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Balaio do Kotscho

Oposição amplia o palanque, mas Bolsonaro ainda leva mais povo para as ruas

Mulher carrega criança em ato contra o presidente Jair Bolsonaro, na avenida Paulista, em São Paulo - Herculano Barreto Filho/UOL
Mulher carrega criança em ato contra o presidente Jair Bolsonaro, na avenida Paulista, em São Paulo Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

02/10/2021 18h04

Depois de assistir às manifestações antidemocráticas de Jair Bolsonaro, no 7 de setembro; da turma do nem-nem do MBL, no dia 12; e neste sábado, da oposição ampliada, com a participação de 20 partidos, todas as centrais sindicais, religiões e centenas de movimentos populares, não dá para ter dúvidas sobre quem levou mais povo às ruas.

Mesmo com a popularidade em queda livre, rejeitado por 53% da população e com a intenção de votos caindo para a faixa de 20%, em 2022, o capitão presidente mostrou que ainda tem maior capacidade de mobilização do que as oposições reunidas em mais de 100 cidades no país e no exterior.

É verdade que, para isso, Bolsonaro mobilizou todo o governo, a um custo ainda desconhecido, com forte apoio financeiro do mercado e do agronegócio mais atrasado, de forças de segurança estaduais e paramilitares, mas o fato incontestável é que não dá para comparar o tamanho das suas manifestações de 7 de Setembro em Brasília, Rio e São Paulo com as de hoje, nas mesmas capitais.

Os grandes espaços vazios deixados na avenida Paulista, na Cinelândia e na Esplanada dos Ministérios mostraram que as oposições, mesmo unidas, ainda têm um longo caminho a percorrer para enfrentar Bolsonaro nas ruas, faltando exatamente um ano para as eleições.

Neste 2 de outubro, as palavras de ordem da pauta política pedindo o impeachment de Bolsonaro perderam espaço nas faixas e nos cartazes para as reivindicações da vida real do povo, decorrentes da crise econômica que se agrava a cada dia, com a inflação galopante, a falta de emprego e de comida, o preço do gás e dos combustíveis.

Em lugar de bonecos do presidente, apareceram em todo lugar botijões de gás infláveis e faixas com a inscrição "Tá muito caro, a culpa é do Bolsonaro", contra a reforma administrativa e a privatização dos correios, e grupos de defesa dos direitos dos movimentos dos negros, de mulheres, do LGBT +, dos indígenas, de estudantes protestando contra os cortes na educação e das torcidas uniformizadas do futebol.

A grande diferença entre os comícios do presidente e os protestos da oposição é que, no palanque dele, só Bolsonaro fala, enquanto nos caminhões de som das oposições sobe tanta gente que o povo fica meio perdido para saber quem está falando.

Os seguidores de Bolsonaro ouvem-no em silêncio, obsequiosos, como se estivessem assistindo a uma missa; nos protestos da oposição, o clima lembra mais uma grande quermesse, com cantorias e batucadas, ninguém presta muita atenção no que está se falando.

É mais ou menos a mesma diferença que existe entre uma parada militar e um desfile de escola de samba, duas faces de um mesmo país.

Apareceram até bonecos de Paulo Freire e Patativa do Assaré, ícones da cultura nordestina, levados para a avenida Paulista pelo Grupo Oficina e, em volta dos carrinhos de comida, no Rio, um cartaz informava: "Aceita-se cartão".

Na Globo News, o cantochão monocórdico do comentarista Gerson "você tem ali" Camarotti atravessou o dia inteiro, sem que ele acrescentasse alguma informação nova, como se estivesse tocando um realejo. Havia um pouco mais de ritmo na transmissão da CNN, mas nas duas emissoras faltou repórter na rua para ouvir o povo, o grande ausente nos comentários. O que sua excelência, o cidadão, estará pensando de tudo isso?

Entre os presidenciáveis que contam, quem faturou mais com as oposições unidas foi o pedetista Ciro Gomes, que falou no Rio e, em seguida, voou para São Paulo, onde já tinha se apresentado também no nem-nem do dia 12.

E, mais uma vez, quem se ausentou foi o ex-presidente Lula, o líder nas pesquisas presidenciais, que não foi a nenhuma das cinco manifestações anteriores da campanha nacional do "Fora Bolsonaro".

A próxima manifestação das oposições já está marcada para o feriado de 15 de Novembro.

Vida que segue.

Em tempo: antes que me chamem de cego, informo que a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo estimou em 8 mil pessoas o público no ato da avenida Paulista. Na manifestação de Bolsonaro, de 7 de Setembro, a SSP calculou o público em 125 mil pessoas.

Em tempo 2: Raimundo Bonfim, da Central de Movimentos Populares, uma das organizadoras dos atos, informou que um total de 700 mil pessoas foram às ruas para protestar contra Bolsonaro em 304 cidades de todo o país e do exterior.