PUBLICIDADE
Topo

Chico Alves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Pai que perdeu filho para covid critica Bolsonaro: "Debocha da nossa dor"

Márcio Antonio do Nascimento - Reprodução de vídeo
Márcio Antonio do Nascimento Imagem: Reprodução de vídeo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

08/04/2021 12h34

A dez dias de completar um ano de morte do filho Hugo, por complicações causadas pelo coronavirus, o taxista carioca Márcio Antonio do Nascimento, 56 anos, revive todo o seu sofrimento. Não é apenas a proximidade da data que traz de volta as lágrimas. As falas do presidente Jair Bolsonaro sobre as vítimas da pandemia também o machucam. "É como se ele toda hora pisasse em uma ferida minha que não cicatriza", explica Márcio.

Ontem, Bolsonaro voltou a fazer comentários infelizes sobre as mortes causadas pela covid-19. Ao falar sobre a pandemia, em Foz do Iguaçu, o presidente recomendou: "Não vamos chorar o leite derramado". Mais à frente, minimizou a tragédia brasileira ao dizer que "infelizmente, morre gente em tudo o que é lugar".

"O presidente debocha da nossa dor", crítica Márcio. "Quando eu fico um pouco melhor ele volta a machucar com suas palavras. Meu luto não acaba nunca".

O taxista ficou conhecido nacionalmente em junho do ano passado ao recolocar de pé as cruzes fincadas na areia de Copacabana durante uma homenagem às vítimas da pandemia. Os símbolos tinham sido derrubados por um simpatizante do presidente Bolsonaro. Casualmente, Márcio passava pelo local e resolveu agir.

De lá para cá, participou de outras homenagens, tanto a vítimas quanto aos profissionais de saúde que atuam na pandemia. Considera essas atividades uma forma de transformar o sofrimento em algo útil.

A lembrança do filho, que morreu aos 25 anos, volta sempre e ele tenta lidar com o drama da melhor forma possível. Com a queda de movimento de passageiros de táxi durante a pandemia, trabalha muitas vezes fazendo delivery para um supermercado localizado ao lado do cemitério São João Batista, em Botafogo, onde Hugo está sepultado. "É muito difícil", desabafa.

Para piorar, a irmã está internada em uma UTI, intubada por causa do coronavírus.

Apesar da imensa tristeza, Márcio consegue tocar a vida. Mas a cada comentário de Bolsonaro sobre as vítimas da covid-19, volta a se emocionar.

"Parece que ele não tem limite. Quando penso que estou melhor, ele vem e me fere novamente", lamenta. "Essa frase (sobre o leite derramado) me deixou muito afetado".

O taxista acha inacreditável que o presidente da República, político mais importante do país, não consiga entender a tragédia que se abateu sobre tantas famílias.

"Por causa do coronavírus, eu não consegui vestir meu filho, abraçar meu filho, enterrar meu filho como gostaria. Estamos presos a esse simbólico que não conseguimos realizar", desabafa.

Márcio diz que o filho era parte tão intensa de sua vida que é como se não tivesse se separado dele. "Precisamos de paz, mas o presidente não deixa a gente ter paz", reclama.

Na avaliação dele, empatia é algo que o ocupante do Palácio do Planalto não tem. "Pra mim, cada vida é importante. Pra ele, um milhão não faz diferença", acredita. "Talvez porque não seja alguém da família dele".

Diz que gostaria de não ter mais que se preocupar com as falas do presidente. "Se ele pedisse desculpas pela tristeza que causou a tantas famílias, acho que conseguiria virar a página", sugere. "Mas sei muito bem que isso nunca vai acontecer".