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Bolsonaro vai acabar se enforcando na própria corda

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

17/06/2020 14h08

Bolsonaro está esticando tanto a corda do general Ramos que vai acabar se enforcando nela.

Depois de passar um dia inteiro em obsequioso silêncio, o que até causou preocupações em Brasilia, no final da terça-feira o presidente não se aguentou e foi ao Twitter para garantir aos seus apoiadores:

"Não posso assistir calado enquanto direitos são violados e ideias são perseguidas".

Foi a sua resposta à nova operação autorizada pelo STF contra seus aliados, que está chegando cada vez mais perto do Planalto. Desta vez, por ordem da PGR do seu aliado Augusto Aras.

Hoje, logo cedo, Bolsonaro rompeu o silêncio no "cercadinho" do Alvorada ao responder a uma devota que reclamou dos outros Poderes porque não deixam o presidente governar.

E acabou revelando um fato que muitos não conheciam: a sua participação na luta armada.

"Em 1970, eu já estava na luta armada e conheço tudo o que está acontecendo no Brasil (...) Mas tem gente que nasceu 40 anos depois do que eu vivi e quer dizer como devo governar o Brasil. Eu estou fazendo exatamente o que tem que ser feito".

Pelas minhas contas, como nasceu em 1955, nessa época Bolsonaro tinha apenas 15 anos.

É bom não contrariar. Bolsonaro anda muito nervoso e injuriado. Acuado pela Justiça, o capitão já não sabe se avança ou recua na sua guerra particular contra os tribunais superiores, os inimigos do momento.

A imprensa, outra inimiga permanente, não teve acesso ao encontro do presidente com seus apoiadores, no jardim do Alvorada, que gravaram e divulgaram a conversa.

Em resposta a uma militante bolsonarista que disse ser "ativista conservadora", Bolsonaro mostrou, mais uma vez, que sua paciência acabou, sem citar o nome do STF nem de ministros.

"Eu não vou ser o primeiro a chutar o pau da barraca. Eles estão abusando. Isso está a olhos vistos. O ocorrido no dia de ontem, quebrando sigilo de parlamentares, não tem história nenhuma visto numa democracia por mais frágil que ela seja. Então, está chegando a hora de tudo ser colocado no devido lugar".

O que ele quer dizer com isso? Qual é o "devido lugar"? As falas de Bolsonaro são assim mesmo, atravancadas, dando margem a muitas interpretações. Vamos lembrar que quebra de sigilo de parlamentares não é novidade na política brasileira.

O fato é que ele não se conforma de ser apenas o presidente da República, com poderes limitados pela Constituição, um cargo que hesita em ocupar, para assumir o comando do combate à pandemia de coronavírus, que já matou mais de 45 mil brasileiros.

Este é um assunto do qual ele nem gosta de tocar. É como se o Brasil não tivesse outros problemas, além de encontrar um lugar para abrigar Abraham Weintraub, de preferência fora do Brasil, a sua principal preocupação no momento.

Quando o general Ramos, em entrevista à Veja, falou em esticar a corda, referindo-se ao "outro lado", não imaginou que Bolsonaro levaria a ameaça ao pé da letra.

E se a corda arrebentar, o que Bolsonaro e seus generais de pijama vão fazer? Por enquanto, só estão dando tiros no pé.

Ao ameaçar o cartunista Aroeira com a Lei de Segurança Nacional, por ter publicado um desenho com referências ao nazismo, o presidente conseguiu chamar a atenção do mundo inteiro para a insanidade que vigora no Brasil, um hospício a céu aberto, em que já não se sabe quem é médico e quem é paciente.

O desenho foi reproduzido por toda a imprensa independente, aqui dentro e lá fora, com as versões de centenas de outros cartunistas. Deu até no New York Times.

Os atuais governantes do Brasil parecem não ter noção de que o país e o mundo mudaram muito desde 1970, quando vigorava por aqui férrea censura prévia, e ditaduras estavam na moda no nosso continente.

Eles ainda estão nos tempos da Guerra Fria, procurando comunistas debaixo da cama e vendo em cada aliado um possível traidor.

Mais do que uma crise entre Poderes, estamos diante de um cenário demencial, que justifica uma urgente intervenção psiquiátrica, não militar.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho