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Marcelo Crivella age como um ditador municipal

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, durante transmissão ao vivo nas redes sociais - Reprodução/Facebook/Marcelo Crivella
O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, durante transmissão ao vivo nas redes sociais Imagem: Reprodução/Facebook/Marcelo Crivella
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

01/09/2020 07h11


Nesses últimos tempos, em que o Brasil flerta com políticos de tendência autoritária, brucutus deixaram claro que a imprensa é um de seus principais inimigos. Na tentativa de esconder os fatos que o noticiário teima em mostrar, lançam mão de vários expedientes. Confundem o público espalhando fake news, ofendem jornalistas e tentam impedir o trabalho das equipes de reportagem.

Nessa tarefa vergonhosa, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), foi além do imaginável. Diante da gestão desastrosa da Saúde e da enxurrada de reclamações dos cidadãos que são mal atendidos, resolveu tentar impedir que jornalistas consigam fazer entrevistas à frente das unidades municipais.

Para isso, destacou um batalhão de servidores pagos com dinheiro público cuja única tarefa é ficar no entorno das clínicas e hospitais da Prefeitura para constranger entrevistados que queiram fazer queixa aos repórteres. A atividade da gangue oficial foi mostrada ontem, em excelente matéria, nos telejornais da Rede Globo.

Pelo trabalho dos jornalistas Chinima Campos, André Maciel, Diego Alaniz, Sabrina Oliveira e Paulo Renato Soares ficamos conhecendo as identidades dos parasitas e os salários que recebem - entre R$ 2.700 e R$ 4.200.

São controlados através de grupos de WhatsApp e o responsável é Marcos Luciano, assessor especial do gabinete do prefeito e homem de confiança de Crivella, que recebe R$ 10.500 para dar conta da tarefa.

Há oito meses, os trogloditas mantêm a atividade de cercar equipes de reportagem para gritar xingamentos como "Globolixo", "Bolsonaro" e outras bobagens.

A tentativa de censura que esses delinquentes praticam é supervisionada por ninguém menos que o próprio Crivella, até pouco tempo participante dos grupos de aplicativo de mensagem.

Certamente preocupado com a reeleição, o prefeito tenta encobrir a falta de medicamentos, recursos e profissionais que qualquer paciente constata ao procurar a rede de Saúde.

Ao invés de ouvir as críticas para tentar melhorar o que não funciona bem, Crivella, com aquela sua expressão imutável e voz pastosa de quem ainda trabalha em um templo da Universal, preferiu inovar. Colocou trogloditas para atacar a imprensa.

Feito com qualidade, o jornalismo foi mais forte que os cães de guarda e desmascarou a empreitada digna de canalhas que não têm apreço pela democracia.

Não se trata de um episódio qualquer.

Há um caso histórico muito conhecido que revela a gravidade do fato. Quando, em 1968, o governo Costa e Silva editou o Ato Institucional Nº 5, Pedro Aleixo, o vice-presidente, discordou do texto. "Presidente, o problema de uma lei assim não é o senhor, nem os que com o senhor governam o país", disse ele ao general Costa e Silva. "O problema é o guarda da esquina".

As ondas autoritárias são assim. Uma vez iniciadas pelos gestos de algum figurão - o presidente da República, geralmente -, são impossíveis de serem controladas, principalmente quando a mediocridade é disseminada em níveis paroquiais.

Temos no Rio um bom exemplo dessa baixaria antidemocrática. Crivella acaba de criar a figura do ditador municipal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.