PUBLICIDADE
Topo

Ninguém foi tão atacado como Bolsonaro, diz novo líder do governo

Hanrrikson de Andrade e Danielle Brant

Do UOL e da Folha, em Brasília

31/10/2019 02h00

Resumo da notícia

  • Para senador do MDB-TO, presidente se tornou alvo de 'todos os tipos de ataque'
  • Em entrevista, emedebista afirma achar impossível reduzir salário de servidores
  • Congressista diz não entender quem faz 'velha política' ou 'nova política'
  • Ao ser questionado sobre base do governo, pergunta: "qual é a base da oposição?"
  • Para ele, vai ser perda de tempo se CPI das Fake News discutir só 'ressaca eleitoral'

Novo líder do governo no Congresso, o senador Eduardo Gomes (MDB-TO) afirma, em entrevista ao UOL e à Folha de S.Paulo, que "ninguém foi tão atacado ou precisou se defender" como o presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Para o parlamentar, Bolsonaro teve a sua carreira política "interpretada" de modo injusto, o que o tornou alvo de "todos os tipos de ataque".

A declaração foi dada antes da recente polêmica envolvendo o nome do presidente na investigação do caso Marielle e se refere à repercussão de um vídeo, compartilhado por Bolsonaro, em que um leão é acossado por hienas representando o STF (Supremo Tribunal Federal), OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), veículos de imprensa e outras instituições.

O presidente deletou o conteúdo e desculpou-se, o que, na opinião do senador, é o suficiente para encerrar o assunto.

Na entrevista, concedida anteontem em Brasília, Gomes afirmou ainda considerar "impossível" o avanço de qualquer projeto do governo federal que defenda cortes no salário de servidores e prejuízos à estabilidade do funcionalismo.

Essas e outras medidas são discutidas na elaboração de uma proposta de reforma administrativa que será enviada ao Parlamento pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. O pacote vem sendo tratado como prioridade do Executivo após a aprovação do texto da Previdência, na semana passada.

"Na minha opinião, com a experiência desses poucos anos de mandato, acho impossível", disse o senador, que exerceu o cargo de deputado federal por três legislaturas (2003 a 2015) antes de se eleger senador no ano passado. "Qualquer tipo de mudança na questão do funcionalismo só ocorrerá a partir de novos concursos. Todos que estão no exercício terão seus direitos preservados. Foi isso que eu ouvi [de Guedes]".

Gomes assumiu a liderança do governo após a destituição da deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP). A parlamentar tornou-se um desafeto da família Bolsonaro em meio aos atritos provocados pela crise no PSL.

O senador também contestou o mérito da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) das Fake News, criada no Congresso para apurar a produção e disseminação de notícias falsas na internet. Um dos alvos é a campanha de Bolsonaro na eleição do ano passado. Gomes está entrincheirado com os bolsonaristas para tentar blindar o governo.

Se a CPMI funcionar apenas para discutir ressaca eleitoral, aí não. Vamos perder tempo, energia e não vamos avançar

Eduardo Gomes (MDB-TO), sobre CPMI das Fake News

Eduardo Gomes (MDB-TO), novo líder do governo no Senado - Kleyton Amorim/UOL
Eduardo Gomes (MDB-TO), novo líder do governo no Senado
Imagem: Kleyton Amorim/UOL

Experiente no Parlamento, o congressista já esteve em partidos com inclinações ideológicas distintas, à direita e à esquerda, mas é reconhecido como membro do bloco informal conhecido como centrão. Antes de migrar para o MDB a convite do senador Renan Calheiros (MDB-AL), ele fazia parte do Solidariedade. Apesar disso, o senador diz que não se enxerga como um quadro da "velha política".

"Não me considero um político fazendo velha política. Na verdade, eu não consigo entender quem está fazendo nova política e quem está fazendo velha política. Acho que a gente busca a boa política", diz.

Questionado sobre o impasse entre Bolsonaro e seu próprio partido, o PSL, Gomes disse acreditar que "essa é uma crise que começa e termina em si mesmo", já que o pano de fundo é a destinação do fundo partidário. "Os parlamentares do PSL vão exercitar essa discussão e essa briga deve terminar em breve porque eles vão precisar disputar eleição."

Leia a seguir os principais trechos da entrevista, também disponível em podcast. A íntegra da conversa, em vídeo, está disponível no fim deste texto.

