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Chico Alves


Quis mostrar que não sou como eles, diz Emerson sobre discurso na Paulista

Emerson Márcio, manifestante da Gaviões da Fiel - Annelize Tozetto/Divulgação
Emerson Márcio, manifestante da Gaviões da Fiel Imagem: Annelize Tozetto/Divulgação
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

02/06/2020 14h49

O desenvolvedor de softwares Emerson Márcio Vitalino, de 35 anos, seria apenas mais um entre centenas de torcedores corintianos que foram protestar na av. Paulista no domingo, não fosse por um impulso que teve logo no início da manifestação. "A revolta foi grande quando eu vi símbolos nazistas da Ucrânia, uma coisa perversa", explica.

A indignação o levou a se posicionar em meio aos bolsonaristas presentes para fazer um discurso antirracista.

"Acham que nós vamos recuar? Não vamos recuar! Nenhum passo atrás, aqui é democracia!", gritou. Ao final, manteve o braço direito erguido e punho fechado, em silêncio. O gesto foi inspirado nos Panteras Negras, partido político que na década de 1960 lutava pelos direitos civis dos negros dos Estados Unidos. A foto do ativista norte-americano Malcolm X estampava sua camiseta preta.

"As pessoas em volta xingaram minha mãe, levei chutes, cusparadas, soco na costela", conta.

A bandeira que motivou a revolta de Emerson foi criada no século 16 e, segundo o embaixador ucraniano, Rotyslav Tronenko, explicou à emissora CNN Brasil, não teria ligação com o nazismo. Porém, ela é usada, sim, como símbolo pelo grupo paramilitar Pravy Sektov, de ideologia neonazista.

O discurso de Emerson rapidamente viralizou nas redes sociais. Ele só se deu conta da repercussão no fim da tarde, quando os amigos começaram a ligar para perguntar como estava.

Um dos que ajudou a chamar atenção para a cena foi Felipe Neto, youtuber campeão de audiência. "Uma das imagens mais fortes de resistência que já vi na vida", escreveu Neto no Twitter.

Emerson é conhecido em Osasco (SP) pelo trabalho social que desenvolve e também por ter conquistado o campeonato sul-americano de Muay Thai — por isso também é chamado pelo apelido de Balboa, uma referência ao personagem Rocky Balboa, vivido por Sylvester Stallone no cinema.

Maneja um vocabulário politizado que aperfeiçoou quando concorreu a uma vaga de vereador pelo Solidariedade nas últimas eleições municipais. Atribui o conhecimento político que tem a Chico Malfitani, sociólogo e publicitário que é fundador da torcida Gaviões da Fiel e ligado ao PT.

Além disso, leu livros e viu filmes sobre Malcolm X, ativista negro norte-americano que, segundo ele, dominou a impulsividade da juventude e aprendeu que para colher resultados seria necessário "plantar a semente e esperar brotar".

Emerson é associado à Fiel desde os 18 anos. Em sua paixão pelo Corinthians, nunca apagou da memória o lance nas quartas de final da Libertadores de 2012, em que o Timão enfrentou o Vasco, quando Diego Souza teve tudo para fazer o gol vascaíno e o goleiro Cássio defendeu milagrosamente. No finalzinho do jogo, Paulinho estufou as redes e classificou os corintianos.

Na manifestação de domingo, Emerson faz questão de frisar que estiveram juntos torcedores dos quatro grandes paulistas: Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos. Ele garante que essa união vai continuar e todos estão alertas para a possibilidade de surgirem infiltrados nas próximas manifestações.

"Todo mundo sabe que quando um ato legítimo ganha proporções grandes e o lado afetado quer de alguma forma deslegitimar um ato legítimo, vai querer criar um fato que as pessoas entendam que a sociedade repudia. Eles têm poder para fazer isso", reconhece Emerson. "Mas quando estamos organizados em grupo, é muito difícil ter infiltrados. As organizações se conhecem e quem não pertence ao nosso meio vai ser reconhecido".

Desafiar o isolamento social que protege do contágio do coronavírus para ir à manifestação também não foi uma decisão fácil. "Está todo mundo temeroso de pegar a covid, mas a gente tem um vírus muito mais letal para combater, que é o vírus do fascismo, o vírus da ditadura", diz.

Depois da grande repercussão do rápido discurso na avenida Paulista, Emerson explica que se sente representando muitos negros do Brasil que não têm a exposição que ele teve. Gente que, como diz, cansou de ser vítima de crimes que acabam sem punição para os culpados. Lembra de casos recentes, como o menino João Pedro, a menina Ágatha, e do episódio mais rumoroso, a morte de Marielle Franco.

Sobre o sangue frio com que resistiu aos xingamentos e provocações dos bolsonaristas enquanto estava calado e de punho cerrado, explica o que passou pela sua cabeça naquele momento: "Pensei que a grandeza não seria revidar, mas mostrar que não sou igual a eles".

Errata: o texto foi atualizado
O jogo Corinthians x Vasco foi pelas quartas de final da Libertadores, e não pelas oitavas de final do Campeonato Brasileiro. E Malcom X não foi criador do grupo Panteras Negras. As informações foram corrigidas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves