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Bolsonaro repete Trump e insiste em cloroquina em dia de mais de mil mortes

Donald Trump e Jair Bolsonaro juntos, durante visita do presidente brasileiro ao norte-americano em março de 2020 -                                 ALAN SANTOS/PR/AFP
Donald Trump e Jair Bolsonaro juntos, durante visita do presidente brasileiro ao norte-americano em março de 2020 Imagem: ALAN SANTOS/PR/AFP

Arthur Sandes

Do UOL, em São Paulo

19/05/2020 23h18

Somente cinco líderes nacionais no mundo inteiro tiveram que lidar com a marca de mais de mil mortes por covid-19 registradas num período de 24 horas. Hoje foi a vez do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) entrar nessa lista. E ele reagiu ao estilo Donald Trump e voltou a insistir na cloroquina como solução para a pandemia.

No dia em que o Brasil registrou 1.179 mortes por covid-19, Bolsonaro fez piada com refrigerante. Ele afirmou hoje que o ministro interino da Saúde, o general Eduardo Pazuello, assinará amanhã um novo protocolo que muda as diretrizes quanto ao uso da cloroquina.

O presidente quer que o remédio, que já pode ser usado em pacientes em estado grave de covid-19, seja também permitido para pacientes em estágio inicial da doença.

"O que é a democracia? Você não quer? Você não faz. Você não é obrigado a tomar cloroquina. Quem é de direita toma cloroquina. Quem é de esquerda toma Tubaína", ironizou Bolsonaro em uma live, referindo-se a uma marca de refrigerantes.

A insistência com a droga remete ao que Donald Trump fez em 4 de abril, quando os Estados Unidos registraram mais de mil mortes por covid-19 pela primeira vez. Foram 1.061 óbitos naquela ocasião, o que elevou o total para quase 6 mil, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

"O que você tem a perder? Tome!", falou Trump naquela data, incitando pacientes em estado crítico de covid-19 a apelar à cloroquina.

"Realmente acho que devem tentar, mas a escolha é deles e de seus médicos. Mas hidroxicloroquina... Experimente, se quiser", declarou o presidente norte-americano, que até hoje é fã do remédio.

Não há comprovação científica para uso de cloroquina

A cloroquina não tem comprovação científica de eficácia contra o coronavírus. Pelo contrário: estudos são mais claros quanto aos riscos do que quanto aos benefícios, por isso sociedades médicas recomendam não usar.

A pressão feita pelo presidente pelo uso de cloroquina no tratamento de pacientes contaminados e suas críticas ao isolamento social, desdizendo em público orientações do Ministério da Saúde, pesaram na saída dos ex-ministros Luiz Henrique Mandetta (demitido no dia 16 de abril) e Nelson Teich, que pediu demissão do cargo na última sexta (15) — ele ficou menos de um mês no cargo.

Em sua breve gestão, o ex-ministro da Saúde Nelson Teich já havia admitido no final de abril a possibilidade de o Brasil contabilizar mil óbitos por dia no decorrer da emergência de saúde.

Macron lamentou tragédia, Xi Jinping pediu mais esforço

No dia em que a França registrou mil mortes por covid-19, o presidente Emmanuel Macron precisou dividir atenções e lamentar também um ataque a faca que deixou duas pessoas mortas na cidade de Romans-sur-Isère.

"Meus pensamentos estão com as vítimas, os feridos e suas famílias. Toda a luz será lançada sobre esse ato odioso que lamentamos em nosso país, que já tem sido bastante atingido nas últimas semanas", escreveu Macron na ocasião, referindo-se ao mesmo tempo ao ataque e à pandemia.

No Reino Unido, em 8 de abril, o primeiro-ministro Boris Johnson estava internado na UTI (unidade de terapia intensiva) justamente por causa da covid-19. Quem assumiu suas funções interinamente foi Dominic Raab, que, no dia em que o país registrou 3,8 mil mortes atrasadas, pediu para a população ficar em casa.

"Estamos instruindo as pessoas a ficar em casa, assim podemos proteger o NHS [sistema público de saúde britânico] e, portanto, salvar vidas", disse Raab na data.

Já Xi Jinping, presidente da China, falou em aumentar os esforços de combate à pandemia no único dia em que o país registrou mais de mil mortes por covid-19. Foram 1.290 em 17 de abril, fruto de dados atrasados de semanas anteriores.

"Precisamos de esforços incessantes para proteger o país contra casos importados do exterior, para minimizar as perdas causadas pela covid-19", disse Xi Jinping naquela data, quando a China já tinha a doença sob controle.

Perda de vidas é ainda maior do que o registrado

Os 1.179 óbitos registrados nas últimas 24 horas no Brasil não significam que todas estas pessoas morreram de ontem para hoje, mas sim que as mortes foram oficializadas como relacionadas à covid-19.

Ainda que o Ministério da Saúde divulgue o total de mortes todos os dias, o número está sempre desatualizado porque os resultados dos exames demoram a sair. Há casos em que uma morte causada pela doença demora até 50 dias para entrar nas estatísticas do governo, conforme apurado pelo UOL.

Também há subnotificação. Segundo os dados oficiais, o Brasil realizou 386,5 mil testes não específicos de covid-19 (que identificam vírus respiratórios no geral). Com isso, a taxa de testagem é de apenas 1,82 por 1 mil habitantes, enquanto as taxas de Itália (50,3) e Estados Unidos (37,4) são mais de vinte vezes maiores.

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