'Ataques a Bolsonaro'

UOL/Folha - O que o senhor achou do vídeo das hienas e leões publicado pelo presidente nas redes sociais?

Eduardo Gomes - Tenho absoluta certeza de que, na política recente do país, ninguém foi tão atacado e precisou se defender como o presidente Jair Bolsonaro. Nesse episódio, ele fez as retratações que achou corretas. Falou na questão do vídeo pedindo desculpa. A partir do momento em que ele pede desculpa, a gente fica restrito nesse comentário às desculpas que ele pediu.

Sempre tenho dito que o presidente Bolsonaro, pela forma como teve a sua carreira política interpretada, foi obrigado sempre a se defender muito de todos os tipos de ataque. Então, eu fico com as desculpas dele porque eu não tenho mais o que falar sobre esse assunto.

Mas isso não atrapalha o seu trabalho como articulador no Congresso?

Se a pauta do Congresso é boa, o meu trabalho anda. É um trabalho de convencimento entre parlamentares sobre assuntos que beneficiam o país. Recentemente, com a decisão dele sobre a cessão onerosa, o presidente deu a cada município, cada um dos 5.700 municípios brasileiros, o mesmo tratamento. E havia muita gente que duvidava disso. Muita coisa já está acontecendo começa a ser diferente e vai ser diferente quando Bolsonaro não for mais o presidente. São coisas concretas que estão sendo delegadas a ele também.

Bolsonaro ficará mais conhecido pelas brigas ou pelas realizações?

Do jeito que existe mal-entendido, brigas, exageros e discussões, também haverá um legado mais adiante de quem realmente resolveu discutir com estados e municípios uma nova relação.

Crise no PSL

Como o sr. se tornou líder do governo?

Foi um momento importante. A gente já fazia um trabalho com o líder Fernando Bezerra [Coelho] no Senado, eu era o vice-líder no Senado. E, de repente, com todos os acontecimentos que todos no Brasil acompanharam, a discussão no PSL, a deputada Joice saiu do cargo, e o cargo de líder do governo no Congresso é de exclusiva escolha do presidente da República, e eu fui convidado para cumprir esse papel durante o período pós-reforma da Previdência.

Joice errou ao comprar a briga com a família Bolsonaro?

É um assunto difícil de comentar, a partir da declaração do próprio presidente, que falou recentemente que o PSL não cresceria tanto se fosse isolado na eleição. O PSL cresceu com o Bolsonaro, e o presidente disse, também por uma questão de reconhecimento, que ele não seria presidente sem o apoio do PSL. Eles cresceram juntos, começaram a governar juntos, continuam juntos e brigando. É uma discussão que vai amadurecer.

Joice Hasselmann e Jair Bolsonaro - Reprodução/Twitters
Joice Hasselmann e Jair Bolsonaro
Imagem: Reprodução/Twitters

Acredito que essa crise do PSL começa e termina em si mesmo. Há uma discussão sobre as eleições municipais, sobre a destinação de fundo partidário, uma coisa séria e regulamentar, uma força que os partidos têm a partir de agora para definir as suas prioridades nas eleições municipais e, em seguida, nas estaduais.

O PSL é um partido que teve um volume grande de votos e ganhou a votação em vários estados. Os parlamentares do PSL vão exercitar essa discussão e essa briga deve terminar em breve porque eles vão precisar disputar a eleição.

Joice e Major Vitor Hugo, líder do governo na Câmara, são deputados de primeiro mandato. Faltou maturidade?

A própria deputada [Joice] já vinha deixando claro na imprensa e nos meios de comunicação a sua intenção de disputar a Prefeitura de São Paulo no próximo ano. Esse tempo de dois meses separou a deputado de realmente sair da liderança para a disputa municipal e foi tolhida pela crise do partido. A gente continua conversando. Esse é um ajuste que o tempo vai consertar.

Era um processo natural porque ela [Joice] foi muito bem votada, teve uma votação expressiva na cidade de São Paulo. E o Major Vitor Hugo [PSL-GO], ele tem exercitado também a paciência, a cordialidade, o trato com os outros líderes. Ele já não é tão inexperiente assim, pois é consultor de carreira da Câmara dos Deputados, concursado. Foi muito criticado no começo de sua indicação, mas ele vem superando.

Como é a sua relação com Bolsonaro?

Qualquer pessoa que viveu no Congresso e na Câmara nos últimos 20 anos viu a firmeza e a obstinação de Bolsonaro em defender determinadas teses e, a partir de um determinado momento, defender e conquistar a Presidência. Isso a gente foi acompanhando aos poucos. Quem é da política sabe disso. Eu acho que há uma questão de respeito mútuo e confiança. Afinal de contas, o que eu disse ao presidente é que pretendo ser um líder do governo que vai tratar das questões da pauta do Congresso.

Formação de base no Congresso

Qual é a base partidária que o senhor considera ter hoje?

A política de composição de base no Congresso vem se modificando a partir deste. Ela é muito mais contra uma agenda alternativa.

Muitas pessoas reclamam: não existe base do governo. Mas aí vem a segunda pergunta: qual é a base da oposição?

O que a oposição propõe? Quando a oposição vai reunir forças em torno da sua proposta? Esse ambiente agora da Câmara e do Senado é um ambiente construtivo. A gente nota que mesmo alguns partidos que não compõem verticalmente a base do governo têm votado com o governo por aquilo que o presidente apresenta.

O governo vai aprovar os projetos mesmo sem base?

Acredito que, para os bons projetos, dificilmente o governo perderá alguma votação na Câmara e no Senado. Até porque o presidente tem deixado alguns temas muito soltos para que o Congresso avalie. Daí a questão dos vetos, da derrubada de determinados vetos. Esse relacionamento do presidente com o Congresso tem sido salutar. É um aprendizado. Mas a gente nota hoje que, para as causas mais fortes na proposta do poder Executivo, que são boas para a população, a base é sólida.

Ter uma base formal, portanto, não é algo que preocupa?

Não. Se o governo continuar mantendo uma agenda em sintonia com o querem a maioria dos partidos, eu acredito que isso vai se refletir em votações consistentes.

O PSL, único partido que efetivamente é base do governo, está rachado. Isso não preocupa?

Preocupa desde que alguma votação fuja do programa que o próprio PSL defendeu. Na prática, o que ocorreu foi isso. O PSL briga, mas nas questões caras ao programa de governo o PSL tem votado junto. Essa é uma briga por espaço interno no partido, que vai se transformar ou em grande consenso, já que o partido cresceu demais, mas nunca em uma questão que influencie diretamente na pauta que a população brasileira quer.

O PSL chegou a obstruir, na Câmara, uma votação que interessava ao próprio governo...

Se a gente for observar a média disso nesses nove meses passados, a gente vai ver que é muito pontual e pequeno em relação ao todo. Não vejo condições de isso se ampliar. As matérias que vêm agora são de sustentação econômica, distribuição de renda. Aquela parte, a parte mais difícil, foi vencida: a reforma da previdência.

Acho difícil que um parlamentar do PSL que teve uma votação muito expressiva nos estados com voto de opinião pública defendendo determinadas bandeiras, que por uma briga no partido ele vote contra. Ele vai ter que prestar contas ao seu eleitor. E eles têm sido coerentes em relação a isso.

Velha x nova política

A presença do MDB e do DEM no governo Bolsonaro é uma forma de "velha política" para aglutinar apoio no Congresso?

[A velha política] Não existe mais. Nós vamos partir para um outro modelo, que eu também não sei qual é, vamos ter que descobrir isso todo mundo junto. Mas não existe mais aquela ligação direta de um ministro do partido visitar o Congresso para discussão pré-votação. Isso não ocorreu na reforma da Previdência e acho difícil que vá ocorrer. O presidente disse que pretendia fazer isso, fez, nomeou e deu autonomia aos ministros, comprou essa briga sozinho e, de qualquer maneira, o Congresso e o Executivo foram se entendendo.

Qual é a leitura que o senhor faz da "nova política" defendida pelo bolsonarismo? Se sente parte dela?

Venho trabalhando com as mesmas bandeiras que me deram três mandatos [de deputado federal]. Mas entrei na política muito novo e não me considero um político fazendo velha política. Na verdade, eu não consigo entender quem está fazendo nova política e quem está fazendo a velha política. Acho que a gente busca a boa política.

E ainda acho mais: depois de uma eleição plebiscitária, muito acirrada e ideológica, como a de 2018, vamos partir direto para uma cobrança direta da população sobre o termo 'novo'. Não sei será a política pura ou de eficiência.

