Análise: Com a queda de Aleppo, o que acontece?

Faysal Itani*

  • KARAM AL-MASRI/AFP

    13.dez.2016 - Civis começam a deixar área antes comandada por rebeldes em Aleppo

    13.dez.2016 - Civis começam a deixar área antes comandada por rebeldes em Aleppo

Depois de anos de sangue derramado, é quase bem-vindo o fim do cerco a Aleppo. Mas o que vem pela frente pode ser pior

A batalha pelo leste de Aleppo parece estar terminando, mas dezenas de milhares de sírios da região não encontrarão muita paz. A vitória do governo do presidente Bashar al-Assad abrirá um novo capítulo violento e desnorteante em suas vidas, perigoso para a oposição. Civis e combatentes rebeldes ou serão punidos ou terão de fugir da cidade e se juntar aos muitos milhares de outros deslocados por Assad e seus aliados russos e iranianos —parte de um plano para quebrar a insurgência e mudar a Síria para sempre.

Em uma entrevista recente, Assad disse que a tomada de Aleppo, que foi o local de combate por anos, "não vai significar o fim da guerra na Síria, mas será um passo enorme na direção de seu fim". Ele está certo em ambos os aspectos. Essa certamente seria a mais notável de uma série de vitórias recentes por parte de suas forças, juntamente com as da Rússia, do Irã e outros grupos de milícia aliados. A consequência dessas vitórias mostra o que aguarda civis e combatentes rebeldes em Aleppo: a rendição pode salvá-los das bombas, do cerco e da fome, mas há outras calamidades pela frente.

A história do que o governo de Assad chegou a chamar de "trégua" —mas que agora promove mais sinceramente como vitórias militares— é sombria. Em 2014, as forças de Assad detiveram centenas de jovens da oposição que haviam concordado em se render na Antiga Cidade de Homs, um centro do levante que por fim foi subjugado devido aos bombardeios e à fome. Muitos deles ouviram a promessa da anistia, mas foram recrutados para o próprio Exército que matou suas famílias. Os moradores por fim receberam a permissão de partir para outras áreas da oposição carregando somente uma mala cada um. (Os combatentes podiam levar uma arma). Deslocar ou prender povos se tornou comum em áreas retomadas pelo regime.

Dois anos depois, Assad está ainda menos flexível. Hoje ele alega que a possibilidade de uma trégua em Aleppo é "praticamente inexistente". Sua confiança é apoiada por uma série de derrotas dos rebeldes em 2016, após a qual as populações foram expulsas de áreas sitiadas para a província de Idlib, no norte da Síria. Hoje, com os distritos de Aleppo caindo em sequência, os rebeldes sabem que é inútil resistir; e Assad sabe que eles sabem. Suas forças tornarão as áreas da oposição inabitáveis, isolarão os combatentes dos civis e forçarão ambos a se render ou partir.

Essas faxinas refletem um padrão, mas a estratégia por trás delas ainda não está clara. Talvez Assad acredite que se essas pessoas ficarem, elas representarão uma ameaça permanente para áreas próximas que estão sob seu controle. Talvez ele não queira gastar dinheiro do governo com elas. Ou talvez seu regime, liderado pela minoria, só queira expulsar sunitas desleais de sua área central no oeste da Síria. Seja qual for a lógica, esse padrão nefasto —às vezes chamado de estratégia do "ônibus verde", em referência aos veículos usados para transportar os deslocados— pinta um retrato sombrio do que o povo de Aleppo pode esperar.

A oposição, a Rússia, a Turquia e os Estados Unidos continuarão a negociar o destino de Aleppo enquanto Assad o modela. Um grupo insurgente me contou que os rebeldes estavam pedindo por ajuda humanitária, pelo fim dos bombardeios e por uma garantia de que os civis poderiam permanecer no leste de Aleppo sob proteção rebelde. Eles não conseguirão nada disso.

Os combatentes vão se render ou serão forçados a partir. Os civis podem segui-los no exílio ou se colocar à mercê do governo. Eles podem se juntar aos outros deslocados em Idlib, ou ir para o leste rural de Aleppo, que agora está controlado por grupos rebeldes aliados à Turquia. As pessoas próximas dos rebeldes me dizem que o governo de Assad e o Irã preferem enviar os combatentes para Idlib, onde eles podem combatê-los sem restrição, enquanto os rebeldes preferem o refúgio protegido pela Turquia, em parte porque a presença da Turquia pode dissuadir o regime de usar de violência.

Homens em idade de serviço militar de Aleppo, nas mãos de rebeldes, têm um futuro desesperador pela frente. Eles podem ser recrutados ou executados, ou se juntar às dezenas de milhares de famintos nas prisões da Síria. Centenas de combatentes que se renderam já desapareceram, de acordo com um porta-voz da ONU.

Os civis que permanecem dificilmente ficam em segurança; o governo sírio não distingue entre combatentes e aqueles que lhes fornecem ajuda, cuidados médicos, abrigo ou cobertura da mídia. Assad, seu governo, seus soldados e apoiadores veem essas pessoas como traidores e terroristas. As pessoas próximas do governo dizem que as tropas e apoiadores de Assad são contra os ônibus verdes. Eles prefeririam que os "traidores" em Aleppo fossem levados à Justiça, em vez de enviados para Idlib.

E por que Idlib, uma província rural relativamente pobre, dominada pela Frente da Conquista do Levante, um ramo da Al Qaeda considerado pelos Estados Unidos como grupo terrorista? A resposta é preocupante.

A curto prazo, Assad, o Irã e a Rússia estão ocupados demais combatendo com o intuito de defender Damasco e assumir controle de Aleppo para focar na província de Idlib, cujo povo por muito tempo odiou o regime. No entanto, é pouco provável que a longo prazo Assad abra mão permanentemente de uma parte significativa do país. Há planos mais ambiciosos em andamento para essa província.

Quando chegar a hora de retomar Idlib —e ela virá— Assad e seus aliados terão encurralado boa parte da insurgência da Síria e seus apoiadores em uma pequena área montanhosa onde serão presas fáceis dos bombardeios e das táticas de isolamento que conquistaram vitórias no resto do país. Além disso, diferentemente de Aleppo, onde essas táticas no mínimo atraíram condenação internacional e vergonha, em Idlib o regime estaria atacando uma província dominada por um grupo terrorista.

Que governo ocidental de respeito causaria alvoroço por causa disso ou seria contrário a mais uma campanha na guerra contra o terrorismo? A essa altura os deslocados e despossuídos da Síria —tanto civis quanto rebeldes— mais uma vez estarão em posição vulnerável, tendo trocado um cerco por outro.

A guerra por Aleppo tem sido uma vitrine para um sofrimento humano sem limites e uma impotência ocidental por tanto tempo, que quase se deseja seu fim. No entanto, na Síria a segurança está desaparecendo para aqueles que estão marcados como inimigos do Estado. A destruição de Aleppo não lhes trará grande alívio.

Se a comunidade internacional não agir para impor um cessar-fogo na Síria ou aceitar mais refugiados, talvez seja hora de finalmente criar refúgios na Síria para os deslocados de Aleppo e de outros lugares, incluindo os mais de um milhão que estão vivendo sitiados. Seria uma compensação mínima pela destruição de suas cidades, lares e famílias, mas é melhor que o pesadelo sem fim em que estão vivendo.

*Faysal Itani é membro sênior no Centro Rafik Hariri para o Oriente Médio do Atlantic Council
 

Tradutor: UOL

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