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Eleições no Reino Unido: por que discussões sobre raça e religião podem definir pleito

Religião passou a ocupar um lugar central na política britânica - Getty Images
Religião passou a ocupar um lugar central na política britânica Imagem: Getty Images

Peter Ball - BBC World Service

11/12/2019 11h38

Em um momento crucial de campanha antes das eleições gerais da Grã-Bretanha, que ocorrem nesta quinta-feira (12), o primeiro-ministro, Boris Johnson, decidiu parar em uma padaria judaica para uma aparição meticulosamente midiática.

"Você precisa nos salvar desse cara", gritou um homem no evento na última sexta-feira, referindo-se ao líder oposicionista do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn. "Caso contrário, todos sairemos do país", acrescenta outro.

Seria impensável que um primeiro-ministro britânico, especialmente um acusado pelo Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha de flertar com a islamofobia, colocaria a religião no centro de uma campanha eleitoral.

Mas controvérsias sobre o judaísmo, o islamismo e o hinduísmo estão se tornando questões importantes para a política britânica e mais especificamente as duas figuras que lideram as pesquisas de intenção de voto.

Em média, o Partido Conservador aparece nos levantamentos com 43%, seguido do Trabalhista com 33% e do Liberal-Democrata com 13%. Com 4% aparece o Partido do Brexit, que tem como principal plataforma a saída do Reino Unido da União Europeia.

O pleito, aliás, deveria ocorrer apenas em 2022, mas sua antecipação se tornou uma tentativa de acabar com o impasse que se arrasta há meses sobre o Brexit.

Voto judeu

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, faz campanha em padaria judaica - PA Media
O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, faz campanha em padaria judaica
Imagem: PA Media

Olhando de um ponto de vista mais crítico para a estratégia política, parece improvável que o líder conservador, Boris Johnson, tenha como alvo específico os eleitores judeus com sua campanha na padaria.

Judeus representam apenas 0,5% dos mais de 66 milhões de habitantes do Reino Unido e não se espera que eles consigam desequilibrar a balança.

Mas o simbolismo de um grupo de eleitores judeus que apoia o candidato conservador, e teme o trabalhista, é muito potente.

Tradicionalmente, o Partido Trabalhista é tido como a sigla na vanguarda contra o racismo e no suporte a muitos grupos minoritários.

É por isso que as recentes acusações de antissemitismo, dirigidas às liderança e filiação partidárias do partido, foram muito prejudiciais à imagem dos trabalhistas na opinião pública.

Acusações de antissemitismo

Manifestantes fazem acusações antissemitas contra os trabalhistas em ato em Londres - Getty Images
Manifestantes fazem acusações antissemitas contra os trabalhistas em ato em Londres
Imagem: Getty Images

Quando Jeremy Corbyn assumiu o comando do Partido Trabalhista em 2015, ele se tornou o líder mais à esquerda da história recente da sigla.

Embora os trabalhistas sempre tivessem elementos pró-Palestina e anticorporativos, estes cresceram sob sua liderança.

Logo surgiram questões sobre a possibilidade de críticas a membros de Israel se desviarem para o antissemitismo e de ataques a corporações se transformarem em conspirações sobre financistas judeus.

Além disso, a popularidade dos trabalhistas na comunidade judaica do Reino Unido caiu recentemente. Não era elevado anteriormente, mas passou de 22% nas eleições gerais de 2015 para 13% nas de 2017 e 6% nas atuais, sendo as duas últimas sob liderança de Corbyn.

Jeremy Corbyn condenou diversas vezes o antissemitismo - EPA
Jeremy Corbyn condenou diversas vezes o antissemitismo
Imagem: EPA

Após denúncias do Movimento Trabalhista Judaico e da Campanha Contra o Antissemitismo, a Comissão de Igualdade e Direitos Humanos lançou uma investigação formal contra o partido.

Corbyn condenou reiteradamente o antissemitismo, pediu desculpas pelo fato de o partido ter demorado a lidar com as acusações e deu início a uma investigação independente.

Embora seja improvável que o impacto da perda de votos na comunidade judaica afete as esperanças eleitorais do Partido Trabalhista, as acusações ganharam força nas eleições e prejudicaram o partido com o eleitorado em geral.

Islamofobia

Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha afirmou que Partido Conservador tolera islamofobia - Getty Images
Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha afirmou que Partido Conservador tolera islamofobia
Imagem: Getty Images

O líder conservador e atual primeiro-ministro, Boris Johnson, também foi alvo de críticas de grupos religiosos, mais especificamente a comunidade muçulmana, que representa mais de 5% da população britânica.

No mês passado, o Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha atacou o Partido Conservador, dizendo que " ele tolera a islamofobia, permite que ela apodreça na sociedade e falha em implementar as medidas necessárias para erradicar esse tipo de racismo".

O próprio Johnson foi criticado por comentários sobre o Islã. Em um artigo em que ele criticou as burcas como "opressivas", disse que as mulheres que as usam parecem " assaltante de banco" ou uma "caixa de correio", uma referência ao véu que cobre o rosto de várias muçulmanas deixando de fora apenas uma pequena abertura para os olhos.

O primeiro-ministro pediu desculpas por qualquer "ofensa" causada pela islamofobia em seu partido e disse que uma investigação independente sobre o preconceito dentro da sigla começará antes do Natal.

Boris Johnson escreveu que mulheres de burca lembram assaltantes de banco e caixas de correio - AFP
Boris Johnson escreveu que mulheres de burca lembram assaltantes de banco e caixas de correio
Imagem: AFP

O apoio aos conservadores historicamente não é alto entre a comunidade muçulmana (87% votaram nos trabalhistas nas eleições gerais de 2017).

Campanha no WhatsApp

Segundo o site Buzzfeed, o grupo civil Comitê de Assuntos Públicos Muçulmanos, promoveu uma ofensiva enviando mensagens do WhatsApp para muçulmanos pedindo que votem contra candidatos conservadores que a entidade afirma "terem um histórico de permitir a islamofobia, apoiando Israel e/ou apoiando o ataque do (primeiro-ministro indiano Narendra) Modi à Caxemira". A região é disputada por Índia e Paquistão e diplomaticamente sensível. Ambos os países reivindicando soberania sobre a Caxemira.

As mensagens foram criticadas por serem divisivas e por talvez violarem as regras eleitorais sobre financiamento e proteção de dados.

O grupo, por outro lado, argumentou que não recebeu direito de resposta adequado às acusações e que suas reivindicações sobre os candidatos conservadores têm respaldo popular.

Mas essa não é a única campanha do Whatsapp que se destacou na mídia.

Voto hindu

Se judeus e muçulmanos não são capazes de desequilibrar a balança eleitoral, os hindus britânicos parecem ter força para isso.

Como muitos grupos minoritários, essa parcela da sociedade historicamente apoiou o Partido Trabalhista, mas agora parece ter se aproximado do Partido Conservador em meio a campanhas agressivas e controversas.

De 2010 a 2017, a parcela dos votos conservadores dos mais de 1 milhão de hindus que vivem no Reino Unido aumentou de cerca de 30% para 40% - e espera-se que aumente ainda mais.

Grupo ligado ao primeiro-ministro indiano fez campanha para conservadores em torno da Caxemira - EPA
Grupo ligado ao primeiro-ministro indiano fez campanha para conservadores em torno da Caxemira
Imagem: EPA

Em declarações ao jornal Times of India, um grupo ligado ao partido governante da Índia afirma estar trabalhando com candidatos conservadores para convencer a população hindu do Reino Unido a não votar nos trabalhistas.

O principal motivo passa pelas críticas do Partido Trabalhista ao recente recrudescimento da Índia por seu controle sobre a parte da Caxemira que administra.

As mensagens do WhatsApp - originalmente escritas para uma outra campanha - foram encaminhadas aos hindus em todo o Reino Unido, dizendo que os trabalhistas "apoiaram cegamente a propaganda do Paquistão" e instando-os a votar no Partido Conservador.

Trabalhistas criticaram as mensagens alertando as pessoas a "não se apaixonarem pelas táticas divisivas dos extremistas religiosos".

Quais foram os temas que dominaram as eleições?

Muitas promessas foram feitas pelos partidos políticos nesta campanha eleitoral.

As propostas dos candidatos para as mais diversas áreas - como economia, defesa e policiamento - são apresentadas antes do pleito em manifestos eleitorais formulados pelos partidos.

As questões que mais preocupam os eleitores do Reino Unido mudaram muito desde as últimas eleições, conforme mostram as pesquisas de opinião.

O sistema público de saúde (NHS, na sigla em inglês) e a imigração eram as questões mais importantes para o eleitorado em 2015.

A União Europeia despertava muito menos interesse.

Brexit e NHS têm dominado os debates entre os líderes dos dois principais partidos, o conservador Boris Johnson (à esquerda da foto) e o trabalhista Jeremy Corbyn (à direita) - Getty Images
Brexit e NHS têm dominado os debates entre os líderes dos dois principais partidos, o conservador Boris Johnson (à esquerda da foto) e o trabalhista Jeremy Corbyn (à direita)
Imagem: Getty Images

Agora, no entanto, o Brexit é, de longe, a principal preocupação do eleitorado. E talvez seja, portanto, uma das questões mais debatidas entre os candidatos.

Os líderes dos dois principais partidos, Boris Johnson (Conservador) e Jeremy Corbyn (Trabalhista), batem de frente sobre o tema. Enquanto os conservadores se comprometem a "fazer o Brexit" e deixar a União Europeia até 31 de janeiro, os trabalhistas prometem "resolver a questão do Brexit" em seis meses, renegociando o acordo de Johnson com a União Europeia e colocando o mesmo para votação popular.

O NHS é outra pauta polêmica desta campanha eleitoral. Ambas as partes concordam que o serviço público de saúde precisa de mais dinheiro, mas divergem sobre como seria feito o aporte de recursos. Os trabalhistas acusam os conservadores de querer colocar o NHS "à venda" por meio de um acordo comercial pós-Brexit com os EUA. Os conservadores classificam, por sua vez, as acusações como "absurdas".

Quando saem os resultados da eleição?

Cerca de 46 milhões de eleitores devem ir às urnas nesta quinta-feira, a quarta vez em quatro anos.

A votação acontece entre 7h e 22h. Os resultados são divulgados durante a noite e no dia seguinte.

Quando o resultado geral é anunciado, o líder do partido vencedor vai até o Palácio de Buckingham para pedir permissão à rainha Elizabeth 2ª para formar um novo governo.

Uma vez que obtém a "autorização" dela, o que na verdade é uma mera formalidade, ele retorna à residência oficial do primeiro-ministro, no número 10 da Downing Street.

E costuma fazer um discurso do lado de fora da residência sobre os planos de seu partido para os próximos anos.

O sistema de votação do Reino Unido funciona de modo que os partidos podem assumir o poder com bem menos de 50% dos votos nacionais.

Se nenhum partido tiver maioria absoluta, o partido com maior número de deputados pode formar uma coalizão com um ou mais partidos para ganhar o controle do parlamento.

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