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André Santana

Salvador rejeita Bolsonaro, mas vota nos partidos da base do presidente

ACM Neto garantiu a vitória de Bruno Reis (foto) para a sucessão municipal em uma coligação de partidos da direita e do centro  - TIAGO CALDAS/ESTADÃO CONTEÚDO
ACM Neto garantiu a vitória de Bruno Reis (foto) para a sucessão municipal em uma coligação de partidos da direita e do centro Imagem: TIAGO CALDAS/ESTADÃO CONTEÚDO
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

17/11/2020 10h44

Capital com maior índice de rejeição a Bolsonaro, Salvador deu vitória a partidos da base do presidente. Siglas da direita e candidatos evangélicos receberam maior número de votos.

O presidente nacional do Democratas, ACM Neto, deu uma importante contribuição, neste domingo, 15, ao projeto do seu partido de liderar uma frente de centro-direita para as eleições presidenciais de 2022.

Além de eleger o seu sucessor no comando da Prefeitura de Salvador, Neto garantiu o maior número de vagas na Câmara Municipal da cidade para o DEM e demais partidos de direita, que compõem sua base.

Em toda a Bahia, o DEM elegeu 37 prefeitos, um a menos do que conseguiu em 2016. Mas garantiu vitória em cidades importantes do estado.

ACM Neto tentou se distanciar da imagem negativa do governo federal para o eleitor local, especialmente nas ações de enfrentamento à pandemia.

Como resultado, a capital que possui o menor índice de aprovação ao presidente Jair Bolsonaro (11% segundo Ibope) elegeu no primeiro turno o candidato do partido que integra a base bolsonarista.

Derrota acachapante da esquerda na prefeitura

Bruno Reis obteve mais de 64% dos votos dos soteropolitanos e derrotou os quatro candidatos apoiados pelo governador petista Rui Costa. Foi a maior vitória entre as capitais brasileiras.

Somados, os votos de Major Denice do PT, Sargento Isidório do Avante, Olívia Santana do PCdoB e Barcelar do Podemos, todos apoiados por Rui, não alcançaram nem 30% do eleitorado da capital.

A estratégia articulada pelo governador Rui Costa e pelo senador Jaques Wagner (PT), de lançar diversas candidaturas da base, mais uma vez, fracassou.

Até mesmo o candidato do PRTB, Cezar Leite, único defensor das ideias bolsonaristas na disputa à prefeitura, obteve mais votos que dois dos candidatos governistas, garantindo o quarto lugar para a extrema-direita.

Isso mesmo sem contar com o apoio direto do presidente, que não mencionou o candidato em suas lives eleitorais.

Governador Rui Costa (PT) fica entre os escombros

Completando o quarto mandato à frente do governo da Bahia, o PT nunca conseguiu vencer a disputa em Salvador, quarto maior colégio eleitoral do país.

O PP e o PSD, partidos que integram a base do governador, continuarão no comando do maior número de prefeituras em toda a Bahia.

Mas Rui terá que acalmar os ânimos dos descontentes com o resultado em Salvador e com a queixa da preferência dada na campanha à candidata petista, que teve como vice o PSB.

Os partidos que garantiram a vitória de Rui Costa, em 2014 e 2018, são fundamentais para os projetos do PT para 2022, seja na sucessão estadual, seja na participação da Bahia na disputa nacional.

Presidente pediu voto a vereador que conseguiu se reeleger

O DEM do atual prefeito ACM foi o partido que elegeu mais vereadores na cidade e ocupará 7 das 43 vagas da Câmara Municipal de Salvador.

Entre os vereadores campeões de votos estão representantes de partidos que sustentam o governo Bolsonaro e que abrigam candidatos das igrejas neopentecostais, como o PSC, o PL e o Republicanos.

Esta última sigla, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, teve três vereadores entre os mais votados da cidade.

Se nas disputas pelo país Bolsonaro não se mostrou um bom cabo eleitoral, pelo menos em Salvador ajudou a eleger Alexandre Aleluia, do DEM, único da cidade a ser lembrado pelo presidente em suas lives da semana da eleição.

Um gesto de gratidão do presidente à fidelidade do filho do ex-deputado federal José Carlos Aleluia, do DEM, derrotado na eleição de 2018. Naquele ano, pai e filho não conseguiram surfar na onda bolsonarista e não obtiveram êxito nas urnas.

Novos nomes na esquerda

Para fazer frente ao perfil conservador da Câmara Municipal de Salvador, os partidos de esquerda elegeram oito vereadores distribuídos entre PT, PCdoB, PSB e PSOL, nenhum entre os dez mais votados da capital.

Os eleitores dessas legendas apostaram em alguns novos nomes, que irão assumir pela primeira vez um mandato.

O PT, que possui quatro vagas, terá dois estreantes. Já o PCdoB renovou uma das suas duas vagas e o PSB reelegeu seu único representante.

Mandato coletivo ensina sobre diálogo e diversidade

A grande novidade ficará por conta do PSOL que conseguiu eleger a primeira candidatura coletiva da cidade. Laina Crisóstomo, Cleide Coutinho e Gleide Davis formam a Pretas Por Salvador.

Elas irão reforçar a luta feminista e antirracista na Câmara da cidade mais negra do país. E ainda trazem as bandeiras da comunidade LGBTQIA+.

Apesar do registro da candidatura ter sido feito em nome da advogada Laina Crisóstomo, as três covereadoras fizeram campanha juntas e prometem dividir o gabinete e as decisões da "mandata".

As três são mulheres negras de religiões diferentes: duas do candomblé e uma evangélica.

Elas se consideram "sementes de Marielle Franco", que as inspira por uma sociedade justa e por igualdade.

Terão que ter muita disposição para dialogar com o fundamentalismo religioso que permanece consolidado no poder municipal de Salvador e ensinar sobre o respeito à diversidade como pressuposto da democracia.