O que ocorre é que grandes votações, grandes movimentações eleitorais, têm se tornado uma verdadeira decepção para o eleitor brasileiro

Sua antecessora era criticada por se aproximar do centrão. O senhor teme sofrer o mesmo?

Eu não tenho esse preconceito de centrão. Afinal de contas, se o centrão foi batizado lá atrás ainda na Assembleia Constituinte, com Roberto Cardoso Alves e tudo, por ser um partido que tinha uma movimentação próxima a marcos do poder, isso não aconteceu agora. O centrão não tem um ministério, enfim... Não faz sentido mais. Essas expressões foram envelhecendo. O que existe agora é, na minha opinião, uma cobrança muito maior do eleitor.

Reformas administrativa e tributária

O senhor acha possível aprovar no Congresso cortes salariais no funcionalismo e mudanças na estabilidade?

Eu, na minha opinião, com a experiência desses poucos anos de mandato, acho impossível. Não vejo. O que o ministro Paulo Guedes tem colocado a partir da cessão onerosa é uma relação de atitude e consequência com os governadores e prefeitos. Então, não há nenhum debate sobre quebra de estabilidade. Qualquer tipo de mudança na questão do funcionalismo só ocorrerá a partir de novos concursos. Todos que estão no exercício terão seus direitos preservados. Foi isso que eu ouvi do ministro Guedes.

O governo não vai propor redução de salário de servidor?

Primeiro, a Constituição não permite isso. Então, uma mudança na Constituição, nesse sentido, é muito difícil de ser aprovada. O que eu vejo é que o governo resolveu o presente, com a aprovação da reforma, e tem planejado o futuro próximo e vai fazer, com a reforma administrativa, alguma coisa de médio e longo prazo. Isso permite com que o país tenha mais crédito e controle melhor a sua dívida.

Além da reforma administrativa, há a reforma tributária. O senhor acredita que ainda é possível fazer alguma coisa em 2019?

Deve ser debatido agora de forma mais apurada o pacto federativo em relação aos precatórios e outras matérias que afetam diretamente os estados. O que a gente entende é que o calendário do ministro Paulo Guedes, através do presidente Bolsonaro, é o calendário debatido ponto a ponto, com a Câmara e o Senado. Tanto é que, mesmo tendo a previsão da apresentação das duas PECs [reformas administrativa e tributária], nada será encaminhado sem antes um ajuste, uma conversa com os líderes e com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

A discussão sobre a eventual volta da CMPF acabou atrapalhando o andamento da reforma?

Se atrapalhou [por um lado], ajudou do ponto de vista de não se discutir uma CPMF. A política é assim: uma coisa que aparentemente atrapalha o andamento, ajuda no momento seguinte. Esse ambiente de CPMF não existe em nenhuma das circunstâncias. Eu acho que essa fase está vencida.

CPMI das Fake News

É o momento de criminalizar a disseminação de notícias falsas na internet?

Precisa ser levado em conta o funcionamento dessa CPMI com dois aspectos: se ela vai lidar com escombros, com ressaca eleitoral, ou se ela vai lidar com marcos regulatórios e com definições de crimes que ocorrem em relação às redes sociais, na reputação das pessoas. Não só na política, mas também na área comercial, na área jornalística. Então, é uma CPMI que pode achar propósito e prestar um grande serviço à nação desde que ela não funcione como um retrovisor absoluto nas eleições presidenciais.

Se a CPMI funcionar apenas para discutir ressaca eleitoral, aí não. Vamos perder tempo, energia e não vamos avançar.

Em quais condições o senhor seria favorável à criminalização?

Em condições que a identidade e a liberdade de expressão sejam preservadas, mas que o prejuízo seja aferido por autoridades independentes. A gente não pode deixar que a internet e a rede social sejam instrumentos para destruir reputações.

Como membro da CPMI e líder do governo, o senhor pretende blindar o governo?

Eu entendo que a CPMI tem como fato determinado outras questões também, como a da baleia azul e uma série de coisas que prejudicam muito mais a população brasileira do que ficar discutindo escombro e o passivo da eleição passada. Eu tenho um relacionamento de muito respeito com os parlamentares do PT e de outros partidos [de oposição] na comissão. Eu vou tentar levar a comissão para esse lado. Acho que é uma forma de dar uma resposta à sociedade de maneira objetiva. Não vejo condições hoje de manter nessa comissão um debate ultrapassado da eleição que ficou lá em 2018.

Assista à entrevista completa abaixo.

Política