PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Chico Alves


Movimento fascista, integralismo tem adeptos na órbita do governo Bolsonaro

Montagem feita pela página de Facebook "Defesa do Integralismo", em apoio ao discurso de Roberto Alvim - Reprodução Facebook
Montagem feita pela página de Facebook "Defesa do Integralismo", em apoio ao discurso de Roberto Alvim Imagem: Reprodução Facebook
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

02/02/2020 04h02

No turbilhão de "frituras" de integrantes do governo Bolsonaro neste mês de novembro, há 15 dias se falava em nazismo, antes se falava na Secretaria de Comunicação, depois veio a entrevista de Sergio Moro no Roda Viva, o Sisu, e por fim a Casa Civil, com Onyx Lorenzoni na berlinda.

Respiremos fundo e voltemos ao nazismo. O discurso que provocou a demissão do secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, gerou indignação por revelar como as ideias nazistas chegaram ao centro do poder brasileiro.

A saída de Alvim, porém, não põe fim às assombrações políticas que vieram do passado.

Versão brasileira do fascismo criado pelo italiano Benito Mussolini, o integralismo, idealizado nos anos 1930 por Plínio Salgado, reapareceu e, de forma aberta, mantém ligações com o governo de Jair Bolsonaro e seus apoiadores.

A afinidade entre integralistas e a gestão Bolsonaro se manifesta de diversas formas. Desde a nomeação de um ativista da Frente Integralista Brasileira (FIB) como assessor de ministério à participação de adeptos do movimento em partidos da base do governo.

Plínio Salgado, idealizador do integralismo, movimento de orientação fascista dos anos 1930  - Domínio público
Plínio Salgado, idealizador do integralismo, movimento de orientação fascista dos anos 1930
Imagem: Domínio público
O Brasil é declaradamente contra as propostas nazifascistas desde a Segunda Guerra, quando o país enviou soldados da Força Expedicionária Brasileira à Europa para lutar contra as tropas de Mussolini e Adolf Hitler.

"Uma das principais características do fascismo é a visão que divide a sociedade entre 'nós' e 'eles', entre amigos e inimigos. Pensam: se você não é como eu, é meu inimigo, e posso usar da violência, seja ela política, física ou jurídica", explica Odilon Caldeira Neto, professor de história contemporânea da Universidade Federal de Juiz de Fora. " O integralismo é uma das expressões disso".

Registros de época afirmam que o integralismo chegou a ter um milhão de militantes em seu auge no Brasil.

Integralista no governo

Um dos elos entre essa ideologia e os governistas foi visto no noticiário há um mês. Eduardo Fauzi, acusado de participar do atentado com coquetéis molotov à produtora do humorístico Porta dos Fundos, era integrante da FIB e também componente do diretório fluminense do PSL, partido governista. Acabou duplamente expulso depois do ato terrorista.

Outras ligações permanecem. O próprio governo tem em seus quadros pelo menos um integralista declarado. Mais precisamente no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, cuja responsável é a ministra Damares Alves, hoje um dos nomes mais populares do governo.

Em meados de dezembro, a ministra nomeou como assessor especial o advogado Paulo Fernando Melo da Costa, dirigente da Frente Integralista Brasileira. Ele estava desde fevereiro na equipe da ministra, em outro cargo.

No site "Integralismo", o assessor especial de Damares é apresentado como "homem de fé, que convence mulheres a desistirem de fazer aborto apenas conversando". O advogado concorreu a deputado em várias eleições, uma delas pelo Prona, partido fundado pelo folclórico direitista Enéas Carneiro e que pode voltar ao cenário político.

Integralista Paulo Fernando Melo da Costa e Jair Bolsonaro - Reprodução Internet
Integralista Paulo Fernando Melo da Costa e Jair Bolsonaro
Imagem: Reprodução Internet
Nos santinhos distribuídos aos eleitores, usou o sigma, símbolo do integralismo.

Paulo Fernando já conhecia Jair Bolsonaro antes de ele se tornar presidente (participaram de um debate sobre as urnas eletrônicas) e depois que entrou no governo já se encontraram outras vezes.

A coluna enviou perguntas à assessoria de imprensa do ministério sobre Paulo Fernando e sobre qual a influência do integralismo nas iniciativas da pasta.

"As questões do integralismo não compõem as ações do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH). As atividades exercidas individualmente pelo servidor, não fazem parte da sua atuação no MMFDH", respondeu a assessoria.

Apesar disso, é curioso notar que a principal bandeira do momento para a ministra Damares, a campanha pela abstinência sexual, coincide com um dos temas que há muito tempo é importante para Paulo Fernando. Há dez anos ele defende essa ideia.

Em 2009, participou de um evento em São Paulo, organizado pela Associação de Apoio ao Ser Humano e à Família, e o tema de sua palestra foi "O Cristão e a Abstinência Sexual".

Há dois meses, quando representou a ministra no plenário da Câmara para celebrar o Dia de Combate à Cristofobia, Paulo Fernando fez questão de lembrar que o crucifixo posicionado acima da tribuna onde discursam os deputados foi colocado ali pelo então "deputado católico" Plínio Salgado, justamente o criador do integralismo.

Carlos Jordy, sob o olhar de Flávio Bolsonaro, entrega homenagem a integralista Breno Zarranz - Reprodução de WhatsApp
Carlos Jordy, sob o olhar de Flávio Bolsonaro, entrega homenagem a integralista Breno Zarranz
Imagem: Reprodução de WhatsApp
O ativista e os filhos do presidente

Além de ter representantes no governo Bolsonaro, integralistas são apoiadores políticos próximos da família do presidente.

Um deles é Breno Zarranz, 42, que desde a juventude é ativista do movimento. Em 2017, Zarranz recebeu homenagem na Câmara dos Vereadores de Niterói (RJ) em nome de Gumercindo Rocha Dórea, dono da tradicional editora GRD, que tem em catálogo, além de vários títulos de ficção científica e romances brasileiros, livros de teoria integralista.

O autor do mimo foi o então vereador Carlos Jordy, hoje deputado federal do PSL-RJ e vice-líder do governo na Câmara. Curiosamente, um dos presentes à homenagem feita há pouco mais de dois anos era Flávio Bolsonaro (sem partido), hoje senador, na época deputado estadual.

"A minha homenagem à GRD não foi exclusivamente por conta dos livros sobre Integralismo. Mas, embora eu não seja integralista, esse movimento teve importância muito grande para o nosso país enquanto vigorou", explica Jordy. "Vivíamos sob ameaça do comunismo, que vilipendiava os valores morais, de família e religião. Era uma proposta genuinamente brasileira que aceitava toda a diversidade do nosso povo, que lutava pela conservação dos valores de Deus, pátria e família".

A argumentação do deputado sobre a ideologia de extrema-direita não corresponde à definição de estudiosos, que consideram o integralismo uma cópia adaptada ao Brasil do fascismo de Mussolini. Plínio Salgado criou o movimento depois de sair extasiado de uma reunião com o ditador italiano em Roma, em 1930. "Isso não quer dizer que o integralismo seja fascismo", insiste Jordy.

Além de ter na plateia Flávio Bolsonaro, quando representou a editora GRD em Niterói, o integralista Breno Zarranz conhece outro filho do presidente. Ele aparece no Facebook ao lado do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que tem em mãos o livro "Professor Não É Educador".

Breno Zarranz (com a bandeira brasileira no ombro) no grupo integralista de Eduardo Fauzi - Reprodução de vídeo
Breno Zarranz (com a bandeira brasileira no ombro) no grupo integralista de Eduardo Fauzi
Imagem: Reprodução de vídeo
O ativismo de Zarranz não se limita, porém, à difusão de livros. Ele é um dos integrantes do grupo de Eduardo Fauzi e aparece em vídeo recente de farda preta, antes de sair em marcha pelo centro do Rio sob a bandeira com o sigma para queimar em praça pública o símbolo da antiga União Soviética.

O delegado da 10ª Delegacia Policial, que investiga o atentado à produtora do Porta dos Fundos, não quis informar ao UOL se Zarranz é um dos investigados pelo crime.

O senador Flávio Bolsonaro e o deputado federal Eduardo Bolsonaro não responderam às perguntas enviadas às suas assessorias sobre qual tipo de relacionamento mantêm com o ativista.

Ideias integralistas no partido do vice-presidente

Além do presidente e família, também o vice-presidente Hamilton Mourão tem defensores das ideias de Plínio Salgado no seu entorno.

Ele é filiado ao PRTB, que é presidido por Levy Fidelix, um declarado apoiador do integralismo. O partido tem em seus quadros o próprio presidente da Frente Integralista Brasileira, Victor Barbuy.

Propaganda eleitoral de Levy Fidelix com Victor Barbuy, presidente da Frente Integralista Brasileira - Reprodução
Propaganda eleitoral de Levy Fidelix com Victor Barbuy, presidente da Frente Integralista Brasileira
Imagem: Reprodução
Questionado sobre o assunto, Levy Fidelix respondeu: "Vitor (sic) é filiado ao nosso partido, não sabendo o quantitativo de outros a ele vinculados. Somos de direita, sim".

Depois de dizer que cultuam o "verde e o amarelo" da bandeira nacional, o político explica que defende "a tese politico-ideológica Deus, Pátria e Familia". Na economia, se definem como "liberais e capitalistas humanitários, contrários ao monetarismo da escola de Chicago" (linha que segue o ministro Paulo Guedes, da Economia).

UOL enviou email ao vice-presidente Hamilton Mourão através da assessoria de imprensa para saber se ele não vê problema em estar filiado a um partido cujo dirigente é simpático ao integralismo, mas até o fechamento da edição não houve resposta.

A família Bolsonaro, como se sabe, está empenhada em viabilizar a criação do partido Aliança Pelo Brasil, que tem como lema o mesmo do movimento fundado por Plínio Salgado: "Deus, pátria e família".

"O integralismo nunca deixou de existir, sempre esteve rondando esse espectro político", explica Leandro Pereira Gonçalves, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora. "O momento político é favorável para ecoar esse discurso reacionário, então os grupos aproveitam as brechas legais e ocupam espaços".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves