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André Santana

A "alma não tem cor"? O crime no Carrefour responde que a dor tem

André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

20/11/2020 12h39

Às vésperas do Dia Nacional da Consciência Negra, começam a circular pelas redes sociais cards para lembrar que "não existem raças", que "a alma não ter cor" e que o que se precisa é um "dia da consciência humana".

Antes mesmo que os ativistas negros possam responder à provocação, eis que o racismo, ele mesmo, oferece uma contundente resposta.

Vem de Porto Alegre, cidade onde foi criado na década de 1970 o movimento para marcar a data da resistência negra, a cena que justifica ainda em 2020 a existência de uma dia dedicado às reflexões sobre o quanto é difícil se manter vivo sendo negro neste país.

"O que está adiantando toda a nossa luta?"

Este é o desabafo da cineasta gaúcha Camila Moraes, diante das cenas brutais da morte de João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, na noite de ontem, após ser agredido por dois homens brancos, um segurança e um policial militar, no supermercado Carrefour, na zona Norte da capital gaúcha.

Pelas imagens que circulam é fácil comparar o assassinato de João Alberto com a tortura e morte de George Floyd, em Minneapolis (EUA), que gerou comoção mundial, inclusive aqui no Brasil.

Necropolítica

É mais fácil ainda perceber a tragédia do genocídio negro brasileiro comparando as cenas de ontem com tantas outras ocorridas cotidianamente nas cidades por todo o Brasil. Está também nos noticiários diários, nas idas aos supermercados, na política de segurança pública, no serviço de saúde, nas decisões do Judiciário e nos discursos das autoridades políticas.

Na necropolitica brasileira, o racismo define quem pode ser cidadão neste país e para o restante o controle é feito com a morte.

Ainda há quem considere que já se fala muito sobre o assunto racismo. Quem está nesta luta sente o contrário.

"A gente se sente impune diante desta realidade brasileira que mata negro a toda hora e o motivo é a cor da nossa pele. Parece que não adianta nada o que temos feito há tanto tempo, como movimento negro, falando, gritando, fazendo ações, dizendo que vidas negras importam, pedindo para pararem de nos matar. Não temos perspectiva de vida nesta sociedade brasileira", diz a cineasta.

Festival de cinema no RS vai homenagear João Alberto

Camilla Moraes é a diretora do documentário "O Caso do Homem Errado", uma corajosa investigação sobre o extermínio da população negra, tendo como central a execução do operário negro Júlio César de Melo Pinto, pela Polícia Militar do Rio Grande do Sul, na década de 1980.

"Há três anos estamos apresentando o filme pelo Brasil e fora daqui sobre um caso que aconteceu em 1987, que sabemos que não foi o primeiro. E hoje, 20 de novembro de 2020, nos deparamos com essa cena dolorosa, do assassinato de João Alberto, nesta capital gaúcha, que criou o 20 de novembro. Eu me pergunto: do que está adiantando toda essa luta? Eu sinceramente não sei".

Camilla lembra que atualmente a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil, "com nome e sobrenome".

Tem início hoje em Porto Alegre, o Festival Cinema Negro em Ação, que exibirá filmes que denunciam o racismo e a violência racial do Brasil. O festival será dedicado à memória de João Alberto Silveira Freitas.

Às 18h, haverá uma manifestação em frente à loja do Carrefour onde o crime aconteceu.

Para quem ainda tem dúvidas, Consciência Negra é entender os riscos que se corre em ser negro no Brasil, buscar estratégias de sobrevivência, que passam pelo conhecimento das lutas passadas e presentes, e não aceitar que cenas como a de Porto Alegre continuem naturalizadas pela sociedade brasileira.

Enquanto isso, continuaremos mais do nunca dizendo que "VidasNegrasImportam e pedido para que #ParemdenosMatar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.