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Balaio do Kotscho

Linchamento no Carrefour não foi acidente de percurso: este é o novo normal

Mulher foi agredida por PM em MS dentro do quartel; em Porto Alegre, um cliente acaba morto no Carrefour, espancado e estrangulado. Mais um fim de semana no Brasil - Reprodução/OAB-MS
Mulher foi agredida por PM em MS dentro do quartel; em Porto Alegre, um cliente acaba morto no Carrefour, espancado e estrangulado. Mais um fim de semana no Brasil Imagem: Reprodução/OAB-MS
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

23/11/2020 15h35Atualizada em 23/11/2020 16h54

No Mato Grosso do Sul, André Luiz Leonel Andrea, comandante do 3º Pelotão em Bodoquena, foi flagrado por câmeras de segurança dando chutes e socos numa mulher algemada dentro do quartel. Quatro civis e um PM assistiram à cena sem fazer nada.

No Ceará, no dia da Consciência Negra, a Polícia Militar avançou com gás de pimenta e balas de borracha sobre um grupo de mulheres e militantes do movimento negro que protestavam em frente à Secretaria de Administração Penitenciária contra a violência nos presídios.

Casos como esses se repetem todos os dias em todas as regiões do país. Este é o novo normal em meio à anormalidade em que o país vive há dois anos. O nome desse filme poderia ser "Licença para Matar".

O linchamento de João Alberto Freitas, um trabalhador negro assassinado a socos e ponta pés por um segurança e um PM, no estacionamento do supermercado Carrefour, em Porto Alegre, na semana passada, não foi um acidente de percurso, e só causou uma comoção nacional porque tudo foi filmado.

Bolsonaro um dia vai passar, mas há milhares de bolsonaros soltos por aí, fardados ou não, para quem a vida dos outros não vale nada. Eles vão ficar.

No momento em que o país vive um novo surto da pandemia, que já matou mais de 170 mil brasileiros, o presidente que lidera a campanha antivacina briga com governadores e não se responsabiliza por nada. Tudo é culpa dos outros.

Testes de covid-19 encalhados

No cercadinho montado no Palácio da Alvorada para cultuar os devotos do Mito, nesta segunda-feira ele deu mais uma demonstração de irresponsabilidade ao culpar governadores pelos 6,86 milhões de testes para o diagnóstico de coronavírus que estão encalhados no Ministério da Saúde, prestes a perder o prazo de validade, como denunciou o Estadão.

Aos que reclamaram da alta dos alimentos, ele também disse que não tem nada com isso, a culpa é dos governadores.

"Tem subido, sim, para além do normal, a gente lamenta isso aí. Também é uma consequência do `fica em casa´. Quase quebraram a economia".

No fundo, Bolsonaro, não deixa de ter razão: como ele não governa, não tem nada a ver com tudo "isso aí".

A ele e ao general Mourão, o seu alter ego e intérprete, só resta mesmo lamentar tudo o que acontece. Afinal, eles não mandam nada.

Não há racismo, nem corrupção, nem pandemia

Por que aqui não tem racismo, não tem florestas queimando, não tem violência policial, não tem corrupção, não tem pandemia, não tem fome, a inflação está sob controle e, se bobear, também não vai ter Natal este ano.

Estão reclamando de quê? Esperavam algo diferente deste capitão que foi defenestrado do Exército por planejar atos terroristas e depois passou 30 anos escondido no fundão do baixo clero do Centrão, ameaçando colegas no plenário e defendendo aumento dos soldos, até que resolveu ser presidente da República, com o apoio do mercado, dos militares e das polícias?

Além de tudo, Bolsonaro é um tremendo pé-frio. Poucas horas depois de desfilar em carro aberto em Macapá, para anunciar a volta da energia, após três semanas de apagão, a rede elétrica começou a explodir e a cidade voltou para o escuro. Xingado ao longo do percurso, também fez de conta que não era com ele e continuou acenando como um herói de guerra.

Quem ele apoiou nas eleições aqui, perdeu, e o amigo Trump não foi reeleito, assim como o amigo Macri na Argentina e os golpistas na Bolívia, que perderam para o candidato de Evo Morales.

Lembrando Jânio Quadros

Governando sem oposição, só para os seguidores fanáticos das suas redes sociais, Bolsonaro está preparando a própria cova, sem dinheiro para comprar a reeleição e vendo inimigos imaginários por toda parte, dentro e fora do Palácio do Planalto.

Cada vez mais amigos antipetistas, empresários e agentes do mercado, já estão achando que, pelo andar da carruagem desgovernada, ele não vai terminar o mandato, pelo conjunto da obra de demolição do país.

Mas a culpa não é dele, claro. Como Jânio Quadros, o breve, que também não era lá muito normal, vai alegar que "forças ocultas" não o deixaram governar, embora hoje controle os Três Poderes, com mãos de ferro, convocando parlamentares, magistrados e delegados ao seu gabinete para livrar a cara dos filhos cada vez mais enrolados na Justiça.

Daqui a pouco ninguém vai se lembrar de João Alberto, da mulher espancada no quartel da PM, dos parentes de presos atacados pela PM no Ceará e de tantas outras barbaridades que já fazem parte do nosso cotidiano, e não chegam às manchetes. .

É triste constatar isso, mas é a realidade.

O Brasil não pode virar um país de bolsonaros.

Uma hora a corda esticada demais arrebenta.

Nós não somos um país de maricas. Ou somos?

Tenho minhas dúvidas. Nas redes sociais, só falta dizer que João Alberto Freitas era comunista e se suicidou para colocar a culpa no governo.

Aqui, com Bolsonaro, as vidas não importam.

Vida que segue.

Errata: o texto foi atualizado
A coluna errou ao informar que a mulher agredida no MS por um policial está grávida. A frase foi corrigida. Outro erro na versão inicial do texto foi afirmar que há 6,85 milhões de testes de covid-19 encalhados, quando são 6,86 milhões. O trecho foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.