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Enfermeiras que vacinarão colegas recebem CoronaVac: "Mais tranquilidade"

As enfermeiras Elaine Maria da Cunha, 34, e Carolina Vieira Rodrigues, 23, mostram curativo após tomarem vacina contra covid no Hospital das Clínicas, em São Paulo - Arthur Stabile/UOL
As enfermeiras Elaine Maria da Cunha, 34, e Carolina Vieira Rodrigues, 23, mostram curativo após tomarem vacina contra covid no Hospital das Clínicas, em São Paulo Imagem: Arthur Stabile/UOL

Arthur Stabile

Colaboração para o UOL, em São Paulo

18/01/2021 14h24Atualizada em 18/01/2021 16h24

Depois da enfermeira Monica Calazans, 54, a primeira pessoa vacinada com a CoronaVac no país, outros profissionais da saúde receberam hoje a primeira aplicação do imunizante contra a covid-19 desenvolvido pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com Instituto Butantan, no Hospital das Clínicas, em São Paulo.

A convocação dos funcionários envolveu quem atua diretamente com doentes desde o início da pandemia. São enfermeiros que se voluntariaram para participar da campanha de vacinação na unidade e vão imunizar outros profissionais da saúde do próprio HC a partir de amanhã (19)

Depois de vacinada, a enfermeira Monica Calazans virou alvo de fake news de que teria recebido doses com a vacina antes do prazo, o que não ocorreu. Segundo o Instituto Butantan, ela foi escolhida pois seu organismo não desenvolveu anticorpos para a doença.

No início do dia, as enfermeiras Elaine Maria da Cunha, 34, e Carolina Vieira Rodrigues, 23, receberam a primeira dose do imunizante.

Elaine definiu como uma "tranquilidade" saber que, de agora em diante, trabalhará já com uma vacina para combater o novo coronavírus. Segundo ela, o importante é a população se conscientizar.

"Apesar da vacina, temos que continuar com máscaras, higienização, não podemos descuidar. Temos que continuar com cuidados e acreditando com fé em Deus", disse ao UOL.

Ela e Carolina se voluntariaram para aplicar a vacina do Instituto Butantan, aprovada ontem pela Anvisa. O Ministério da Saúde criticou o início da vacinação fora do PNI (Plano Nacional de Imunização) e antecipou a entrega dos 6 milhões de doses adquiridas junto ao Butantan aos estados.

Moradora de Embu das Artes, na Grande São Paulo, Elaine mora com o filho pequeno, o marido e a sogra, que íntegra o grupo de risco por ter hipertensão. A profissional estava desempregada no início da pandemia.

"Minha sogra perguntou se era o momento certo de trabalhar, eu falei que sim e coloquei a cara", disse. "Resumo meu trabalho em uma palavra: dom. Se trabalha por algo a mais, se trabalha com amor", afirmou.

Durante seus turnos de 12 horas, relembra uma história que emocionou um bloco inteiro de profissionais do Hospital das Clínicas: a despedida de uma paciente idosa. Debilitada, ela não se recuperava da doença e estava havia dias sem ver seus familiares. Ela se despediu da família graças a uma médica.

"A doutora pegou seu celular pessoal, ligou para os parentes, que mandaram um áudio. A senhora estava em coma e, mesmo assim, ouviu o áudio quando colocamos o celular em seu ouvido", disse. "A mulher chorou quando começou a ouvir. Estava em coma, seu sistema neurológico não respondia mais. O bloco inteiro ficou 20 minutos chorando, emocionado."

Curativo no braço

Ao lado de Elaine, Carolina também mostrou com orgulho o curativo no braço após a tomar a CoronaVac. Enfermeira há dois anos, ela diz ter perdido muitos pacientes, com a média de um por dia no ápice de atendimento, em julho do ano passado.

A jovem enfermeira trabalhou em dois locais na pandemia —alem do Hospital das Clínicas, atendeu pacientes no Valdomiro de Paula, hospital em Guaianazes, extremo leste da capital paulista.

"Nunca imaginei passar por uma pandemia como esta, mesmo tendo vivo um pouco da H1N1", disse. Foram cem pacientes por dia, entre suspeitas e infectados, nos momentos mais complicados de contaminação. Agora, prevê dias menos intensos.

"As perdas com a vacina serão menores, agora já sabemos como lidar com a doença", diz. "Queríamos que a vacina tivesse vindo antes, tivemos muitos pacientes que se foram".

Carolina é da Aclimação, bairro central de São Paulo. Estudou na Uninove, uma faculdade privada. Ela diz ter se tornado enfermeira por amor à área e pelo histórico hospitalar.

Quando criança, a profissional da saúde teve um acidente doméstico com álcool e queimou parte do corpo. Deli por diante, vivenciou uma rotina de idas ao hospital por anos, entre tratamentos e operações.

"Talvez, por desde pequena viver esse dia a dia, recebi uma inspiração em querer cuidar das pessoas", disse. Ela defende ser essencial conscientizar as pessoas de que a vacina é o caminho para acabar com a pandemia.

"Nada impede de continuar com os estudos. É a primeira vacina de todas, o mínimo possível [de Imunização] já está sendo feito, independentemente da porcentagem", afirma, sobre a eficácia global da CoronaVac, em 50,38%.

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