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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Submisso ao centrão, Bolsonaro tornou-se um semipresidente

Jair Bolsonaro e Ciro Nogueira - Ilustração: Camila Pizzolotto
Jair Bolsonaro e Ciro Nogueira Imagem: Ilustração: Camila Pizzolotto
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

22/07/2021 04h00

De seu posto, no Gabinete de Segurança Institucional, o general Augusto Heleno observa em silêncio as mudanças operadas pelo presidente Jair Bolsonaro. Heleno nunca mais foi visto cantarolando, como fez há quase três anos ao adaptar o refrão do samba "Reunião de bacana", que falava de ladrões, e soltar a voz: "Se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão...".A mudez atual é compreensível: aquele grupo político que Bolsonaro, seus generais e os fanáticos olavistas apontavam como a nata do fisiologismo é hoje quem manda na República.

O espaço que faltava ser ocupado pelo centrão foi ofertado ontem de bom grado pelo presidente ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), que deverá assumir a Casa Civil. Na pressa em fazer a mudança, Bolsonaro nem teve a cortesia de avisar com antecedência ao general Luiz Eduardo Ramos, ocupante da pasta, que ele seria defenestrado.

"Eu não sabia. Fui atropelado por um trem", admitiu o general à jornalista Eliane Cantanhede, do Estado de S. Paulo. Apesar de estar "em choque", Ramos usa a lógica militar para manter-se fiel, mesmo que o presidente não lhe tenha fidelidade alguma. "Soldado não escolhe missão. Se ele me der outra no governo, eu aceito".

Assim, pouco a pouco, os políticos do centrão vão tomando o lugar dos generais nos postos importantes da administração federal. Na Casa Civil, Nogueira poderá negociar com mais poder o apoio dos parlamentares aos temas que interessam ao governo. A partir de agora, terá a chave do cofre.

O "toma lá, dá cá", tão criticado na campanha pelos bolsonaristas, já corre solto há algum tempo no Planalto. Daqui para a frente será intensificado. O novo ministro da Casa Civil terá total sintonia com seu grupo de apoio no Congresso para definir como deverão ser gastos os recursos, de modo a agradar o centrão.

Ao presidente, restarão as conversas no cercadinho do Alvorada e as lives de quinta-feira, onde fala as bobagens que dá na telha, repete piadas homofóbicas, xinga desafetos e mente sobre a urna eletrônica e outros temas.

Sobrará mais tempo também para se dedicar com afinco a sabotar, como vem fazendo há meses, todas as medidas eficazes contra a pandemia: vacinação, uso de máscara, distanciamento social.

Enquanto isso, Nogueira vai meter a mão na massa e "governar" para os seus. Em troca, o presidente da República seguirá blindado contra o impeachment e contará com apoio à reeleição.

Talvez esse arranjo sirva de experimento para testar a tese de semipresidencialismo que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), encampou com fervor e que virou moda repentinamente.

Se tal experiência dará certo, não se sabe.

A única certeza nesse momento é que, de joelhos para o centrão, Jair Bolsonaro tornou-se um semipresidente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL