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Flávio Bolsonaro diz que não tem nada a esconder, mas esconde tudo

Flávio Bolsonaro  - Dida Sampaio/Estadão
Flávio Bolsonaro Imagem: Dida Sampaio/Estadão
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

05/09/2020 09h37

Volta e meia algum juiz atrapalhado decide que jornalistas têm que obedecer ao segredo de Justiça. Logo em seguida, uma instância superior faz valer o entendimento de que esse tal sigilo deve ser obedecido por membros do Judiciário, não pela imprensa.

Com base em tal jurisprudência, é possível prever que em breve será derrubada a censura imposta pela juíza Cristina Serra Feijó, da 33ª Vara Cível do Rio de Janeiro, que proibiu a TV Globo de exibir documentos da investigação do esquema de rachadinha na Assembleia Legislativa fluminense.

Quando isso acontecer, o que restará, além do péssimo conceito de parte da sociedade sobre o trabalho da magistrada, será a convicção de que o senador Flávio Bolsonaro tem negociações ainda mais cabeludas que não quer ver expostas à luz do sol.

Em julho do ano passado, o advogado de Flávio, ninguém menos que Frederick Wassef, foi ao Supremo Tribunal Federal e conseguiu que o ministro Dias Toffoli suspendesse a investigação do Ministério Público do Rio sobre a movimentação bancária de Fabrício Queiroz e seus Blue Caps. A decisão paralisou todas as investigações feitas com base em relatórios do Coaf.

Para uma família que tem como bandeira a luta contra a corrupção, nada mais contraditório.

Desde que a restrição ao trabalho do MP foi anulada, vieram à tona detalhes cada vez mais escabrosos do esquema de rachadinha, que comprometem não só Flávio, mas também a primeira-dama, Michelle, e consequentemente o presidente Jair Bolsonaro.

Diante da impossibilidade de parar a investigação, Flávio tenta agora cessar a divulgação das tramoias descobertas no esquema da Alerj e em seus negócios. Tudo sempre adubado com dinheiro vivo, bem parecido com o que costuma ocorrer nos esquemas tradicionais de lavagem de dinheiro.

Momentaneamente, a Globo não pode divulgar os documentos. Mas se essa história de democracia ainda estiver valendo por aqui, em breve tudo voltará a ser como antes. Os detalhes comprometedores da investigação continuarão chegando ao conhecimento do público.

Enquanto a proibição permanece, o senador vai às redes sociais para comemorar a decisão judicial.

"Não tenho nada a esconder", declarou Flávio Bolsonaro, enquanto escondia tudo.

Com decisões como essa, o senador, apesar de jurar ser inocente, se parece cada vez mais com um culpado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.