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Chico Alves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Cacique político do Rio, Jorge Picciani foi do topo do poder à prisão

Jorge Picciani cumpriu seis mandatos como deputado estadual do Rio de Janeiro - FÁBIO MOTTA/ESTADÃO CONTEÚDO
Jorge Picciani cumpriu seis mandatos como deputado estadual do Rio de Janeiro Imagem: FÁBIO MOTTA/ESTADÃO CONTEÚDO
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

14/05/2021 14h22

Por mais de 10 anos, a partir de 2003, nenhum assunto importante na política do Rio de Janeiro foi decidido sem passar pelo crivo de Jorge Picciani. O ex-deputado e ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), que morreu na madrugada de hoje em um hospital de São Paulo, estendeu seu domínio na política fluminense por mais tempo que qualquer outro de seus contemporâneos.

Como chefão da Alerj, atuou durante as gestões de Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão. Foi eleito para o cargo por cinco vezes porque, apesar do temperamento explosivo, sempre se manteve disposto a conversar com todas as correntes partidárias da Casa. Essa habilidade política sempre foi reconhecida.

Entrou na engrenagem partidária pela porta do PDT de Brizola e depois transferiu-se para o MDB, onde se manteve até a morte, causada por um câncer na bexiga.

Seu campo de influência não se limitava aos colegas da Assembleia Legislativa fluminense e ao Executivo estadual. Também tinha grande poder no MDB nacional: durante as gestões do PT na Presidência da República foi interlocutor frequente das autoridades federais. Por conta disso, seu filho e deputado federal, Leonardo Picciani, foi nomeado ministro do Esporte na gestão de Dilma Rousseff.

Foi Picciani que emitiu um dos mais decisivos sinais de que Dilma sofreria impeachment, ao orientar, em 2016, a bancada do PMDB a votar a favor do afastamento da petista da Presidência.

O ex-presidente da Alerj acabou sendo alvo da temporada de caça aos políticos iniciada com a Lava Jato, que tanto fustigou as gestões petistas. Sua empresa de pecuária, a Agrobilara, foi citada nas investigações lavajatistas sob acusação de vender gado a preços superfaturados como subterfúgio para lavagem de dinheiro. A compradora do rebanho ilegal foi a Carioca Engenharia, que assim ocultava repasse de dinheiro via caixa 2 ou doação eleitoral não declarada.

Também o ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado, Jonas Lopes, fez delação premiada em que acusou Picciani de lavar dinheiro por meio da Agrobilara. Isso rendeu ao então deputado uma condução coercitiva para prestar depoimento à Polícia Federal e um mandado de busca e apreensão, cumprido em seu gabinete.

Em novembro de 2017, Picciani mais uma vez foi alvo de condução coercitiva, mas dessa vez no âmbito da Operação Cadeia Velha, que apurou esquema de pagamento de propinas a deputados estaduais em troca de votos favoráveis aos projetos de interesse da Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do estado do rio de Janeiro (Fetraspor).

O golpe mais duro veio em março de 2019, quando o TRF da 2ª região condenou Picciani por unanimidade, juntamente com os ex-deputados estaduais Paulo Melo e Edson Albertassi ,pelos crimes de corrupção passiva e organização criminosa. Ele também foi condenado por lavagem de dinheiro, com pena fixada em 21 anos de prisão e multa de R$ 11,2 milhões. A punição depois foi revertida em prisão domiciliar.

Picciani já sofria há algum tempo do câncer na bexiga e pessoas próximas dizem que o tempo na cadeia e o aborrecimento pela condenação fizeram com que a doença se agravasse.

Era casado com Hortência Oliveira Picciani e tinha quatro filhos.