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Eleições 2020: Bolsonaro abençoa Russomanno, o seu Crivella em São Paulo

Presidente Jair Bolsonaro em recuperação no hospital Albert Eintein - Reprodução/Instagram
Presidente Jair Bolsonaro em recuperação no hospital Albert Eintein Imagem: Reprodução/Instagram
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

26/09/2020 15h24

Celso Russomanno não é pastor nem parente de Edir Macedo, o dono da Igreja Universal e da Record, mas a sua candidatura a prefeito de São Paulo já foi abençoada por Jair Bolsonaro, assim como Marcelo Crivella no Rio de Janeiro.

O batismo oficial foi feito na manhã deste sábado no quarto do hospital Albert Einstein, onde o presidente se recuperava de mais uma cirurgia, pouco antes de receber alta e voltar para Brasília.

Bolsonaro tinha prometido não se envolver na eleição municipal, mas agora já tem candidatos nas duas maiores cidades do país.

Assim como os filhos dele, Russomanno e Crivella são do Republicanos do bispo Macedo, o partido que os abrigou depois do fracasso da criação do partido da família presidencial.

Esta aliança vem de longe, como diria Leonel Brizola.

Celso Russomanno e Jair Bolsonaro eram deputados do baixo clero quando os dois pertenciam ao mesmo partido de Paulo Maluf, nos áureos tempos do ex-governador biônico de São Paulo.

É a terceira vez que Russomanno disputa a eleição para prefeito da maior cidade do país. Nas outras duas, ele largou na frente e não foi nem para o segundo turno. Ganhou fama de "cavalo paraguaio".

O nicho de mercado dele é a defesa do consumidor, tema do seu programa na TV do bispo, que lhe rendeu popularidade para se eleger para vários mandatos de deputado federal.

Já na largada, o anúncio do apoio de Bolsonaro coincide com uma denúncia do Estadão sobre trambiques da filha e do genro do candidato, com prejuízos para o consumidor.

Os dois respondem a pelo menos 18 processos na Justiça por uma prática conhecida como "esquema da pirâmide", um tipo de golpe em que pessoas investem dinheiro numa empresa em troca de lucros, que não se realizam, como relata o repórter Bruno Ribeiro.

As vítimas cobram um prejuízo de R$ 4,5 milhões. Como costumam fazer os Bolsonaros, o candidato do Republicanos respondeu à denúncia com um vídeo no qual diz ser vítima de "ataque pessoal" e argumenta que o genro "tem problemas financeiros, assim como milhares de outros brasileiros"

"O dono é genro do Celso Russomanno, sabe? Ele não vai querer um escândalo desses pra cima dele e manchar o nome da família", disse uma das vítimas das ações que correm na Justiça.

Até nos problemas com negócios da família, apoiador e apoiado se assemelham, mas na forma de falar são muito diferentes.

Russomanno fala manso, como um pastor, lembra mais Marcelo Crivella, ao explicar seus rolos na prefeitura do Rio, que neste momento o tornam inelegível.

Líder disparado nas pesquisas em São Paulo, como das outras vezes, antes da campanha oficial começar, Russomanno comemorou o apoio de Bolsonaro nas redes sociais, publicando uma foto dos dois sorrindo no hospital.

"Torço pela sua rápida recuperação para podermos seguir propondo bons projetos para o nosso Brasil", escreveu o candidato.

Bolsonaro estava com uma camiseta com as cores do meu time, o São Paulo, mas era do Ferroviário Atlético Clube, do Ceará, que disputa a terceira divisão do Brasileirão.

Até levei um susto quando vi, mas tudo faz sentido nessa aliança evangélico-militar que levou Bolsonaro ao Planalto. Não importa de que time é a camisa.

A entrada tardia de Russomanno na campanha, agora com o apoio ostensivo de Bolsonaro, muda o cenário eleitoral em São Paulo, que nas últimas décadas ficou restrito a uma disputa entre PT e PSDB.

Agora, poderemos ter uma decisão no segundo turno entre o candidato da extrema-direita de Bolsonaro e a direita do governador João Doria e do prefeito Bruno Covas, candidato à reeleição, que aparece em segundo lugar mas pesquisas.

Correndo por fora, surge Guilherme Boulos, do PSOL, em dobradinha com Luiza Erundina, a ex-prefeita do PT, como o candidato mais competitivo da esquerda.

Na última eleição para prefeito, a grande zebra era João Doria, do PSDB, que acabou vencendo o prefeito Fernando Haddad, do PT, no primeiro turno, depois largou a prefeitura em meio ao mandato, elegeu-se governador e agora quer ser candidato a presidente contra Bolsonaro, com quem se aliou em 2018. .

São Paulo é uma cidade imprevisível. Tudo pode acontecer, como diriam os comentaristas do óbvio.

Nada disso poderia ser previsto quatro anos atrás.

A única certeza, nesse momento, é que o PT, com Jilmar Tatto (quem?), pela primeira vez após a redemocratização, não irá para o segundo turno.

Vida que segue.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.