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Balaio do Kotscho

Pazuello envergonha militares, mas ele é só o bode expiatório de Bolsonaro

  Eduardo Pazuello e Jair Bolsonaro recebem Zé Gotinha no lançamento do plano nacional de imunização: um manda e o outro obedece               -                                 WALLACE MARTINS/FUTURA PRESS
Eduardo Pazuello e Jair Bolsonaro recebem Zé Gotinha no lançamento do plano nacional de imunização: um manda e o outro obedece Imagem: WALLACE MARTINS/FUTURA PRESS
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

25/01/2021 17h17

O ex-capitão Jair Bolsonaro, aposentado pelo Exército aos 33 anos, gosta de se apresentar como militar, quando lhe interessa, mas os militares não estão gostando nada disso.

O fracasso da dupla Bolsonaro & Pazuello, um general da ativa, especialista em logística, no combate à pandemia da covid-19 está indo para a conta das Forças Armadas, que se mantém em obsequioso silêncio, mas a insatisfação da tropa está crescendo silenciosamente com as últimas lambanças, deixando envergonhados os militares profissionais, estudiosos, competentes e dedicados, que eu conheci em Brasília quando trabalhei no governo.

Para se defender, os fardados dizem que há muito tempo Bolsonaro deixou de ser militar para virar político, o que é verdade, e procuram manter distância dele.

Mas quando o calo aperta, o ex-tenente, promovido a capitão ao ser reformado, depois de enfrentar um processo no Superior Tribunal Militar por planejar ações terroristas, corre para os quarteis e ameaça:

"Quem decide se vamos viver numa democracia ou numa ditadura são as Forças Armadas".

Pegou mal, e dias depois Bolsonaro mudou o discurso dizendo que os militares só querem defender a democracia e a liberdade.

A dor de cabeça dos militares

No início da campanha de 2018, Bolsonaro nem era o candidato da cúpula das Forças Armadas, mas no segundo turno teve o apoio decisivo do general Eduardo Villas-Boas, que tinha sido o comandante do Exército no governo de Dilma Rousseff.

Prestes a eleger os presidentes da Câmara e do Senado, em troca de alguns agrados, para se blindar do impeachment, o presidente está enfrentando agora uma insatisfação de onde menos esperava: o meio militar.

"O silêncio é a palavra eterna", explicou-me um general da reserva, diante da mudez repentina dos generais aquartelados no Palácio do Planalto e dos militares espalhados por mais de 7 mil cargos civis do governo federal, a começar pelo Ministério da Saúde do general Pazuello.

Mourão, o tradutor de Bolsonaro, tenta explicar

Em off, o general ouvido pela coluna traduziu assim o sentimento dos seus camaradas nesse momento:

"O Pazuello nunca deveria ter entrado nisso e não pode conectar a sua conduta com a instituição Exército Brasileiro. Deveria ter ido para a reserva. Há uma decepção muito grande com o Jair Bolsonaro. Sua impulsividade desastrosa não tem limites. Não se tem noção de onde vai chegar... E não escuta ninguém. O grande fiel da balança é o VP [o vice-presidente, general Hamilton Mourão, que voltou a falar pelos cotovelos]."

Mourão virou o ombudsman do governo, tentando explicar o que Bolsonaro queria dizer, mas também não ajuda muito a clarear o horizonte. É um enigma.

"Ruído"

Aos repórteres que o entrevistam todos os dias na entrada do anexo da Vice-Presidência, hoje ele atribuiu a queda na popularidade do presidente Bolsonaro a "bastante ruído" provocado pelos problemas da vacinação e à crise da falta de oxigênio nos hospitais de Manaus.

"É óbvio, tem as eleições das duas Casas do Legislativo que influem. Então, semana que vem, acho que baixam um pouco as tensões", arriscou prever, mas uma coisa nada tem a ver com a outra.

O estorvo é o general Pazuello, que neste final de semana foi despachado para Manaus pelo Palácio do Planalto, sem dia para voltar, até resolver o "ruído" da tragédia amazônica, onde na semana passada ofereceu cloroquina para combater a falta de oxigênio nos hospitais, em que pacientes morreram asfixiados.

Em seu raciocínio tortuoso, que transcrevo na íntegra, Mourão tentou explicar:

"Está havendo um momento aí, vamos dizer assim, de bastante ruído em dois aspectos. Um aspecto é a questão da vacina, da vacinação, que no momento que for esclarecido que o governo está fazendo o possível e o impossível para ter um fluxo contínuo. E também a questão de Manaus, no momento que isso for esclarecido, acho que diminui esse ruído."

Esclarecido como? Não se trata de "ruído", perdoe-me o general, mas de reação à incúria, irresponsabilidade e pouco caso de um governo que insiste em pregar contra o distanciamento social e faz todo dia campanha contra a vacinação, como aconteceu ainda hoje, que é o que está matando gente em Manaus, no interior do Amazonas e do Pará, em Porto Velho e por todos os cantos do país.

Contagem regressiva para Pazuello não basta

A militarização do Ministério da Saúde provocou um estrago tremendo, ao substituir técnicos e funcionários de carreira por fardados, sem nenhuma competência para lidar com a mais grave crise sanitária do país no último século.

É como colocar jornalista para pilotar um caça Mirage da FAB, não tem como dar certo.

Mais dia, menos dia, vão ejetar o general Pazuello, o bode na sala de Bolsonaro, como já fizeram com outros ministros, para preservar o chefe.

Mas o problema continuará lá, do mesmo tamanho, se esta marcha suicida de um presidente sem noção, que cultiva o conflito e a morte, não for interrompida em algum momento, não sei quando, nem como, mas tem que ser o mais breve possível.

Enquanto isso não acontece, brasileiros continuarão morrendo por falta de oxigênio ou de vacinas, sem saber quando chegará a sua vez.

Não adianta só tirar o bode expiatório da sala.

Vida que segue.

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