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Como mudar de assunto? Número de mortos pode dobrar na próxima semana

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

30/04/2020 17h58

Estudo divulgado nesta quinta-feira pelo Imperial College de Londres revelou que o Brasil tem a mais alta taxa de contaminação por coronavirus no mundo, entre 48 nações pesquisadas, e faz uma previsão assustadora: mantida a atual curva crescente, o país poderá registrar mais 5.680 óbitos já na próxima semana.

Ou seja, pode dobrar o número de mortes confirmadas até aqui pelo Ministério da Saúde, mesmo com a altíssima sub-notificação de casos. O que já está péssimo, sempre pode piorar. E daí?

Após 48 dias de confinamento, religiosamente cumpridos, sem botar os pés no elevador, hoje eu tinha pensado em mudar de assunto, mas como isso é possível depois de ler uma notícia dessas?

Alguns leitores bolsonaristas reclamam, com razão, que ando muito repetitivo. Tem como ser diferente?

Desde que começou essa quarentena, só se fala de duas coisas, em todos os noticiários e comentários, de todas as mídias, em todas as plataformas, do Jornal Nacional ao Facebook: as pandemias do coronavírus e do bolsovírus ou de assuntos conexos.

Quando não é o próprio a dizer mais alguma barbaridade, algum ministro dele inventa uma conspiração comunista chinesa e compara o isolamento social aos campos de concentração nazistas, como fez o chanceler Ernesto Araújo, essa sumidade das relações exteriores, que continua solto por aí.

Bolsonaro e sua trupe não deixam a gente mudar de assunto, são onipresentes, beligerantes, estão sempre prontos a arrumar mais um conflito, aqui dentro ou lá fora, nem que seja, na falta do que fazer, para expulsar os diplomatas da Venezuela.

O que isso tem a ver com o combate ao coronavírus e ao desemprego galopante, que hoje bateu novo recorde, com 12,9 milhões de brasileiros sem trabalho?

Ou com os milhares de miseráveis que madrugam nas filas quilométricas em torno das agências da Caixa, sob sol forte ou debaixo de chuva, sem conseguir receber a ajuda de 600 reais?

Com a saúde entrando em colapso, de norte a sul do país, leio que Bolsonaro encontrou tempo para convencer a Receita Federal a aliviar as dívidas milionárias das igrejas tele-evangélicas.

Mais desesperador para um repórter de rua trancado em casa é lidar com essa pauta única, alimentada todos os dias a partir do momento em que o presidente aparece no cercadinho do Alvorada para arrostar governadores e ministros supremos, ex-aliados e jornalistas, a ONU e a OMS. Dançando sozinho no picadeiro, nunca falta devoto para bater palmas e tirar selfies.

Como mudar de assunto?, me digam. Alguém tem uma boa sugestão de pauta, uma história alentadora qualquer para me contar?

Até o William Bonner, sempre tão elegante, já está perdendo a paciência, ao ter que noticiar todo dia as mesmas desgraças dos gabinetes de ódio do Palácio do Planalto ou dos corredores lotados dos hospitais e das covas rasas dos cemitérios.

Não bastassem os terraplanistas do Olavo de Carvalho, agora arrumaram esse estranhíssimo ministro da Saúde com cara de doença, sempre acompanhado por um general, um ex-médico que ontem confessou estar "navegando no escuro", sem a menor ideia do que fala e do que está fazendo naquele lugar. Parece um zumbi.

Vocês pensam que é fácil escrever todo dia?

É dura a vida de quem precisa lidar com pandemônios federais em meio à pandemia mundial, com o Centrão voltando a dar as cartas do toma-lá-dá da "nova política", o Weintraub debochando de mortos e do presidente chinês, o vice falando que está tudo sob controle, mas não se sabe de quem, aquele robô de óculos do Meio Ambiente demitindo os agentes do Ibama que estavam defendendo a floresta e os índios, que mais?

No fim do dia, você se sente saindo de um filme de terror que misturou chanchada com musical sertanejo e ficção científica com faroeste caboclo.

Parece tudo um grande pesadelo sem hora para acabar _ e é tudo real. E meu ofício é esse, contar o que está acontecendo. Lamento, caros leitores, mas é o que temos.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho