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André Santana

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

"Vai pra favela": elite brasileira nos relembra que polícia é só para pobre

André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

13/07/2021 12h34

O vídeo em que uma socialite se revolta com a interrupção de uma festa clandestina, de gente rica, em São Paulo, no último domingo, 11, registra delitos como aglomeração em meio à pandemia, desacato às autoridades e insultos aos agentes públicos que atuavam na operação.

A lista não chega a surpreender. Desde o início da pandemia, são vários os relatos de reações contra as restrições impostas pela crise sanitária. As mais desaforadas vêm de representantes da elite econômica, cuja soberba o fazem acreditar serem cidadãos superiores.

"Cidadão não, engenheiro civil formado, melhor que você." Como destacou o casal de grã-finos do Leblon, em 2020, também reagindo à fiscalização contra aglomeração.

"Vai para a favela", ordenou

No caso mais recente, a cidadã — ou, melhor seria, a "modelo formada" — mandou, ainda, que os policiais fossem para a favela.

Sem surpresas, os insultos proferidos são um claro flagrante do pensamento dos ricos e poderosos brasileiros de que o lugar de ação policial são as comunidades pobres.

Para essa gente, favela é onde tem bandido.

A forma como as forças de segurança do estado brasileiro se comportam nessas comunidades periféricas alimenta essa mentalidade.

As operações policiais em favela respondem satisfatoriamente a esse desejo das elites de que os pobres sejam tratados com extrema violência.

Chacinas de Paraisópolis e Jacarezinho

A Polícia Civil de São Paulo acaba de concluir que a morte dos nove jovens na favela de Paraisópolis, em dezembro de 2019, foi causada por tumulto provocado pela operação policial, que levou pânico a um baile funk na comunidade.

A estimativa é de que a festa reunia mais de 5 mil pessoas. As vítimas, jovens negros de 14 a 23 anos, foram pisoteadas e asfixiadas após serem encurraladas pela PM em uma rua sem saída.

O relatório da Polícia Civil pede o indiciamento dos policiais envolvidos no crime por homicídio culposo, que é quando não se tem a intenção de matar.

A instituição e os agentes treinados pelo estado brasileiro sabem os níveis de letalidade das ações. Ao decidirem os procedimentos adotados, assumem os riscos. É por isso que, em ambientes como a festa ilegal dos Jardins, a intervenção é feita sem violência, com prudência, mesmo quando os policiais são abertamente provocados e ofendidos.

Os "cidadãos de bens" possuem direitos que os moradores das favelas não têm.

Bem diferente da Chacina do Jacarezinho, ocorrida em maio, que resultou em 28 mortos, incluindo um policial. Considera a mais letal operação policial da história do Rio de Janeiro.

A ação, que transformou a favela em uma campo de guerra, ocorreu em meio à uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), que desde agosto do ano passado, proibiu operações policiais nas favelas cariocas durante a pandemia.

Exceto em situações excepcionais. O problema é que quando se tratam de comunidades pobres essa exceção se tona regra.

Paraisópolis, São Paulo; Jacarezinho, Rio de Janeiro; Cabula e Curuzu, Salvador.

As mortes de pretos e pobres nesses lugares saciam o desejo de parte da sociedade detentora de direitos e poderes.

É esse o pedido genocida implícito na frase: "Vai para a favela".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL