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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Alunos têm que voltar às aulas, mas professores precisam ficar vivos

Crianças na escola, durante pandemia de covid-19 - iStock
Crianças na escola, durante pandemia de covid-19 Imagem: iStock
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

28/02/2021 13h27

É sempre bom lembrar os prejuízos que a suspensão das aulas causa aos alunos que são obrigados a ficar em casa por conta da pandemia de covid-19. Além do atraso na aprendizagem, a falta de socialização com os colegas pode provocar problemas psicológicos. E todas essas consequências são ainda mais perversas para as famílias com menor renda.

Planejar a volta às aulas é algo urgente. A grande questão é estabelecer quando isso deve acontecer.

Mesmo levando em conta o alto preço pago pelos estudantes, não se justifica que as escolas brasileiras voltem a funcionar agora, quando a pandemia atinge o ponto mais trágico.

Se os alunos necessitam urgentemente voltar a aprender, os professores precisam muitíssimo sobreviver ao coronavirus.

Salvar vidas é (ou deveria ser) a prioridade um.

Da parte dos que defendem a volta imediata às aulas, é particularmente exótica a argumentação que apresenta conclusões tiradas em países europeus sobre a segurança nas salas de aula.

Comparar as medidas de prevenção tomadas na Alemanha, Reino Unido e França ao que é feito no Brasil é ignorar o risco que a bagunça implantada no país por Jair Bolsonaro representa para a vida da população.

Até mesmo esse argumento, porém, se desintegrou diante do avanço das novas variantes. Alguns países europeus foram obrigados a rever a decisão de manter aulas presenciais.

Depois do lockdown rigoroso que muitos países fizeram em fevereiro, os governos ensaiam a volta gradativa dos alunos, mas sob grande controle, tendo como base principal a testagem, algo que é pífio no Brasil.

Aqui nunca tivemos lockdown de verdade, aplicação de testes nem pensar. Muitas escolas públicas — e até algumas particulares — não têm condições de oferecer ambiente minimamente seguro contra a transmissão do vírus.

Na Europa, o número de casos e mortes por coronavírus voltou a cair, no Brasil esses índices crescem dramaticamente.

Mesmo assim, personalidades de peso defendem que alunos e professores voltem ao batente.

O resultado desse movimento inicial já pode ser constatado nos números divulgados pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo. De dezembro, quando professores, diretores e funcionários retornaram às escolas, até aqui foram registrados 1430 casos de profissionais com covid-19. Houve ao menos 17 mortes. Apesar disso, a rede estadual paulista mantém o ensino presencial.

É preciso lembrar também do risco que a volta às aulas pode representar para as próprias crianças, já que pouco se sabe sobre os efeitos das novas variantes do vírus.

Por causa da alta de casos das últimas semanas, Ceará, Distrito Federal, Paraná, Pernambuco e Rio Grande do Sul suspenderam aulas presenciais ou adiaram a volta dos alunos, que já tinha data prevista.

Se consideram o trabalho dos professores assim tão prioritário, não se entende por qual motivo a categoria não foi incluída entre os primeiros vacinados. Um pouco de coerência faria bem a todos.

A preocupação com a educação dos pequenos é elogiável, mas nenhuma lição é mais valiosa que mostrar aos estudantes que não há nada mais importante que preservar a vida — ao contrário do que acham alguns governantes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL