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Em três meses, coronavírus se aproxima de mortes de pandemia de H1N1

Rodrigo Mattos

Do UOL, no Rio de Janeiro

24/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Em menos de 3 meses, o novo coronavírus registra um número de mortes que se aproxima de todos os óbitos da pandemia de H1N1, ocorrida durante 16 meses
  • Pelos números da Organização Mundial da Saúde, foram 14.652 casos fatais pelo novo vírus, enquanto a antiga gripe matou um total de 18.449
  • A comparação de dados da OMS e dos países mostra que há maior letalidade percentual do novo coronavírus
  • O crescimento da globalização e o aumento do número de viagens favorece a disseminação, diz uma infectologista pediátrica

Em menos de três meses, o novo coronavírus já registra um total de mortes que se aproxima de todos os óbitos da pandemia de H1N1 (Influenza A), ocorrida durante 16 meses nos anos de 2009 e 2010. Pelos números da OMS (Organização Mundial da Saúde), foram 14.652 casos fatais pelo novo vírus, enquanto a antiga gripe matou um total de 18.449 durante o período de surto.

Esses números são para óbitos comprovados em laboratório na pandemia, pelos critérios da organização de saúde — há casos em ambas as doenças não reportados, e as estimativas são de números bem maiores de mortes.

A comparação de dados da OMS e dos países mostra que há maior letalidade percentual do novo coronavírus. Uma das explicações de infectologistas é de que havia antivirais já desenvolvidos para tratar o H1N1 no surgimento da pandemia de 2009. Além disso, era um vírus mais próximo de outros que já circulavam, o que criava alguma imunidade na população.

O presidente da República, Jair Bolsonaro, tem comparado as pandemias dos dois vírus para defender que há um exagero em relação à reação ao novo coronavírus. À RecordTV, na noite de domingo, afirmou: "O número de pessoas que morreram de H1N1 no ano passado foi da ordem de 800 pessoas. A previsão é de que não chegará nesta quantidade de óbitos no coronavírus. Tem certos números que têm que ser levados em conta".

Bolsonaro se referia ao número de mortos pelo H1N1 em 2019 que, de fato, foi de 796 casos. Durante a pandemia, foram registrados 2.060 óbitos pelo vírus Influenza no Brasil, em 2009, e outras cerca de 100 mortes no ano de 2010, quando o país já distribuíra vacina à população. Isso foi durante o período de dois anos. Mas a comparação mostra que o coronavírus tem gerado mais mortes em períodos curtos.

Como histórico, em abril de 2009, a OMS recebeu notícia de transmissão sustentada de um novo vírus Influenza A (H1N1) na região do México e dos EUA. Em junho daquele ano, a entidade declarou a pandemia da doença. E manteve o status de pandemia até agosto de 2010. Em seu último relatório, registrou as 18.449 mortes no mundo, em um total de 651 mil casos. Em casos oficiais, a letalidade seria de 2,8%. Mas estudos posteriores estimaram um número bem superior de mortes e de casos: a letalidade foi avaliada em 0,026%.

Já o novo coronavírus foi identificado na China em 8 de janeiro de 2020 — já havia pessoas com doenças respiratórias na província de Wuhan, epicentro do vírus, desde dezembro. A OMS declarou pandemia da doença em 12 de março. E, agora, até o final da noite de ontem, a organização apontava as 14.652 mortes para um total de 334.981 casos confirmados em laboratório. Em casos oficiais, a letalidade seria de 4,37%.

Estimativas ainda são imprecisas sobre a letalidade do coronavírus com variações em cada país: há números que variam de 0,7% a 6%. No Brasil, o Ministério da Saúde confirma 1.891 casos de infectados com a covid-19, com um total de 34 mortes. Isso levaria a uma letalidade em casos oficiais de 1,79%.

"Tem alguns elementos que ajudam [o coronavírus a ser mais letal]. A gente conhece [a H1N1] há mais tempo. Já havia antivirais — Tamiflu e Relenza — para Influenza. Já havia uma unidade residual de imunidade para quem fora submetido à gripe. Por isso, a menor letalidade dos casos de H1N1. Quando existe uma população vacinada regularmente para Influenza, tem algum efeito também, porque há uma semelhança ao vírus que já corria. O quadro tende a ser mais brando por tudo isso", afirmou o infectologista Edmilson Migowski, professor em doenças infecciosas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para ele, o potencial de transmissão entre os dois vírus é semelhante. Mas lembrou que o Brasil, por exemplo, passou a ter vacina contra H1N1 já em 2010, o que reduziu o efeito da pandemia naquele ano. Por enquanto, não há nem antivirais, nem vacina de ação comprovada contra o novo coronavírus, embora sejam realizados testes com diversas substâncias.

Outro fator apontado pelo infectologista da UFRJ é que, em dez anos, o sistema de notificação no mundo tornou-se mais eficiente. "Aumenta a percepção de mortes também", disse ele.

Aumento do contágio mundial

Cristiana Meirelles, infectologista pediátrica formada no Instituto Fernandes Figueira da Fiocruz, entende que ainda é cedo para determinar se há maior letalidade do novo coronavírus em relação a H1N1. "Não tem um dado muito fidedigno, porque não sabemos todos os casos. Quando começar a fazer teste em massa, vai ter um número de letalidade mais certo", disse ela, que lembrou que várias pessoas não apresentam sintomas e, por isso, não vão a hospitais.

Meirelles ressaltou que, de 2009 para 2020, houve um crescimento da globalização, o que aumentou a possibilidade de contágio mundial.

"O número de viagens é ainda maior, a globalização é ainda maior. Quase o mundo inteiro, menos a Antártica, tem casos. Favorece a disseminação."

E acrescentou que, no caso de H1N1, havia antivirais para combater a doença e uma vacina já em estudo. "Vacina já estava em estudo antes. Não foi de 2009 para 2010. Influenza tem umas mutações frequentes. Todo ano tem que fazer uma nova vacina."

Medidas restritivas mais brandas

Governos de diversos países adotaram medidas restritivas bem mais brandas durante a pandemia de H1N1. No Brasil, houve inspeções sanitárias nos aeroportos, e as férias escolares do meio do ano foram prorrogadas em alguns Estados. No exterior, houve interrupção de aulas em pontos dos EUA e do México, com isolamento em algumas poucas cidades.

Agora, governos do Rio de Janeiro, de São Paulo e de outros Estados impedem a circulação de pessoas e o comércio. E, mundialmente, foram adotadas medidas de supressão para evitar contato social em boa parte dos países atingidos pela pandemia que já chegou a 189 nações.

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