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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para que servem? É hora de repensar papel dos militares na vida brasileira

Bolsonaro toma sopa junto com o novo ministro da Defesa, general Braga Netto: militares agora ajudarão na vacinação -
Bolsonaro toma sopa junto com o novo ministro da Defesa, general Braga Netto: militares agora ajudarão na vacinação
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

03/04/2021 15h30

Vamos falar sério. Ao final de uma semana em que os militares voltaram às manchetes, com a quizumba perpetrada por Bolsonaro na troca dos comandantes, penso que está na hora de rediscutirmos o papel e a utilidade das Forças Armadas na vida brasileira, onipresentes desde a Proclamação da República, em 1889.

O que me levou a escrever sobre esse tema, que ainda é um tabu na imprensa, 57 anos após o Golpe de 1964, foi a coluna de Cristina Serra na Folha deste sábado: "Militares e o crime de lesa-pátria - História nos cobrará uma comissão nacional da verdade para este genocídio".

Não deixem de ler este texto antológico sobre a responsabilidade das Forças Armadas na grande tragédia sanitária, econômica e social que assola o país.

É impossível a esta altura dissociar o capitão dos generais, que lhe abriram caminho para chegar à Presidência da República, ao interferirem decisivamente nas eleições de 2018, e aderirem alegremente ao seu governo genocida.

O melhor retrato desta simbiose foi divulgado pelo próprio presidente neste sábado, tomando um prato de sopa junto com o novo ministro da Defesa, general Braga Netto, só os dois à mesa, numa instituição que atende pessoas carentes em Brasília.

Na legenda, escreveu Bolsonaro: "Visitando o povo para ouvir suas necessidades".

De povo, ali só aparecem no vídeo três funcionárias e alguns seguranças no salão vazio.

Quem arrastou os militares para o opróbio foi o ex-ministro do Exército Eduardo Villas Boas, ao pegar carona na candidatura do capitão, sem nenhum programa de governo ou projeto para o país, depois de mover o bastão para tirar Lula da disputa.

O que pareceu um rompimento do governo com sua base fardada foi apenas um jogo de cena para trocar os quepes dos chefes militares por outros mais palatáveis ao gosto do capitão, sem mudar nada na concepção secular dos militares como tutores do poder civil, mesmo que agora seja momentaneamente ocupado por um ex-capitão.

Na véspera, outro retrato reuniu o atual comandante do Exército, general Paulo Sergio Nogueira, com o ex-comandante afastado por Bolsonaro, general Edson Pujol, sob o olhar atento do general Villas Boas, sempre ele, em sua cadeira de rodas.

A legenda poderia ser: "nada vai mudar, nós continuamos os mesmos e vocês vão ter que nos engolir".

Esse novo protagonismo das Forças Armadas, numa cena que se repete ciclicamente de tempos em tempos, fez muita gente se perguntar para que servem, afinal, os militares no mundo atual, além de cuidar dos quartéis e das datas comemorativas.

Sim, é verdade, batalhões de militares trabalham na construção de pontes e estradas, dão assistência a populações indígenas e ribeirinhas na Amazônia, prestam socorro a vítimas de desastres naturais, guardam nossas fronteiras por terra, ar e mar, e outras atividades que poderiam perfeitamente ser exercidas por civis dos vários órgãos de governo (Funasa, Funai, Denit, Ibama, Polícia Federal, etc). Bastaria que os aparelhassem melhor e com mais recursos.

Na contra-mão, mais de 7 mil militares estão agora aboletados no governo Bolsonaro em funções civis, segundo o TCU, recebendo salários em dobro para exercer funções para as quais não foram preparados, como aconteceu com o general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde.

Mas como não estamos em guerra contra potências estrangeiras, nem há sinal de perigo à vista, o fato é que os militares hoje estão sem se dedicar à sua função precípua e principal, que é a de defender o país contra ameaças externas.

Só quem fala em guerra é o presidente Bolsonaro, que hoje voltou novamente a tocar no assunto enquanto tomava sopa com o general:

"A guerra da minha parte não é política. É uma guerra que, realmente, tem a ver com o futuro de uma nação", seja lá o que isso quer dizer. Estará falando da guerra contra a pandemia, cujos riscos ele desdenhou, e fez o possível para não termos vacinas, nem medidas de proteção e isolamento social para impedir a disseminação do vírus?

Até onde minha vista alcança, a única guerra no momento é a do presidente contra os governadores, os prefeitos, a ciência, a imprensa, a cultura, ao "lockdown", que ele chama de "fecha tudo", e ao resto do mundo.

Depois do almoço com Braga Netto, Bolsonaro anunciou que as Forças Armadas vão agora ajudar na vacinação, como se o problema fosse a falta de vacinadores, e não de vacinas, que chegam a conta-gotas aos postos de saúde do SUS.

Ou será que ele pensa em matar o vírus a bala ou tiros de canhão, que é a especialidade dos militares?

A inutilidade das tropas em tempos de paz torna-se ainda mais saliente quando vemos o constante crescimento do empenho de recursos com as Forças Armadas, em detrimento de setores vitais para o país, como a educação e a saúde.

O que aconteceria se, em vez de aumentar, o governo reduzisse os contingentes militares, e as respectivas despesas no orçamento federal, com as aposentadorias especiais, acúmulo de soldos e benefícios, e todo tipo de mordomias e privilégios? Que prejuízos o país teria?

Não é verdade que os governos do PT tenham politizado as Forças Armadas e reduzido os recursos a elas destinados.

Muito ao contrário, quem está politizando as Forças Armadas é o atual presidente, ao falar em "meu Exército", e provocar a maior crise militar desde 1977, por ter sido contrariado em alguns arroubos autoritários para aumentar o seu poder, o que o levou à intempestiva demissão do general Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa. As relações de Lula com os ministros militares eram cordiais, fraternas até. Recursos não lhes faltavam.

O problema dos militares com o PT é outro: a Comissão Nacional da Verdade constituída para investigar os crimes de lesa-pátria praticados pelos golpistas na ditadura, que agora é chamada de "movimento para salvar a democracia".

Vida que segue.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL