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Renan: Bolsonaro erra na economia, choca com falas, mas acerta contra o MP

Hanrrikson de Andrade e Ricardo Della Coletta

Do UOL e da Folha, em Brasília

11/10/2019 02h00Atualizada em 11/10/2019 11h07

Resumo da notícia

  • Para senador, só dá para dialogar com Bolsonaro que pôs limite na Procuradoria
  • Ex-chefe do Senado afirma que Moro é 'fascista' e que tem asco de Janot
  • Senador também chama Lava Jato de gentalha por tentar incriminá-lo
  • Emedebista elogia Davi Alcolumbre no comando do Senado

"Nesse curto espaço de tempo, já dá para enxergar três Bolsonaros", afirma o veterano senador Renan Calheiros (MDB-AL), quatro vezes chefe do Congresso, em entrevista ao UOL e à Folha de S.Paulo. Na visão dele, os quase dez meses de governo mostram que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) é um "soldado raso" na economia, para quem ninguém "bate continência".

Por outro lado, o ex-presidente do Senado avalia que o presidente, capitão reformado do Exército, foi corajoso ao desafiar o "corporativismo" do Ministério Público Federal e impor limites à instituição, ao escolher um procurador-geral fora da lista tríplice da categoria. "Claro, estamos no campo da oposição, mas se há um Bolsonaro com o qual você pode dialogar, é com esse Bolsonaro."

Na interseção entre esses "dois presidentes", diz Renan, há o personagem afeito a discursos polêmicos, "declarações chocantes", que evidenciam uma "radicalização ideológica e preconceituosa".

Acostumado a fazer críticas duras à Operação Lava Jato, o senador também ataca o ex-juiz da operação e hoje ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública). Segundo ele, o ex-magistrado revelou ter uma "formação intelectual fascista" e, depois do episódio das conversas obtidas e vazadas pelo site The Intercept Brasil, age como "alguém que está à beira de um vulcão que começa a ter uma erupção".

O congressista ainda sobe o tom para falar de Rodrigo Janot, um de seus maiores desafetos. Indagado sobre a revelação do ex-procurador-geral da República, de que ele teria planejado matar o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes, Renan afirmou sentir "asco".

O Janot me causa asco. Esse caráter homicida que ele desvenda no seu livro é uma coisa indicativa do que representou você ter um psicopata à frente da Procuradoria-Geral da República
Renan Calheiros (MDB-AL)

O emedebista afirma que não pensa em ocupar novamente a cadeira de presidente do Senado e faz elogios a Davi Alcolumbre (DEM-AP), que o derrotou na última eleição na Casa, em fevereiro. "O poder mudou de mãos e está em boas mãos."

Ele, no entanto, faz algumas ressalvas. Para Renan, Alcolumbre não deveria fazer o papel de líder do governo na Casa, como quando assumiu a articulação em favor da indicação ainda não formalizada do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, a vaga de embaixador em Washington (EUA).

Membro do cacicado do MDB e senador há 25 anos, o parlamentar afirma considerar que o partido, apesar de ter sido dizimado pelas urnas no ano passado, caminha para um processo de reconstrução. Afirma ainda confiar na liderança do novo presidente da sigla, Baleia Rossi (MDB-SP).

"O MDB era uma baleia oceânica e agora o Baleia, que tem baleia até no nome, recebeu uma tilápia. A sua idade, e a idade de muitos que compõem a executiva, significa uma mudança de ares por si só."

Leia a seguir os principais trechos da entrevista, realizada na quarta-feira (9):

Governo Bolsonaro

UOL/Folha - Qual é a sua avaliação dos quase dez meses de gestão do presidente?

Renan Calheiros - Já dá para enxergar três Bolsonaros. Um é o Bolsonaro das propostas econômicas que não saem do lugar, não têm resultado. Para o qual as pessoas entendem que é um soldado, para usar uma imagem, um soldado raso. Não batem continência para ele. Você tem [um segundo] Bolsonaro das declarações chocantes, da radicalização ideológica e preconceituosa. Esse aí teria sido reformado [do Exército] por inaptidão profissional. E você tem um Bolsonaro novo, que teve coragem, não sabe o motivo e não importa, de acabar com o corporativismo do Ministério Público. Escolhendo um procurador contra o próprio modelo. E contra os excessos cometidos por alguns procuradores.

