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Balaio do Kotscho

Violência? Vandalismo? Os negros perderam a paciência, diz Douglas Belchior

Douglas Belchior, fundador da Uneafro, em comemoração aos dez anos da iniciativa que oferece cursinho pré-vestibular a alunos de escolas públicas - Arquivo pessoal
Douglas Belchior, fundador da Uneafro, em comemoração aos dez anos da iniciativa que oferece cursinho pré-vestibular a alunos de escolas públicas Imagem: Arquivo pessoal
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

21/11/2020 18h00

O que é vandalismo num país que mata um jovem negro a cada 23 minutos? Por que há mais comoção com vidraças e prateleiras quebradas do que com os negros assassinados todos os dias?

Albert Camus, filósofo franco-argelino, dizia que "a violência não é patrimônio dos exploradores. Os explorados também podem empregá-la".

E eu concordo com ele. Passou da hora de a população negra perder a paciência!

(Professor Douglas Belchior, militante da Uneafro Brasil)

***

A manifestação na avenida Paulista já estava marcada por várias entidades para celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra, como acontece todos os anos.

O brutal assassinato, na véspera, do negro João Alberto Freitas, por seguranças do Carrefour, em Porto Alegre, transformou a caminhada num protesto pacífico, com faixas e cartazes, e o policiamento acompanhando à distância, apenas para interditar ruas no trajeto.

Estava acompanhando tudo pela televisão na tarde se sexta-feira, quando o âncora Márcio Gomes, da CNN, interrompeu uma repórter que falava de Porto Alegre, para mostrar ao vivo o início de uma confusão na rua Pamplona, em frente a uma loja do Carrefour.

Enquanto o carro de som com as lideranças do ato seguia em frente, surgiu do nada um grupo armado de paus e pedras para jogar nas vidraças do prédio e forçar a entrada no supermercado, que estava fechado. Ninguém impediu a invasão.

De repente, o policiamento sumiu.

No meio da confusão, fica difícil saber quem é quem, mas durante horas nenhuma autoridade de segurança de São Paulo apareceu para explicar o que estava acontecendo e justificar a ausência de policiamento na hora do quebra-quebra.

Claro que em todo movimento de massa há os mais revoltados, como aconteceu também nos Estados Unidos, durante os meses de protestos contra a morte de George Floyd, gerando confrontos com a polícia, um tema que Donald Trump tentou explorar na campanha.

Aqui estamos a uma semana do segundo turno da eleição municipal. Como velho repórter, eu me perguntei: a quem interessa, a essa altura, atribuir a violência a movimentos populares que lutam por seus direitos?

Para responder a essa dúvida, melhor é ouvir o professor Douglas Belchior, militante da Uniafro Brasil, que estava no protesto de sexta-feira:

"Nesse caso específico, eventualmente pode acontecer de haver infiltrações em quaisquer ações de qualquer movimento, mas isso é muito mais difícil de acontecer com ações movimento negro. Primeiro, porque dificilmente são massivas. Segundo, por não ser massiva, as pessoas mais ou menos se conhecem, Eu estava ontem, eu ajudei a organizar o ato, eu estava na linha de frente, eu entrei no supermercado para tirar as pessoas, e não teve nenhum infiltrado, aquilo foi a reação do movimento negro à violência que os negros têm sofrido dessa rede de supermercados há anos".

E explicou:

"Essa reação de ontem em São Paulo foi uma ação de reação legítima do movimento, que acabou resultando no que a gente viu ali. Não foram vândalos, foram manifestantes. Foi uma reação de manifestantes do movimento negro revoltados com a situação. Eu rechaço a hipótese de infiltração e também de que foram vândalos promovendo aquilo, porque não foram, foram militantes que atuam no movimento negro, jovens negros que estão cansados de ser mortos pela polícia, e que de alguma maneira precisavam dar uma resposta à altura".

Agradeço ao Douglas Belchior por me tirar essa dúvida, porque ele estava lá, e à minha filha Mariana Kotscho,por ter me mandado este depoimento.

A vida real não costuma ser a mesma que a gente vê ou imagina pela televisão.

Eu comecei pensando uma coisa, e descobri que é outra. Os negros perderam a paciência com o racismo atávico da sociedade brasileira. Isso não tem volta.

Vida que segue.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.