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Balaio do Kotscho

Brasil vira grande Sucupira: generais são humilhados, mas não largam o osso

O Bem Amado, uma das obras mais populares de Dias Gomes: Sucupira de Odorico Paraguassu se torna real em 2020 - Reprodução / Internet
O Bem Amado, uma das obras mais populares de Dias Gomes: Sucupira de Odorico Paraguassu se torna real em 2020 Imagem: Reprodução / Internet
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

25/10/2020 14h15

A grande disputa dentro do governo, desde o primeiro momento, é por cargos e salários, as populares "boquinhas" no serviço público.

Nada tem de ideológica ou de diferentes visões de país e projetos para tirar o Brasil do buraco cada vez mais fundo.

A baixaria protagonizada esta semana em Brasília, em que dois generais foram humilhados publicamente pelo presidente Bolsonaro e por seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi apenas mais um capítulo desta novela, que lembra "O Bem Amado", de Dias Gomes.

Até o momento em que escrevo, o general Pazuello, ministro da Saúde, e o general Ramos, secretário e articulador político do governo, não largaram o osso.

Ramos até apareceu todo faceiro num passeio de moto, na manhã deste domingo, em Brasília, ao lado de Bolsonaro, garantindo que "não tem briga nenhuma".

Para tranquilizar o país, o general reformado disse que "a relação com o presidente está excepcional como sempre".

Ricardo Salles, que chamou o general de "Maria Fofoca", por querer derrubá-lo do cargo, não foi convidado para o passeio.

Como de costume, Bolsonaro deu uma de tucano e ficou em cima do muro no entrevero entre seus dois ministros.

Quem me chamou a atenção para o que está realmente em jogo foi o premiado repórter gaúcho Carlos Wagner, em seu site "Histórias mal contadas", em que analisa o lado oculto das notícias de jornal.

Com o título "Ala ideológica usa tática das milícias na luta por cargo no governo", Wagner foi direto ao ponto:

"O grupo que nós jornalistas chamamos de ala ideológica não está empurrando os militares para fora do governo por questões ideológicas. É pelos cargos que eles ocupam e que pagam os melhores salários".

Esses cargos bem remunerados ocupados por militares da ativa e da reserva, com altos salários que se somam aos soldos pagos pelas Forças Armadas, já chegam a exatamente 6.157, em todos os escalões da administração federal, como relata a repórter Tânia Monteiro, no Estadão.

Diante dessa ocupação fardada em cargos civis, que não se viu nem na ditadura militar, a cúpula das Forças Armadas se manteve em obsequioso silêncio, até mesmo quando o capitão presidente dá um "cala boca" público num general da ativa que dá plantão no Ministério da Saúde.

"Quem manda aqui sou eu, não vou abrir mão da minha autoridade", proclamou o capitão, antes de visitar o general Pazuello, no hotel onde ele se recupera do tratamento de coronavírus.

A constrangedora cena dos dois oficiais da reserva, sem máscara, foi coroada pela declaração do general.

"É simples assim: um manda e outro obedece".

Para demonstrar quem manda mais, Ricardo Salles (um dos líderes da "ala ideológica", ao lado de Damares, do chanceler Araújo, do pastor Ribeiro e dos filhos do presidente, supervisionados pelo guru Olavo de Carvalho) publicou nas redes sociais:

"@MinLuiz Ramos não estiquei a corda com ninguém. Tenho enorme respeito e apreço pela instituição militar. Atuo de forma que entendo correto. Chega dessa postura de #maria fofoca".

General Ramos engoliu em seco e foi passear de moto com o presidente.

Esfregando as mãos, a tropa do Centrão assistiu de camarote à humilhação dos generais, também de olho nos cargos que eles ocupam.

Todos eles se merecem.

Nem Dias Gomes, o criador de "Odorico Paraguassu", personagem central da novela "O Bem Amado", seria capaz de criar um enredo tão surrealista.

O Brasil virou uma grande Sucupira, a cidade fictícia da novela da Globo, aquela emissora "comunista", combatida pelos patriotas da nova ordem.

Se for exibida de novo, as pessoas vão achar que estão vendo o Jornal Nacional.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.