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Tolentino nega ser sócio do FIB Bank e relata 'encontros' com Bolsonaro

Hanrrikson de Andrade, Luciana Amaral e Thais Augusto

Do UOL, em Brasília e em São Paulo*

14/09/2021 10h54Atualizada em 14/09/2021 18h44

O advogado e dono da Rede Brasil de Televisão, Marcos Tolentino, negou hoje, em depoimento à CPI da Covid, ser um "sócio oculto" do FIB Bank —empresa que atuou como fiadora da negociação de compra da vacina indiana Covaxin pelo Ministério da Saúde.

"Eu, Marcos Tolentino, afirmo que não possuo qualquer participação na sociedade, não sou sócio da empresa como veiculado por algumas matérias", declarou o depoente logo na abertura da oitiva.

Tolentino também relatou ter tido alguns "encontros" "meramente casuais" com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), mas negou ser amigo do governante.

"Informo que conheço o presidente desde o período em que era deputado federal, mas não possuo nenhuma amizade pessoal ou qualquer outro tipo de relacionamento", disse. "Estive com ele em alguns encontros, meramente casuais. Inclusive, se pegar até as datas em que comecei a voltar para cá, já foi em junho, julho, no marco regulatório das TVs."

Ao longo do depoimento, o relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), e outros senadores fizeram questionamentos sobre o patrimônio do FIB Bank e os seus reais donos. O advogado, no entanto, optou por exercer o direito ao silêncio na maioria das indagações, sob proteção de habeas corpus concedido pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

O vínculo entre o nome do dono da Rede Brasil de Televisão e o FIB Bank ganhou força depois que diretor-presidente da empresa, Roberto Ramos Júnior, afirmou em depoimento à CPI que Tolentino havia atuado como advogado de Ricardo Benetti, com procuração para responder pelos sócios do FIB Bank.

Benetti é sócio de uma outra empresa, a Pico do Juazeiro, uma das acionistas do FIB Bank.

Durante o depoimento de hoje, Tolentino confirmou que, no passado, foi sócio da família Benetti e atuou para as empresas de Ricardo e do pai, Ederson.

"Dessa empresa da qual eu fazia parte [Pico do Juazeiro], derivaram muitos negócios, direitos, bens, outras empresas, algumas que têm inclusive o nome Benetti como parte de sua razão social", explicou ele.

"E, mesmo com o falecimento do doutor Ederson Benetti, em um acordo com seu filho e herdeiro, Ricardo Benetti, algumas dessas empresas permaneceram de minha propriedade e outras foram a ele transferidas, a fim de fazer jus a seus direitos hereditários."

Em sua oitiva na CPI da Covid, Ramos Júnior tentou ressaltar que a procuração dada a Tolentino seria para representar somente a Benetti e a Pico, e não o FIB Bank.

A composição societária do FIB Bank é objeto de fortes suspeitas em relação às investigações da CPI. Os parlamentes descobriram, durante a apuração, que a empresa de garantias foi registrada originalmente em nome de pessoas que nunca tiveram quaisquer relações com ela —entre as quais um morador de Alagoas que briga na Justiça para desvincular o seu nome da empresa.

Tolentino também presta esclarecimentos hoje devido a relação de amizade com o líder do governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros (PP-PR), que integra a lista formal de investigados da CPI.

Ex-ministro da Saúde no governo Michel Temer (MDB), o deputado é suspeito de favorecer a Precisa Medicamentos, empresa que intermediou o negócio da Covaxin — antes de o contrato ser cancelado após suspeita de irregularidades —, e a farmacêutica Belcher — de Maringá, reduto eleitoral de Barros — para emplacar a compra da vacina chinesa Convidecia.

Tolentino ficou em silêncio quando questionado se foi Barros quem o apresentou a Bolsonaro.

Questionado sobre o motivo pelo qual chegou a acompanhar Barros durante o depoimento deste à CPI, Tolentino justificou que estava em Brasília quando encontrou-se com Barros e este ia ser ouvido pela comissão nas próximas horas. Segundo o depoente de hoje, ele resolveu ir à CPI somente para acompanhá-lo e, depois, voltou para casa.

O advogado e empresário Marcos Tolentino da Silva ao prestar depoimento à CPI da Covid - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
O advogado e empresário Marcos Tolentino da Silva ao prestar depoimento à CPI da Covid
Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Entenda as suspeitas sobre a compra da Covaxin

Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito, o deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) e seu irmão, Luis Ricardo Miranda, servidor concursado do Ministério da Saúde, denunciaram suspeitas de irregularidades envolvendo o contrato da Covaxin.

Ao ouvir denúncia sobre o caso pessoalmente, segundo os irmãos Miranda, Bolsonaro disse que Ricardo Barros poderia estar envolvido no "rolo". O líder do governo confirma a proximidade com Tolentino, mas nega ter praticado irregularidade.

Os parlamentares apuram se o FIB Bank —que não é um banco, apesar do nome— foi utilizado com o intuito de mascarar irregularidades.

Renan Calheiros disse que Tolentino, "por ser amigo de Ricardo Barros, teria facilitado a emissão da carta fiança em favor da Precisa Medicamentos para satisfazer os interesses do deputado na execução do contrato da Covaxin".

A CPI ainda não divulgou elementos ou informações que corroborem as acusações contra Barros, mas Renan tem afirmado que as provas constarão do relatório que ele promete entregar até o fim do mês.

"Essa Comissão Parlamentar de Inquérito comprova tudo aquilo que se imaginava", declarou Renan hoje.

Suspeitas sobre participação no FIB Bank

Senadores independentes e de oposição na comissão acreditam que Tolentino seja um dos verdadeiros sócios do FIB Bank, que deu a garantia para a Precisa Medicamentos seguir na negociação com o Ministério da Saúde para a venda da vacina Covaxin.

O diretor-presidente do FIB Bank, Roberto Ramos Júnior, negou à CPI que Tolentino faça parte da empresa ou tenha alguma gerência sobre ela.

Para os senadores, no entanto, há evidências de que Ramos Júnior é "laranja" de Tolentino e de que este é o verdadeiro dono da instituição.

A garantia fidejussória emitida pelo FIB Bank para a Precisa Medicamentos — R$ 80 milhões, o equivalente a 5% do total da operação de R$ 1,6 bilhão para a compra da Covaxin —, segundo senadores da CPI, não está de acordo com o modelo previsto no contrato com o governo federal.

Segundo o vice-presidente da CPI e autor do requerimento de convocação de Tolentino, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), era preciso apresentar uma fiança bancária, um seguro-garantia ou uma caução em dinheiro ou títulos da dívida pública.

Randolfe apontou que o endereço de uma emissora de Tolentino, por exemplo, seria o mesmo de uma das duas empresas acionistas do FIB Bank, a Pico do Juazeiro Participações, com sede no Paraná.

Ainda segundo senadores, outra empresa acionista do FIB Bank, a MB Guassu, teria o mesmo número de telefone do escritório de advocacia de Tolentino em São Paulo.

Uma ação de cobrança ajuizada na Justiça por uma construtora também indica que Tolentino seria o verdadeiro dono de empresas no nome de Ricardo Benetti.

O senador Rogério Carvalho (PT-SE) destacou que o "telefone informado como sendo do FIB Bank Garantia de Fianças Fidejussórias S.A. também seria o do escritório Benetti & Associados Gestão Tributária e Empresarial, que tem Marcos Tolentino da Silva como membro do conselho do escritório".

Roberto Pereira Ramos Júnior (esquerda), Omar Aziz (centro) e Renan Calheiros (direita) durante depoimento do diretor do FIB Bank para a CPI da Covid - Edilson Rodrigues/Agência Senado - Edilson Rodrigues/Agência Senado
Roberto Pereira Ramos Júnior (esquerda), Omar Aziz (centro) e Renan Calheiros (direita) durante depoimento do diretor do FIB Bank para a CPI da Covid
Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Outro ponto levantado é que a empresa Brasil Space Air Log Conservação Aérea, da família de Tolentino, recebeu R$ 1,9 milhão do FIB Bank, de acordo com Renan Calheiros. O valor foi repassado por meio de 19 transferências bancárias entre 4 de junho de 2020 e 12 de maio de 2021, informou o senador Humberto Costa (PT-PE).

Ramos Júnior não soube explicar o motivo das transferências e disse ser "possivelmente contratos que tenhamos entre essas duas empresas".

Ainda, no mesmo dia do pagamento da Precisa para o FIB Bank de R$ 350 mil para a emissão da garantia do caso Covaxin, o FIB Bank transferiu R$ 336 mil à Brasil Space. Os R$ 14 mil restantes foram repassados a Wagner Potenza, ex-presidente do FIB Bank, segundo Renan.

O senador Humberto Costa também afirmou que Tolentino tem um email institucional do FIB Bank. A cúpula da CPI afirma ainda ter outras informações referentes às atividades da empresa, obtidas por meio de quebras de sigilos e apurações internas, que ainda não se tornaram públicas.

Randolfe afirmou que, de acordo com dados da Receita Federal recebidos pela comissão, Tolentino tem quatro CPFs cancelados e dois ativos. O senador perguntou a Tolentino qual era o número do CPF dele, ao que o depoente disse que iria pegar, pois havia esquecido. Questionado então sobre as informações da Receita, Tolentino afirmou desconhecê-las e, por isso, ficaria em silêncio.

O vice da CPI ainda questionou Tolentino sobre uma casa, tida como humilde diante dos negócios do depoente, identificada como sendo do empresário no Amapá. A residência em um terreno aparentemente abandonado, segundo vídeo mostrado na CPI, foi informada como endereço de Tolentino em processo eleitoral em que foi defendido pela atual advogada de presidente Bolsonaro, Karina Kufa, disse Randolfe. O depoente confirmou que Kufa o defendeu no caso, mas não se manifestou sobre o endereço.

Tolentino nega irregularidades

Tolentino já disse, por meio de nota, que não atua na gestão do FIB Bank e negou ter cometido ilegalidade. Em seu perfil no LinkedIn, se apresenta como "advogado tributarista, administrador e dono da Rede Brasil de Televisão". Ele afirma ser presidente da rede de TV desde abril de 2007.

Diz ainda ser "empresário à frente de um grupo que possui diversas atividades, desde assessoria empresarial e tributária à construção civil".

Inicialmente, o depoimento de Tolentino estava marcado para 1º de setembro. No entanto, ele apresentou atestado médico alegando dores de sequela da covid-19 e não compareceu. Ainda assim, na véspera, participou de transmissão online do portal O Antagonista sem aparentar problemas de saúde. A situação moveu duras críticas por parte dos senadores.

Antes da ida ao Senado hoje, Tolentino tentou reverter a convocação no STF.

*Colaborou Leticia Lazaro, em São Paulo

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.