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Balaio do Kotscho

O que se espera de um novo governo Lula? A volta à normalidade democrática

Defesa da soberania foi o principal tema abordado por Lula em seu discurso de pré-candidatura para presidente. - Foto: Ricardo Stuckert
Defesa da soberania foi o principal tema abordado por Lula em seu discurso de pré-candidatura para presidente. Imagem: Foto: Ricardo Stuckert
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

08/05/2022 11h17

Depois de uma semana em que só se falou em golpe (ver coluna do ombudsman na Folha de hoje), fez bem à alma e me renovou as esperanças assistir à festa de lançamento da chapa Lula-Alckmin, no centro de convenções do Expo Center Norte, neste sábado.

Sim, foi uma festa política como há muito tempo não se via, com muita música, emoção, gente rindo e chorando, e belos reencontros, como o de Dilma e Erundina, a primeira presidenta e a primeira prefeita de São Paulo, entrelaçadas num longo abraço.

Mais do que os discursos lidos por Lula e Alckmin, o que mexeu com a plateia multicolorida e multipartidária de 4 mil convidados foi o clima de otimismo e quase euforia dos tempos das Diretas Já que marcou o casamento improvável de dois antigos adversários, unidos agora na dura tarefa de reconstrução nacional.

Ao final do maior evento da campanha eleitoral até agora, ficou na cabeça de todos a pergunta: e agora, o que se pode esperar de um terceiro governo Lula?

Quem deu a resposta foi ele mesmo: "Nunca foi tão fácil escolher. Para sair da crise, crescer e se desenvolver, o Brasil precisa voltar a ser um país normal. A normalidade democrática está consagrada na Constituição".

Um "país normal" é tudo o que queremos de volta para poder acordar de manhã sem medo de olhar as notícias no celular, ir para a escola ou o trabalho, saber que voltaremos vivos, poder planejar a vida e comprar comida sem ter que entrar no cheque especial.

Doze anos depois de deixar o governo, Lula entra agora na disputa por um terceiro mandato, sabendo que tem pela frente um desafio muito maior do que em 2002, quando foi eleito pela primeira vez. Sua responsabilidade agora é infinitamente mais pesada porque vai encontrar uma terra arrasada, a economia em frangalhos e um povo deprimido por três anos e meio de desmandos, destruição, ameaças, violência e mortes.

Lula promete uma "revolução pacífica", para "devolver o fascismo ao esgoto de onde nunca deveria ter saído".

Nos 46 minutos do seu discurso, lido pausadamente, o ex-presidente tratou de todos os assuntos que afligem hoje a população brasileira. Nada ficou de fora.

Da defesa do meio ambiente e da Amazônia, com a transição para um novo modelo de desenvolvimento sustentável, à distribuição de renda, dos investimentos em educação, saneamento e moradia à retomada do consumo e do reconhecimento da cultura como um grande gerador de riqueza e empregos.

Ou seja, tudo ao contrário do que foi feito nos últimos anos, em que a soberania nacional e os direitos dos indivíduos, especialmente os mais vulneráveis, foram constantemente aviltados.

Lá estavam, no centro de convenções, representantes de todos os movimentos sociais, jovens, mulheres, negros, indígenas, a população LGBTQIA +, lado a lado com políticos de 7 partidos e líderes de centrais sindicais, juntos com artistas de todas as latitudes. Ninguém ficou de fora.

O temor que havia da reação de setores mais radicais do PT à presença de Geraldo Alckmin na chapa foram logo dissipados, quando ele começou a falar da sua casa, no telão instalado no palco (o ex-governador pegou covid e não pôde ir ao ato) e ser aplaudido várias vezes, todos de pé, inclusive Lula, no final do seu discurso.

Alckmin agradeceu a Lula pela confiança e disse ter orgulho desta chapa, sabendo que "a missão não é simples nem modesta" e prometeu ser um "parceiro leal".

"Lula é, hoje, a esperança que resta ao Brasil. Não é a primeira, a segunda nem a terceira. Ele é a única esperança para o Brasil".

Em sua sexta campanha presidencial _ certamente um recorde difícil de ser batido _ sinto Lula tão animado como ao começar a primeira, em 1989, quando era um jovem outsider. Falou que está muito feliz porque vai se casar novamente este mês, aos 76 anos, e isto é um bom sinal, porque ninguém gosta de ser governado por pessoas infelizes.

"Fui vítima de uma das maiores perseguições políticas e jurídicas da história deste país, mas não esperem de mim ressentimentos, mágoas ou desejos de vingança", lembrou, de passagem, em meio ao discurso, sobre os 580 dias que passou preso por condenações da Lava Jato que depois seriam anuladas pelo Supremo Tribunal Federal.

Assim como quase todo mundo, fora os saudosistas da ditadura militar, Lula quer mais é falar do futuro, do que pretende fazer para tirar o país do buraco, dando como garantia o que já realizou nos seus governos anteriores, aprovados por mais de 80% da população em todas as pesquisas.

Agora faltam apenas quatro meses e três semanas para esta agonia acabar e podermos virar as páginas mais tristes da nossa história.

Não deixem a esperança morrer. É importante que a nossa emoção sobreviva.

O velho Lula está fazendo a parte dele para voltarmos a viver num "país normal", tudo o que eu espero nestes anos que me restam.

Vida que segue.