual não temos nenhuma saudade. Ele [Bolsonaro] não vai reescrever a história. Ele não vai transformar a mentira em verdade. Se o que foi feito em 64 fosse feito hoje, seria crime imprescritível e inafiançável. É o que há de mais grave no Estado Democrático de Direito", disse o deputado Alessandro Molon (PSB-RJ).

O parlamentar disse que o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, irá nesta semana à Comissão de Relações Exteriores da Câmara. Silva será questionado a respeito da determinação presidencial sobre a comemoração do golpe.

Segundo os organizadores, 5000 pessoas participaram do ato. Já segundo a Polícia Militar do Rio, foram 600.

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