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1 mês

Nicolelis: 'Não boto fé que a CPI da Covid vá ao nervo da questão'

Do UOL, em São Paulo

15/10/2021 13h28Atualizada em 15/10/2021 15h03

Para o neurocientista Miguel Nicolelis, a CPI da Covid é rodeada de interesses eleitorais e "cenas", e o Brasil precisa, após a apresentação do relatório da comissão, de uma investigação independente feita por um grupo de cientistas do Brasil e do estrangeiro.

"Eu gostaria de ver, realmente, gente que não tem rabo preso ou ambição política, ou que pensa em calendário eleitoral como prioridade, analisando friamente tudo que aconteceu, todos os crimes que aconteceram no Brasil", disse Nicolelis ao UOL News, programa do Canal UOL.

Gostaria de ver um inquérito independente, totalmente independente, porque tirando a cena do jogar para a torcida, na 'hora do vamos ver', eu não boto fé que a CPI vá para o nervo da questão. Miguel Nicolelis, neurocientista

Como exemplo do que deveria ser feito pela CPI da Covid, Nicolelis citou o que aconteceu no Reino Unido, em que um relatório produzido pelo Parlamento acusou o governo de Boris Johnson de "erros graves" e atrasos significativos na gestão inicial da pandemia da covid-19 no país.

A CPI da Covid, que ocorre no Senado, está, no momento, na reta final. O relatório do senador Renan Calheiros (MDB-AL) está com previsão de ser apresentado na próxima terça-feira (19) e votado no dia seguinte (quarta-feira, 20).

Genocídio

Hoje, em entrevista à rádio CBN, Calheiros disse que pretende pedir o indiciamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por ao menos 11 crimes, incluindo genocídio de indígenas, crimes contra a humanidade e homicídio por omissão.

"[Homicídio por omissão] significa, em outras palavras, que o presidente da República descumpriu seu dever legal de evitar a morte de milhares de brasileiros durante a pandemia", afirmou o senador alagoano.

Na parte da manhã, porém, o senador Omar Aziz (PSD-AM), em entrevista à edição matutina do UOL News, disse que terão de convencê-lo de que Bolsonaro cometeu crime de genocídio.

Todos sabem das minhas divergências com o presidente, mas eu não posso ir além. Eu tenho que ter essa cautela. Eu não vejo [prática de crime de genocídio]. Omar Aziz (PSD-AM), senador e presidente da CPI da Covid

Na entrevista ao UOL News, a postura e a fala de Aziz foram criticadas por Nicolelis. "Não consigo saber o que falta para ele ser convencido. Por isso digo que gostaria de um inquérito completamente independente", disse.

Diogo Schelp, colunista do UOL, porém, tem uma posição que vai ao encontro da que foi proferida por Aziz. Também falando à edição da tarde do UOL News, o jornalista disse não enxergar práticas de genocídio nas ações de Bolsonaro.

"O problema do termo genocídio é que ele é muito associado a questões ou crimes praticados em contextos de conflito armado", afirmou Schelp, pontuando que já há "muitos crimes" que podem ser imputados a Bolsonaro e a outros membros do governo.

"Claro, também há contextos de violação ou tentativas de eliminação de grupos étnicos por outros meios que não sejam meios armados. Mas, no caso de Bolsonaro, isso parece bastante fora do que se está vendo, do próprio uso jurídico do termo", argumentou.

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.