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Líder reservista estimula PM da ativa em ato bolsonarista; adesão é ilegal

Bolsonaro tira foto com policial antes de passeio de moto em São Paulo - Reprodução/Facebook
Bolsonaro tira foto com policial antes de passeio de moto em São Paulo Imagem: Reprodução/Facebook

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

29/08/2021 04h00

O tenente da reserva Paulo Roberto Torres Galindo, presidente de uma entidade que representa os policiais militares de São Paulo, tem incentivado policiais militares da ativa a irem ao ato bolsonarista de 7 de Setembro com dicas para evitar que sejam identificados.

O regulamento interno da PM-SP (Polícia Militar de São Paulo) proíbe a participação em manifestações político-partidárias, apontada como transgressão disciplinar. Especialistas ouvidos pelo UOL preveem punições, como exclusão da corporação e até abertura de processo criminal na Justiça Militar.

Torres preside a CEPM (Comissão de Estudos de Assuntos de Interesse dos Policiais Militares de São Paulo) e diz interagir com mais de 35 mil pessoas em 170 grupos de WhatsApp ligados à categoria, com cerca de 140 mil servidores da ativa e da reserva. Tenente da reserva, ele tem manifestado apoio à participação até de servidores da ativa, embora saiba que eles podem sofrer punições.

Se o policial militar da ativa participar e for pego, aí configura [transgressão disciplinar]. Se participar e ninguém pegar, aí não tem jeito [de a participação resultar em punição]. Muita gente participa. Um ou outro pode ser pego. Aí, responde disciplinarmente. O policial militar não é arruaceiro e não quer tomar o poder. Ele só quer protestar porque também é cidadão"
Paulo Roberto Torres Galindo, presidente do CEPM

PM da reserva, tenente Torres preside entidade que representa os policiais militares de São Paulo - Reprodução - Reprodução
PM da reserva, tenente Torres preside entidade que representa os policiais militares de São Paulo
Imagem: Reprodução

"O policial militar não é cidadão? Se não quiser ir, que mande alguém da família para fazer volume e engrossar o caldo. O pessoal está passando veneno já. É importante o brasileiro participar para mostrar que está insatisfeito", complementou.

Torres também é assessor do deputado federal e PM da reserva Coronel Tadeu (PSL-SP), que disse que PMs do interior estavam organizando ônibus para vir protestar na cidade.

Assim como Torres, o parlamentar também apoia a adesão de policiais da ativa no ato por entender, de maneira equivocada, que nada impede o apoio ao presidente —proibido pelo regimento interno da corporação. "Os policiais têm direito de serem patriotas", disse à colunista Thaís Oyama, do UOL.

'Infelizmente o regulamento tem isso, né'

A considerável mobilização de policiais bolsonaristas para o ato ficou em evidência na segunda-feira (23) após João Doria (PSDB), governador de São Paulo, se posicionar sobre o afastamento por indisciplina do coronel Aleksander Toaldo Lacerda, que convocou seus seguidores no Facebook para o protesto, classificado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) como "tentativa de levante" com ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal) e ao Congresso em defesa do voto impresso.

"O caso do coronel Aleksander, deixou muita gente indignada. Os policiais militares de São Paulo estão passando por dificuldades e veem no Bolsonaro um parceiro", disse Torres. "Fico triste e não queria que ele tivesse sido punido. O cidadão tem que ter o direito de falar o que acha. Mas infelizmente o regulamento tem isso, né?"

Em nota, a PM-SP informou que servidores da ativa podem ser punidos se flagrados em atos de caráter político-partidário. "Toda e qualquer denúncia de descumprimento das normas vigentes são rigorosamente apuradas e punidas, se confirmadas. As forças policiais atuam diuturnamente para garantir os direitos e a segurança de todos", disse um dos trechos do texto enviado pela corporação a pedido do UOL.

Especialistas contestam apoio à adesão

Especialistas ouvidos pelo UOL rebatem o posicionamento sustentado por Coronel Tadeu e pelo líder reservista tenente Torres.

"O militar também é um cidadão e tem os seus direitos políticos. Ele pode votar e até se candidatar. Mas, para isso, deve se afastar das suas atividades", disse Fernando Teles, promotor do Ministério Público Militar do Rio.

"O policial pode eventualmente praticar condutas criminais de improbidade administrativa", observa Ivana David, juíza do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo).

"A participação em ato pode levar até à exclusão da PM. Mas eles também podem responder a crime pelo Código Penal Militar", alerta o coronel da reserva Glauco Carvalho, ex-comandante de policiamento na cidade de São Paulo.

Entidades vetam apoio ao ato

Um eventual apoio da participação no ato de policiais bolsonaristas foi vetado em reunião nesta quarta-feira (25) no auditório da Afam (Associação Fundo de Auxílio Mútuo dos Policiais Militares de São Paulo) com pessoas ligadas a mais de dez entidades que representam praças e oficiais da corporação.

No entendimento dos associados, que representam cerca de 140 mil policiais da ativa e da reserva, esses grupos devem se limitar a debates sobre negociação salarial, representatividade e planejamento de carreira. As entidades irão assinar uma nota em conjunto para reforçar esse posicionamento. Contudo, os grupos preveem a participação de policiais bolsonaristas da ativa à paisana.

O caso envolvendo o coronel afastado por incentivar participação no ato jogou luz, novamente, ao apelo que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem entre os PMs, elevando a atenção para o monitoramento do ato. Um grupo de inteligência cibernética da Polícia Civil de São Paulo está mobilizado para investigar organizadores desses atos nas redes sociais, repassadas ao comando-geral da PM.

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