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PSDB retoma prévias em clima de tensão e pouca esperança de união

Tomás Covas, o ex-senador Arthur Vírgilio (PSDB-AM), os governadores João Doria (PSDB-SP) e Eduardo Leite (PSDB-RS) e o presidente do PSDB, Bruno Araújo, se reúnem na convenção do partido que deveria ter definido as prévias - Luís Blanco /Equipe JD
Tomás Covas, o ex-senador Arthur Vírgilio (PSDB-AM), os governadores João Doria (PSDB-SP) e Eduardo Leite (PSDB-RS) e o presidente do PSDB, Bruno Araújo, se reúnem na convenção do partido que deveria ter definido as prévias Imagem: Luís Blanco /Equipe JD

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

27/11/2021 04h00Atualizada em 27/11/2021 13h31

O PSDB retomou hoje (27) a votação das prévias para escolher o candidato do partido à Presidência da República com um novo sistema. O pleito foi interrompido no último domingo (21) após pane no aplicativo que registrava os votos.

Depois de uma semana de incertezas e discussões, a nova votação acontece online neste sábado —mas não mais por meio de um aplicativo, e sim pelo site. O partido informou nas redes sociais, pouco antes das 9h30, que o novo sistema estava disponível.

À CNN Brasil, uma hora depois, o presidente do partido, Bruno Araújo, disse que a expectativa do partido é anunciar o resultado no final da tarde."Se chegarmos sem nenhuma intercorrência e correr tudo bem, estamos trabalhando para ter o resultado entre 17h30 e 18h de hoje. Até um pouco antes do que inicialmente nós imaginávamos", afirmou Araújo à emissora.

Segundo explicou o tucano, o vencedor precisa conquistar metade dos votos mais um. Caso contrário haverá um segundo turno, que ocorrerá amanhã se for necessário. Às 12h30, o partido informou no Twitter que mais de 15 mil votos já haviam sido registrados.

As campanhas do ex-senador Arthur Virgílio (AM) e dos governadores Eduardo Leite (RS) e João Doria (SP) se dizem animadas e garantem que o partido sairá unido, mas, entre os tucanos, só se fala em "recolher cacos" após uma prévia bem mais tensa do que se imaginava.

O fracasso da convenção de domingo, programada para ser o grande evento tucano dos últimos anos, e a indefinição sobre o aplicativo, que envolveu a desistência da desenvolvedora original, a tentativa de duas outras empresas e até denúncia de ataque hacker, causaram um acirramento nos ânimos e os tucanos, que já estavam preocupados com os rumos do partido, agora só veem o discurso de união da boca para fora.

Votação online

A retomada da votação foi anunciada pelo presidente do partido na tarde de ontem (26).

A Executiva Nacional do PSDB passou a semana se reunindo com as campanhas e testando novos softwares para dar prosseguimento à votação dos mais de 40 mil filiados que não conseguiram registrar suas escolhas no último fim de semana.

O pleito continua sendo online, mas não pelo mesmo aplicativo do último domingo, desenvolvido pela Faurgs (Fundação de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Para votar, o filiado deve acessar o site de votação do PSDB, da empresa BeeVote, se registrar por meio de confirmação via SMS, criar uma conta com o título de eleitor e votar. É possível salvar o comprovante de votação.

Em princípio, a votação ficará aberta até o fim da tarde e só poderão votar aqueles que já tinham feito a inscrição até o dia 14 de novembro e não conseguiram votar no último domingo. Os que conseguiram registrar a escolha —seja presencialmente em Brasília, seja pelo aplicativo anterior— estão com seus votos armazenados e não precisam refazer a operação, garante a legenda.

Após as 17h, os dados das urnas eletrônicas da votação presencial e dos dois sistemas online serão apurados.

Aumento da tensão

Apesar da decisão de finalizar as prévias, o clima no PSDB não está agradável. O partido se preparou durante o ano inteiro para a convenção do último domingo, que acabou vazia e sem comemoração.

O impasse de quase uma semana irritou representantes das campanhas e estimulou especulações internas de que caciques tucanos estariam agindo contra ou a favor de determinadas candidaturas.

O problema, que antes parecia apenas tecnológico, rapidamente se emaranhou na disputa política e o confronto entre candidaturas e versões ajudou a aumentar o clima de tensão e desunião.

Assim que a votação foi suspensa, ainda na noite de domingo passado, Doria e Virgílio se uniram para que os votos apurados via urna e aplicativo fossem armazenados e o resto da votação, retomada uma semana mais tarde, no domingo seguinte (28).

Já Leite lutava para que a votação continuasse por 48 horas, até a última terça (23). Como isso não ocorreu, sua campanha começou a defender a retomada do pleito "o quanto antes". O gaúcho também defendia que os votos já computados fossem abertos, o que não aconteceu. Os votos do app foram reservados e as urnas eletrônicas com os votos presenciais de Brasília, guardadas lacradas, sem apuração.

As farpas entre as campanhas começaram no próprio domingo, que deveria ser o grande dia de celebração do PSDB —muito embora tucanos já indicassem que uma união em torno do vencedor não seria tão fácil assim.

Na primeira reunião entre a cúpula e as três campanhas, no dia da votação (e dos problemas no app), a discussão chegou a tal ponto que um representante da campanha de Leite foi expulso da sala na sede do partido em Brasília.

Publicamente, o tom também não ficou mais ameno. Em uma das ações mais agressivas da campanha, Leite passou a citar uma suposta denúncia de compra de votos por parte da campanha de Doria. A acusação surgiu inicialmente na convenção, pela deputada Mara Rocha (PSDB-AC), de saída do partido.

O deputado Alexandre Frota (PSDB-SP) entrou na discussão e protocolou um pedido oficial no partido para que ela provasse as acusações. Até então, nenhuma prova foi apresentada.

Do outro lado, apoiadores de Doria têm insistido no vínculo entre Faurgs —que desenvolveu o aplicado e fica no estado de Leite— e o governador gaúcho. Leite, irritado, negou qualquer relação.

Por fim, Arthur Virgílio, que procurava fugir das polêmicas, juntou-se a Doria e tem dado nome a quem ele chama de "maçã podre" do partido, o deputado Aécio Neves (PSDB-MG). O amazonense tem reafirmado a ligação entre o mineiro, apoiador de Leite, e uma "bolsonarização do PSDB".

Isso fez com que ele virasse também alvo dos grupos de WhatsApp de filiados, com lembranças a denúncias de corrupção envolvendo pessoas próximas à sua gestão na Prefeitura de Manaus. Estes grupos têm sido usado com frequência para compartilhar figurinhas vexatórias dos dois lados.

Agora, até os tucanos mais otimistas estão cabisbaixos. Oficialmente, parlamentares e lideranças tratam a confusão como um mero "problema técnico" que foi resolvido. No partido, no entanto, sabe-se que, politicamente, as prévias podem ter escancarado uma fratura que não fecha.

Com fraco desempenho tanto de Doria quanto de Leite nas pesquisas eleitorais, a possibilidade de uma grande união do partido após o pleito já está praticamente desconsiderada.

Deputados tucanos têm dito que "caberá ao vencedor recolher os cacos". Os dois concorrentes falam em apoiar o outro, caso percam, mas, na prática, cada vez mais tucanos estão olhando para si e para seus redutos eleitorais e deixando de lado o partido. O medo, avaliam, é que já não importe qual seja o resultado: todos saem perdendo.

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