PUBLICIDADE
Topo

Quem quer derrubar Bolsonaro? Serão os índios? Pergunte ao general Heleno

O general Heleno segue em busca dos inimigos do Brasil - ADRIANO MACHADO
O general Heleno segue em busca dos inimigos do Brasil Imagem: ADRIANO MACHADO
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

21/09/2020 16h56

Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o GSI, que herdou o SNI, e principal conselheiro do presidente, o general Augusto Heleno surpreendeu hoje o país ao revelar no Supremo Tribunal Federal um mirabolante plano para derrubar o governo de Jair Bolsonaro, que envolveria "nações, entidades e personalidades estrangeiras".

Como tudo por enquanto é secreto, ele não disse quem seriam esses inimigos malvados.

O motivo da misteriosa conspiração internacional é o progressivo desflorestamento da Amazônia, que este ano bateu recordes de desmatamento e queimadas diante da inanição do governo federal, que Heleno simplesmente não admite.

A exemplo de seu chefe, o general acusa sem provas e nega a tragédia, colocando a culpa em terceiros não nominados que querem "prejudicar o Brasil".

Heleno só não negou a falta de recursos de toda ordem, financeiros, de pessoal e de infraestrutura, para combater os invasores das áreas indígenas e das reservas florestais.

Na mesma hora em que o general falava no STF sobre os inimigos externos, o repórter André Borges, do Estadão, informava que o Ministério da Defesa decidiu levar adiante um projeto de sistemas de satélite com valor estimado pelos militares em R$ 577,9 milhões, com previsão de entrega para 2026 —quatro anos além do mandato presidencial.

Haverá floresta para o satélite militar monitorar?

A maior parte dos recursos virá do dinheiro captado pela Lava Jato de indenizações pagas pela Petrobras, no valor de R$ 530 milhões, que por decisão do STF deveriam ser destinados unicamente para a proteção da Amazônia.

No atual ritmo de devastação, no entanto, se nada for feito agora, em 2026 os novos sistemas de satélite poderão ficar inúteis, pois não haverá mais floresta para ser fiscalizada e protegida.

Além disso, o país já conta com um eficiente sistema de monitoramento via satélites operado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Ministério da Ciência e Tecnologia, respeitado em todo o mundo, menos pelo governo brasileiro, que o acusa de divulgar falsos dados negativos.

Para se ter uma ideia da megalomania militar, o projeto do novo satélite custará cinco vezes a verba de R$ 118 milhões destinada este ano para o Inpe.

Das mãos de cientistas para a de militares

Pois o que está em jogo é exatamente isso: transferir o controle dos técnicos e cientistas civis do Inpe para os militares do Ministério da Defesa.

Tudo faz parte do processo de militarização do governo, cada vez mais evidente, com a ocupação de cargos chave da administração.

Empolgado com as próprias palavras, general Heleno carregou no discurso sobre os perigos que o Brasil está correndo:

"Não podemos admitir e incentivar que nações, entidades e personalidades estrangeiras, sem passado que lhes dê autoridade moral para nos criticar, tenham sucesso em seu objetivo principal, obviamente oculto mas evidente, que é prejudicar o Brasil e derrubar o governo Bolsonaro".

Há tempos não ouvia ninguém falar nisso. Desta vez, pelo menos, não acusaram o "movimento comunista internacional" como faziam os antecessores do general Heleno nos tempos do SNI.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.