Nós estamos no campo da oposição, [mas] se há um Bolsonaro com o qual você pode dialogar, é com esse Bolsonaro. Para que, ao final do seu período à frente do governo do Brasil, sejam garantidos os valores da democracia.

E a relação do governo com o Congresso?

Os presidentes da Câmara e do Senado estão conduzindo as Casas muito bem. O presidente do Supremo Tribunal Federal, o ministro Dias Toffoli, também fortalecendo o protagonismo do Supremo no controle da institucionalidade. Tivemos duas decisões importantes e uma agenda que está posta. Significa que o Supremo está convencido de que tem que ocupar cada vez mais espaços para garantir a democracia.

Nunca tive uma conversa com Bolsonaro. As conversas são feitas pelos líderes de bancadas, pelo presidente do Congresso. Acho que eles têm que continuar conversando. Para que, em meio a esse ódio disseminado, essa pequenez política que acha que é defensável minimizar os recursos de programas sociais, educação, saúde, cultura, ciência e tecnologia, nós possamos salvaguardar um Brasil que proteja a sua Constituição, a separação de Poderes e que avance na medida do que é cobrado pela sociedade.

A ausência de uma base sólida do governo no Parlamento pode resultar em impeachment?

A economia é um indicativo fundamental. Sem os resultados da economia, você terá sempre dificuldades para construção dessa base política. O impeachment é uma instituição desgastada no Brasil. O nosso período democrático já nos obrigou a utilizá-lo algumas vezes. É sempre uma coisa possível. Eu espero que essas coisas não aconteçam, que o Brasil retome o seu caminho, volte a crescer, gere empregos.

A situação hoje é "inadministrável" do ponto de vista da redução da massa salarial, da diminuição do poder de consumo, do desemprego. A proposta do ministro Paulo Guedes parece que não vai produzir os resultados no tempo ele imaginou. Isso é muito ruim.

O governo diz ter recebido uma herança negativa e que tenta consertar erros do passado. O senhor concorda?

Eu acho [que sim]. Mas governo significa trocar o pneu com o carro andando. Você tem que resolver o problema da crise herdada, mas tem que tomar providências.

Eu votei contra a reforma da Previdência. Muita gente não entende que, no Nordeste, um terço da renda média da população vem da Previdência e dos programas sociais. Reforma da Previdência sempre foi necessária. Mas não há um modelo sustentável de Previdência Social sem crescimento econômico. Não dá para você pensar em tapar buraco da Previdência com abono de trabalhador que ganha até dois salários mínimos. Por que essa reforma do regime geral da Previdência? Que privilégio contém o regime geral da Previdência? Essas coisas precisam ser discutidas.

O senador Renan Calheiros (MDB-AL) concede entrevista no estádio do UOL e da Folha, em Brasília - Pedro ladeira/Folhapress
O senador Renan Calheiros (MDB-AL) concede entrevista no estádio do UOL e da Folha, em Brasília
Imagem: Pedro ladeira/Folhapress

Lava Jato e Rodrigo Janot

Como o senhor analisa a situação do ex-procurador-geral, que disse ter ido armado ao STF para matar o ministro Gilmar Mendes?

O Janot me causa asco. Esse caráter homicida que ele desvenda no seu livro é uma coisa indicativa do que representou você ter um psicopata à frente da Procuradoria-Geral da República. Ele é uma espécie de cadáver insepulto, e nós precisamos definir o que vai acontecer com ele. Eu entrei na Ordem dos Advogados do Brasil para suspender a sua carteira profissional como advogado.

Após o que foi revelado nas reportagens do site The Intercept Brasil, quem cometeu o erro mais grave: Sergio Moro, Deltan Dallagnol ou as cortes superiores?

Essas pessoas precisam ser exemplarmente punidas. Eu acho que a responsabilidade maior é de Moro porque ele era o juiz. E, de acordo com os vazamentos, comandava o Ministério Público. Está claro que era um projeto de poder, um projeto político, com financiamento através de dinheiro público para uma fundação de Curitiba. É difícil dizer quem tem mais responsabilidade. Todos têm responsabilidade.

Em 2016, ao lado do então juiz Moro, o senhor chegou a dizer que a Lava Jato era sagrada. Mantém essa opinião?

Eu sempre defendi a Lava Jato. E sempre defendi qualquer investigação. Acho até que a investigação é uma oportunidade para que o agente político que é vítima dela possa esclarecer fatos.

A Lava Jato trouxe para o Brasil avanços civilizatórios, mas nem isso justifica a extrapolação de limites, os abusos, as torturas. O fato como eles igualaram suspeitos e culpados, essas coisas não se justificam

O Brasil foi o país que mais avançou na disponibilização de leis de enfrentamento à corrupção. Moro sabe disso, mas nunca reconheceu.

Ele tem uma formação intelectual fascista, e demonstra isso pelo que escreveu, decidiu e falou. Só isso justifica o que ele fez na eleição, na prisão do Lula, na condenação sem provas, na interferência no processo político, na revelação da delação do Palocci na semana da eleição depois de rejeitada pelo próprio Ministério Público.

Sergio Moro

Moro defendeu Bolsonaro no caso do esquema de laranjas do PSL e disse que no processo não havia qualquer coisa que o ligasse à suspeita de caixa dois. Esse é o papel do ministro da Justiça?

Eu acho que o Moro tem errado bastante. No Ministério da Justiça, ele tem defendido práticas que contrariava quando era quando era juiz. Pelo menos, dizia contrariar. A sua vinda para o ministério acabou definindo um retrocesso do ponto de vista institucional. Ele começou o governo querendo legislar por decreto. Nunca teve uma concepção clara da separação dos Poderes.

Depois de defender como juiz as dez medidas de combate à corrupção, que, dentre outras coisas, queria acabar com habeas corpus, ele mandou para o Congresso um pacote anticrime que, em vez de coibir, estimula e dá direito para matar. Faz salvaguardas que em nada vão ajudar na redução da criminalidade.

O Moro foi um retrocesso, que acabou inclusive com o único avanço que tínhamos tido nessa área: a criação do Ministério da Segurança Pública.

Moro hoje é um quadro muito mais político do que técnico?

Ele está despojado hoje de qualquer condição técnica. Moro hoje é mais do que nunca um político. Quando era juiz, era um político enrustido. Ele liderou um projeto de poder: a substituição da política convencional. Ele hoje é um político e tem errado bastante. Depois do vazamento do Intercept, fica difícil falar de Moro. Os diálogos falam por si só.

Sua crítica à Lava Jato não pode ser vista como queixa de quem foi citado diversas vezes em delações? Não é uma forma de se defender?

Essa gentalha me investigou 25 vezes por mera citações, por "ouvi dizer". Muitos desses delatores nem sequer me conheciam. O STF já arquivou 17 pedidos de investigação contra mim. Eles nunca conseguiram colocar a mim como réu da Lava Jato. Mas eu sempre respondi dessa forma: à luz do dia, com coragem, apresentando os números e fatos.

Eles me investigam desde 2017. Me colocaram de cabeça para baixo, me chacoalharam e nunca caiu do meu bolso um centavo sem origem. Eu tenho uma vida totalmente transparente

O que acha de Moro ser candidato à Presidência em 2022?

Ele age como alguém que está à beira de um vulcão que começa a ter uma erupção. Acho que está sem saber o que fazer porque vai ter que se explicar de muitas coisas inexplicáveis. Ele teve projeto político e já pensou em ser candidato a presidente? Sim. Depois aderiu à campanha do Bolsonaro? Sim, porque o Bolsonaro representava circunstancialmente a mudança e a nova política. Como juiz, submeteu-se a influir na eleição e tirar o Lula do processo político.

É evidente que ele pensa nisso. Mas agora pensa mais em como vai sair dessa situação e manter o posto de ministro depois de ter sido escancarada a tentativa de aparelhamento do Coaf [o órgão foi rebatizado de Unidade de Inteligência Financeira] e da Polícia Federal.

Senado, Alcolumbre, Eduardo

Muitos senadores reclamam de sua aproximação com o chefe do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). O senhor se vê como um tutor dele?

Absolutamente. No Senado, o poder mudou de mãos e está em boas mãos. O Davi tem surpreendido, inclusive a mim. E eu tenho procurado colaborar. Mas acho que o Davi está muito bem, e eu colaborarei à medida do possível, sem nenhuma outra pretensão.

Eu não entendo que o empoderamento do Legislativo é ampliar o volume de emendas. Fiquei contra isso na tentativa de fazê-lo na distribuição dos recursos da cessão onerosa e no financiamento das campanhas eleitorais.

Se o senhor fosse presidente do Senado, também assumiria a articulação em favor da indicação de Eduardo Bolsonaro a embaixador nos EUA?

Eu acho que isso é papel do líder do governo. Eu não compreendo a aprovação do nome do deputado Eduardo para embaixador em Washington como uma tarefa do presidente do Senado. Eu acho que essa indicação precisa ser apreciada não sob o olhar do parentesco. Muita gente já disse no passado, se não me engano o [José] Sarney, "parente em governo é uma coisa ruim para o governo e para o parente".

Temos que fazer uma sabatina criteriosa, temos que saber a qualidade do embaixador.

Mas o senhor votaria contra ou a favor de Eduardo Bolsonaro?

Teoricamente, eu voto contra. Mas eu não posso definir posição nenhuma antes de sabatiná-lo.

MDB, baleia e a tilápia

Três membros da nova executiva nacional do MDB são filhos de políticos tradicionais, incluindo o presidente, o deputado Baleia Rossi. Como pregar renovação tendo figuras que parecem se repetir na política?

O Baleia herdou um partido em péssimas condições. O MDB foi reduzido pela metade nas últimas eleições. De 22 senadores, só 3 se elegeram. Nós só elegemos três governadores. O partido era muito mal conduzido e que precisa ser reconstruído.

O MDB era uma baleia oceânica e agora o Baleia, que tem baleia até no nome, recebeu uma tilápia

Precisamos formar quadros, ampliar as filiações e tornar o partido competitivo. Para, nessa eleição municipal [de 2020], recuperar a condição de maior partido do Brasil.

Houve uma especulação de que Bolsonaro poderia migrar para o MDB. O senhor o receberia de braços abertos?

Eu não estou informado dessa possibilidade. Nós não temos relação com o Bolsonaro, mas tivemos ali uma certa convivência. Nunca conversou politicamente comigo, mas se há uma característica que não podemos cobrar do Bolsonaro é a fidelidade partidária.

O senhor tem ambição de voltar a sentar na cadeira de presidente do Senado?

Não tenho, não quero e não vou ser candidato jamais. Já fui quatro vezes presidente do Senado. O que mais me orgulha é ter sido, ao longo da história do Brasil, o único senador que se elegeu quatro vezes em eleições seguidas.

O senhor defende que o MDB, hoje com a maior bancada no Senado, apresente um candidato na Casa em 2021?

Está cedo. O MDB foi dividido para a eleição e por isso não ganhou. Eu nem queria ser candidato. O problema é que eu tinha sido quatro vezes e era um dos oito senadores do Brasil que se reelegeram. O Senado foi dizimado. A política partidária foi vencida. O MDB teve um prejuízo monumental. Sou um sobrevivente.

Não teria sido melhor abrir espaço para a candidatura de Simone Tebet (MDB-MS) no Senado?

Eu quis abrir, mas o problema é que ela não tinha sido eleita naquela eleição. Ela vinha de uma eleição anterior e não aglutinava o partido. Ela se colocou como candidata na bancada e perdeu a eleição. Eu relevo. Mas ela tumultuou bastante aquele processo.

Veja a entrevista completa abaixo e ouça a íntegra da conversa no podcast UOL Entrevista.

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