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Conciliador, Leite atrai tucanos 'não tão críticos' ao governo Bolsonaro

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), participa de manifestação contra o governo do presidente Bolsonaro no Parcão, em Porto Alegre - EVANDRO LEAL/ENQUADRAR/ESTADÃO CONTEÚDO
O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), participa de manifestação contra o governo do presidente Bolsonaro no Parcão, em Porto Alegre Imagem: EVANDRO LEAL/ENQUADRAR/ESTADÃO CONTEÚDO

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

19/09/2021 04h00

O nome de Eduardo Leite (PSDB-RS) como o candidato do partido à Presidência da República tem ganhado apoio interno, deixando seus aliados animados. A quase dois meses das prévias para escolher quem vai concorrer pelo partido nas eleições de 2022, o governador gaúcho é visto por muitos como o candidato ideal para a sonhada terceira via.

A imagem conciliadora de Leite seria a peça-chave para unir outros partidos de centro e centro-direita em uma chapa futura —algo que, segundo seus apoiadores, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), seu principal concorrente e o favorito ao pleito interno, teria mais dificuldade de conseguir.

A construção do pacifista

Em um vídeo de contornos eleitoreiros, lançado às vésperas do 7 de setembro, Leite aparece de polo amarela, sorri e fala sobre "o Brasil que podemos ser". Em tom sereno, ele prega que o país precisa se unir e "voltar para o centro".

A postura da conciliação tem sido o carro-chefe do gaúcho para angariar apoiadores no partido. O ponto, para os aliados, é que a terceira via tem de reunir os eleitores críticos ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e à esquerda —mas não tão críticos assim.

"O perfil dele [Leite] é o perfil que a gente espera nesse momento de polarização no Brasil e na política, um país que tomou um rumo de 'nós contra eles'. O Eduardo representa o inverso. Ele tem sua posição muito clara, mas tem sensibilidade e governa para todos, entende que agregar é muito mais importante do que dividir", afirma o deputado federal Lucas Redecker (PSDB-RS).

Presidente do PSDB-RS, Redecker também é uma das principais vozes contra o partido fazer oposição a Bolsonaro e manter a independência. Em sintonia com a postura do conterrâneo, justifica-se dizendo que queimar pontes, neste momento, não ajudará o partido a chegar ao Planalto.

Internamente, tucanos que apoiam Leite alegam que Doria não seria o nome certo para liderar o grupo de centro, contrariando o discurso já conhecido do paulista.

O argumento é que, se Doria se envolveu em cisões no partido em níveis nacional e estadual (em referência ao ex-governador Geraldo Alckmin), poderia criar rupturas também na composição da candidatura ao centro.

O protesto do último dia 12, em que ele e outros presidenciáveis se reuniram na Av. Paulista, em São Paulo, não teve adesão da ala que apoia Leite, mais próxima ao governo federal, embora ele tenha participado do ato em Porto Alegre. A baixa participação de apoiadores foi vista como um sinal de enfraquecimento do governador paulista.

"Leite é muito conciliador. A maneira como ele se comporta, busca sempre ter um discurso de distensionar, da sensatez. É isso que o Brasil precisa, de um momento de respirar e estabelecer convivência entre os desiguais. Ele se elegeu e foi conversar com a oposição mais ferrenha", argumenta o deputado federal Pedro Cunha Lima (PSDB-PB).

Na última segunda-feira (13), Leite ganhou o apoio oficial do PSDB mineiro, que tem a segunda maior bancada do partido na Câmara (cinco deputados, atrás apenas de São Paulo, com seis) e o segundo maior número de filiados.

Os motivos principais, explica o deputado federal Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG), presidente da sigla no estado, seriam o tom pacificador de Leite e o desentendimento de Doria com o ex-governador Aécio Neves.

Em fevereiro, o governador paulista tentou expulsar Neves, hoje deputado, do partido. A briga se tornou pública e dura até hoje. Aécio não esconde que, entre Bolsonaro e o paulista, estaria mais propenso a ficar do lado do presidente. A troca de ofensas entre os dois lados criou uma cisão entre os tucanos mineiros e paulistas.

"A base do partido em Minas tem um respeito muito grande pelo ex-governador [Aécio] e, em consequência, adotou Leite. Soma-se a isso a percepção de que, diante da imensa responsabilidade de contribuir para construir a terceira via, Leite é aquele que parece possuir, pelo temperamento e pela maneira de fazer política, maiores condições de unir, inclusive outros partidos", afirma Abi-Ackel.

Pouco conhecido: a faca de dois gumes

Pesquisas internas do partido mostram que o nome de Leite ainda é pouco conhecido fora do Rio Grande do Sul e do meio político —tanto que o PSDB tem investido em peças publicitárias para aumentar sua popularidade.

Isso, no entanto, pode ser um fator positivo para o gaúcho. A última pesquisa Datafolha, divulgada na sexta (17), mostrou uma redução na rejeição do governador do Rio Grande do Sul, de 21% para 18%, enquanto a de Doria se manteve no patamar de 37%.

Nas pesquisas estimuladas, outra boa notícia para Leite: as intenções de voto nele cresceram de 3% para 4%, empatando com as em Doria, que caíram de 5% para 4%.

Enquanto o grupo do gaúcho comemora, há ainda uma ala do partido que diz que, se o patamar seguir nessa faixa, talvez seja mais prudente compor uma chapa com um outro nome, mais popular. O fantasma da campanha de 2018, quando Alckmin amargou um quarto lugar, com apenas 4,7% dos votos, segue rondando o PSDB.

"Apoio Leite porque me sinto conectado com as ideias dele, mas meu maior foco é construir um candidato que represente a terceira via. Tem de ter um olhar muito prático para o que vai acontecer: o MDB vem? O PSD vem? Se vierem, faz sentido para continuar essa caminhada. Acho que Leite poderia fazer isso", conclui Cunha Lima.

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