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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tá cada vez mais down no high society

Hotel Copacabana Palace - Rio de Janeiro (RJ) - Divulgação/Belmond Copacabana Palace
Hotel Copacabana Palace - Rio de Janeiro (RJ) Imagem: Divulgação/Belmond Copacabana Palace
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

16/05/2021 04h00


Alô, alô, marciano, aqui quem fala é da Terra.

Pra variar, estamos em guerra.

Mas além daqueles combates sangrentos que você já conhece, o mundo agora sofre com uma pandemia que provocou um outro tipo de disputa: a guerra contra a ignorância, contra o negacionismo científico.

A aposta nas crendices e o desconhecimento da ciência, prezado ET, não vem de pessoas que não tiveram chance de ir à escola - o que seria compreensível justificativa -, mas de gente endinheirada, que tem acesso a boas escolas e à informação.

Mesmo contra todas as recomendações dos médicos, uma parte desses privilegiados reluta em usar máscaras, teima em aglomerar e defende cloroquina como tratamento da covid.

Quer um bom exemplo disso, marciano?

Na sexta-feira, no hotel Copacabana Palace, point dos mais chiques do Brasil, aconteceu um show de negacionismo. Mais de 500 pessoas coladas umas às outras, sem máscara, expelindo perdigotos a todo vapor, faziam coro às músicas dos cantores Gusttavo Lima e Ludmilla (sim, caro extraterrestre, gustavos e ludmilas agora têm nomes escritos com letras dobradas) e outros artistas.

Além do lugar luxuriante, o evento, revelado pelo jornalista Bruno Menezes, do site Metrópoles, teve infraestrutura opulenta: um batalhão de seguranças à porta, presença de filhos de políticos poderosos, participação de uma das promoters mais requisitadas do Rio e convidados em blacktie.

Tudo para comemorar o aniversário de Adilson Coutinho de Oliveira, que em uma investigação da Polícia Federal aparece como operador no "ramo" das máquinas caça-níqueis. Ou seja, segundo a PF, bicheiro.

Assim é a turma do high society, meu amigo marciano.

Com 430 mil mortos pela covid-19, novos e velhos ricos encontram motivos para festejar com personagens da contravenção, aglomerados e sem máscara.

Acontece em Copacabana e em outros lugares pelo Brasil, frequentados por quem tem dinheiro para aproveitar a vida, mesmo que a morte seja a tônica desses dias.

Para arrematar o episódio, equipe da Secretaria de Ordem Pública da prefeitura, que tem a responsabilidade de fiscalizar reuniões que não sigam o protocolo de segurança na pandemia, esteve na festa e não viu irregularidade alguma.

Somente depois, quando as imagens da celebração circularam pelas redes sociais e surgiram na imprensa, a secretaria resolveu multar o Copacabana Palace em R$ 15 mil. Além disso, o hotel fica proibido por dez dias de realizar novas festas (estava liberado, então?).

Alô, Alô, marciano, a crise tá virando zona.

Sintetizando para você entender, viajante interplanetário, a música de Rita Lee e Roberto Carvalho, que virou sucesso na voz de Elis Regina em 1980, tem uma frase que define bem o Brasil de hoje.

Cada um por si e todo mundo na lona.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL