PUBLICIDADE
Topo

Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com 250 mil mortes, militares da Saúde confundem Amazonas com Amapá

Renato Aragão, Dedé Santana  e Roberto Guilherme no programa Os Trapalhões - Reprodução YouTube
Renato Aragão, Dedé Santana e Roberto Guilherme no programa Os Trapalhões Imagem: Reprodução YouTube
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

25/02/2021 11h44

Com raras exceções, militares brasileiros acham que são mais honestos, mais patriotas e mais competentes que os civis. É como se o simples fato de vestir uma farda conferisse superpoderes a um cidadão comum. Foi com essa empáfia que generais, coronéis, brigadeiros e almirantes assumiram no governo Bolsonaro cargos que deveriam ser ocupados por especialistas.

A militarização da administração pública se revelou um fracasso em vários setores, mas o caso do Ministério da Saúde é especialmente trágico. Os fardados ocuparam o primeiro escalão de uma pasta que, em muitos setores, conta com cientistas que estão entre os melhores do mundo.

Como resultado, faltaram respiradores e sedativos para intubação, gastou-se dinheiro na produção da inútil cloroquina, não houve campanha de distanciamento social, testes de detecção de coronavirus comprados mas não foram distribuídos, faltou oxigênio para doentes de covid no Amazonas, entre outras barbaridades.

Tudo isso seria evitado se os pretensiosos oficiais que tomaram o Ministério da Saúde ouvissem os sanitaristas e epidemiologistas de que a pasta dispõe. Sem usar esse recurso de excelência, chegamos aos 250 mil mortos na pandemia, uma catástrofe que poderia ter proporções bem menores.

A série dramática de barbeiragens continua. O capitão-presidente e o general-ministro se atrapalharam o quanto puderam na negociação da compra das vacinas. Enquanto outros países fecharam compra de imunizantes há cinco meses, mesmo antes dos testes finais, o governo brasileiro ainda está batendo cabeça para comprar esses medicamentos.

Enquanto a vacina não chega na quantidade necessária, compatriotas continuam morrendo aos montes. Ontem foram registrados mais de 1.400 óbitos.

Para coroar a bagunça, os militares da Saúde conseguiram desmoralizar o Plano Nacional de Imunização, que nas últimas décadas teve sucesso contra várias doenças e se tornou referência mundial.

Em meio à maior pandemia da história da humanidade, a campanha de vacinação está totalmente confusa, as orientações mudam a toda hora, a definição de grupos prioritários segue critérios questionáveis, a necessária coordenação nacional não existe.

A barafunda é tão grande que estados e municípios são obrigados a se virar sozinhos.

Nem mesmo o simples transporte das vacinas o Ministério da Saúde consegue fazer corretamente. Na noite de ontem, a pasta admitiu que confundiu os Estados do Amapá e do Amazonas.

Em meio uma crise sem precedentes, os amazonenses deveriam receber 78 mil doses de vacina e só receberam 2 mil. Já os amapaenses deveriam receber 2 mil e foram surpreendidos com 76 mil doses a mais. Isso em um ministério que tem à frente o general da ativa Eduardo Pazuello, apresentado ao Brasil como craque em logística do Exército.

Inacreditável.

Se fossem minimamente dados a autocrítica, os militares reconheceriam que já exorbitaram do direito de errar e devolveriam o Ministério da Saúde para quem entende do riscado. Como se sabe, isso não vai acontecer e as trapalhadas vão continuar.

Houve um tempo em que o Brasil tinha trapalhões que faziam rir. Os que ocupam hoje a Saúde só provocam lágrimas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL