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Aras deu um palanque a Moro e não vai acontecer nada

Augusto Aras em seu gabinete - Dida Sampaio/Estadão
Augusto Aras em seu gabinete Imagem: Dida Sampaio/Estadão
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

29/07/2020 14h45

Esse barulho todo em torno dos arquivos secretos da República da Lava Jato tem os ingredientes necessários para acabar numa grande pizza.

Quem deve ter ficado feliz com as denúncias do procurador-geral Augusto Aras contra os "segredos" dos justiceiros de Curitiba foi certamente o ex-ministro Sergio Moro, que estava em busca de uma boa onda para voltar a surfar na mídia, agora que virou político, já em campanha para 2022.

Nos últimos dias, Moro estava até mandando mensagens de condolências para famílias de vítimas da covid-19 que ele nem conhecia para alimentar suas redes sociais.

Moro foi rápido no gatilho ao responder a Aras no Twitter:

"Desconheço segredos ilícitos no âmbito da Lava Jato. Ao contrário, a Operação sempre foi transparente e teve suas decisões confirmadas pelos tribunais de segunda instância e também pelas Cortes superiores, como STJ e STF".

É verdade. Até as eleições de 2018, em que Bolsonaro virou presidente, e Moro seu ministro, todas as decisões da Lava Jato de Curitiba eram prontamente confirmadas pelos tribunais superiores, sem maiores discussões.

Acontece que agora o STF está dividido ao meio entre os grupos "lavajatistas" e "garantistas", e nada garante que o plenário referende a decisão monocrática do presidente Dias Toffoli, que mandou enviar a Brasília todo o material da forças-tarefas da Lava Jato de Curitiba, São Paulo e Rio.

Em setembro, quem assume a presidência do STF é o ministro Luís Fux, um lavajatista juramentado, enquanto Toffoli está alinhado com os garantistas.

Aras descobriu que a Lava Jato de Moro em Curitiba tinha informações, não compartilhadas com o Ministério Público Federal, de mais de 38 mil pessoas, um arquivo com 50 mil documentos e 350 terabytes, nove vezes mais do que o sistema todo do MPF em Brasília.

E daí?, como perguntaria Bolsonaro, a quem Aras quer agradar, atacando Moro, depois que o presidente e o ex-ministro viraram inimigos?

Até pelo tamanho da encrenca, vai levar alguns séculos até o MPF destrinchar todo esse material e chegar a alguma decisão.

Como a Lava Jato ainda é muito popular, tudo indica que, quanto mais durar esse imbroglio, melhor será para a campanha de Moro, que agora ganhou um palanque.

Na sua campanha particular para conquistar a vaga do ministro Celso de Mello, que se aposenta em novembro, Aras vai precisar convencer apenas um eleitor: o presidente Bolsonaro, que o nomeou para a PGR.

Já Moro precisa transformar em milhões de votos, algo que nunca fez na vida, o prestígio popular que ganhou ao condenar e prender Lula, surfando na onda do antipetismo.

Antes disso, porém, o ex-juiz terá que enfrentar no STF a ação movida contra ele pela defesa de Lula por supostamente ter atuado com parcialidade no julgamento do ex-presidente no caso do triplex do Guarujá.

O relator da ação, ministro Gilmar Mendes, já avisou que só colocará esse processo em pauta quando puder reunir presencialmente a 2ª Turma do Supremo.

O espólio da Lava Jato, agora disputado por Aras e Moro, ainda ocupará o noticiário por um bom tempo, e poderá ser decisivo na definição do cenário para 2022.

Até descobrirem o que tem nos 350 terabytes da República da Lava Jato vai levar um bom tempo.

Façam suas apostas. Eu aposto na pizza.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho