Carlos Madeiro

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Reportagem

Maré vermelha em PE e AL intoxicou até quem não foi ao mar: 'Vento trouxe'

A pescadora e marisqueira Maria Madalena Santos, 41, estava na porta da colônia de pesca Z5, próximo à beira-mar de Tamandaré (PE), quando percebeu que o vento soprava com mau cheiro, no último sábado (27).

Eu não cheguei a entrar no mar, mas veio um vento forte, e eu logo senti um cheiro de maresia diferente: era cheiro de peixe estragado. Todos ali começaram a espirrar.
Maria Madalena Santos

Ela diz que, naquele momento, a cor da água estava um pouco mais barrenta que o normal, e a temperatura do ar estava muito alta. "Estava quente além da conta", afirma.

Tanto ela quanto seu marido, o pescador Márcio Fabiano, 47, começaram a ter febre e dores de cabeça e garganta. "Ele chegou a entrar no mar e, no sábado mesmo, passou mal e pediu ajuda para chegar em casa."

A filha do casal, Manuelle de Almeida, 16, estava em casa, perto da colônia. Ela também sentiu o forte cheiro e adoeceu, com ainda mais sintomas: teve vômito e diarreia.

Maria Madalena e Manuelle ficaram doentes por quatro dias. Elas são algumas das mais de 500 pessoas que relataram intoxicação pelo fenômeno da maré vermelha, em Alagoas e Pernambuco (leia mais abaixo).

Somente em Tamandaré, o Hospital Municipal atendeu 278 casos suspeitos de intoxicação por maré vermelha. A Secretaria de Saúde de Pernambuco enviou uma equipe para investigar os casos, e a CPRH (Agência Estadual de Meio Ambiente) colheu amostras de água.

Técnicos da Secretaria de Saúde de Pernambuco em Tamandaré
Técnicos da Secretaria de Saúde de Pernambuco em Tamandaré Imagem: Maíra Arrais /SES-PE

O que é a maré vermelha

Segundo o IMA, a maré vermelha é um fenômeno provocado pelo crescimento excessivo de algas, que podem liberar toxinas.

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O crescimento excessivo de algas é causado pelo aumento da temperatura e da salinidade e pelo excesso de nutrientes, além de outros fatores. Uma carga orgânica elevada contida em efluente doméstico também pode contribuir com o tempo de permanência dessas marés na região, que pode ir de 12h a 48h.
IMA

Em nota técnica, a Secretaria de Saúde de Alagoas explica que a maré vermelha é uma "floração de algas nocivas."

A floração de pequenas algas, chamadas dinoflageladas, que representam um dos grupos mais abundantes de plâncton marinho, caracteriza uma das principais causas da maré vermelha. Outros organismos, como cianobactérias e diatomáceas, também podem estar presentes durante a ocorrência do fenômeno.
Secretaria de Saúde de Alagoas

Segundo a pasta, o tratamento é apenas para os sintomas, "sendo a hidratação prioritária até desaparecimento" do problema.

Mais vítimas

Madalena conta que, somente na colônia Z5, oito pescadores tiveram sintomas semelhantes, mas nenhum deles procurou alguma unidade de saúde. Preferiram se tratar em casa.

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A gente já sabia o que era e, se fosse ao hospital, os médicos iam pensar que era covid ou virose. Tratamos com remédio de gripe e antialérgico.
Maria Madalena

Apesar de o fenômeno da maré vermelha ser conhecido de pescadores na região, ela diz que nunca viu nada parecido com os impactos de agora.

Desse jeito, nunca ouvi falar. E olha que, onde eu estava, não dá nem para ver o mar! Mesmo assim, ficamos quatro dias com sintomas.
Maria Madalena

Samu precisou ser acionado em AL

A 130 km dali, quatro dias depois, foi a vez de quem estava nas praias de Carro Quebrado e Ilha da Crôa, em Barra de Santo Antônio (AL), ter os mesmos sintomas. A suspeita também era a maré vermelha.

No Centro de Saúde São Sebastião, a recepcionista Sandra Petrúcia diz que, em três anos de trabalho no local, nunca viu um volume de atendimentos tão alto como no plantão entre quarta e quinta-feira.

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Os primeiros pacientes começaram a chegar por volta das 16h. O primeiro foi um vendedor que tem barraquinhas na praia do Carro Quebrado. Ele estava com muita dor de cabeça, falta de ar, a garganta fechando, febre e frio. Depois, outros pacientes chegaram. Atendemos mais de 200.
Sandra Petrúcia

À noite, dois pacientes que haviam tomado banho de mar foram transportados em uma ambulância do Samu, do hotel para a unidade de saúde.

Grande parte dos pacientes, diz Sandra, eram turistas curtindo o verão na cidade.

Segundo a prefeitura de Barra de Santo Antônio, foram 245 atendimentos entre quarta e quinta-feira. A cidade vizinha de Paripueira recebeu outros 15 pacientes que tinha ido à praia.

Como em Pernambuco, muitos apresentaram sintomas, mas preferiram ficar em casa.

Eu e minha filha [que faz monitoramento da pesca] tivemos dor de cabeça, mal-estar. Tive ânsia de vômito e dores fortes, com diarreia. Minha filha ainda entrou para coletar água, mas estava de bota, luva e máscara. Eu nem entrei no mar.
Ana Paula de Oliveira Santos

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Centro de Saúde São Sebastião, que atendeu mais de 200 pessoas em Barra de Santo Antônio (AL)
Centro de Saúde São Sebastião, que atendeu mais de 200 pessoas em Barra de Santo Antônio (AL) Imagem: Google Street View

A médica e professora de doenças tropicais da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) Vera Magalhães explica que a toxina pode ser carregada pelo ar.

Pelo que sabemos, esse fenômeno vem de uma conjunção de fatores: o aumento da temperatura da água, associado à matéria orgânica, principalmente esgoto, gera o crescimento de uma alga que produz uma toxina. Os efeitos ocorrem em pessoas que tomam banho de mar, mas também nas que se expõem ao ar com a toxina. O consumo de frutos do mar também pode resultar na intoxicação.
Vera Magalhães, da UFPE

Tanto em Pernambuco quanto em Alagoas, os pacientes apresentaram os seguintes sintomas:

  • Dor abdominal, de cabeça e no corpo
  • Mal-estar
  • Náusea
  • Vômitos
  • Irritação nos olhos, na garganta e na pele
  • Diarreia
  • Falta de ar
  • Olhos secos
Fiscais do IMA na praia de Carro Quebrado (AL)
Fiscais do IMA na praia de Carro Quebrado (AL) Imagem: IMA/Divulgação
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O professor Cláudio Sampaio, da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), explica que o fenômeno normalmente está associado a fatores combinados, como poluição doméstica, esgoto, águas quentes e ventos, que concentram as microalgas.

Microorganismos em grande quantidade podem causar a morte de animais marinhos. Quando eles morrem, produzem gases e outras substâncias que irritam olhos, pele e mucosas das pessoas que tiveram contato com a água.
Cláudio Sampaio

Segundo ele, o registro de marés vermelhas é antigo e bem conhecido pela ciência.

Há registros desse fenômeno na Bíblia. As águas do rio Nilo se transformaram em sangue, e muitos animais morreram. Mas nem sempre o fenômeno é tão colorido. Às vezes, ele é discreto.
Cláudio Sampaio

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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