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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O país rico em que homens disputam a sobrevivência com os ratos

Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

20/10/2021 04h00

É hábito comum no Cachambi, bairro da zona norte do Rio, aproveitar o início de noite para passeios com o cachorro. Muita gente sai de casa logo depois de escurecer, deixando para trás o celular e dando à mente chance de vagabundear enquanto o bicho se espreme para fazer cocô. Uns minutos de alienação são como bálsamo no meio da barra pesada que todos vivemos.

Em uma dessas caminhadas, há mais ou menos três meses, passei por um caminhão que recolhia o lixo. Ao olhar para dentro da caçamba, onde dois garis despejavam enormes tonéis de detritos, notei um movimento estranho.

Naquele mesmo compartimento onde montanhas de imundície eram jogadas foi possível avistar dois braços em meio à escuridão.

Olhando melhor, consegui entender: dentro da caçamba fétida e sem nenhuma iluminação, um homem esperava que os garis despejassem o lixo para, rapidamente, separar latas, garrafas pet e qualquer coisa vendável. Tudo o que se enquadrava nessa categoria era lançado a um canto da calçada, onde ele depois poderia recolher.

Em nome da sobrevivência, essa complexa operação de triagem do lixo era feita em tempo recorde. Pouco depois que o material fedorento foi jogado ali, o mecanismo de trituração começou a funcionar. A geringonça pesada e barulhenta desceu sobre os detritos para esmigalhar sem dó.

Ágil, o homem pulou para fora do compartimento a ponto de se salvar por pouco.

Ele esperou, então, que a máquina parasse de moer os dejetos e, quando a enorme boca de ferro se abriu, voltou a pular na escuridão para esperar que os dois garis recomeçassem o despejo dos tonéis nojentos.

O homem que repetiu várias vezes essa operação era baixo e muito magro, vestia somente bermuda e usava um chapéu enterrado na cabeça. Pelo sotaque, parecia ser nordestino. Nas vezes que pulou para fora do caminhão, aproveitou para ajudar os dois garis a juntar os recipientes dos prédios, como se retribuísse o "privilégio" que eles lhes concediam: o de catar lixo onde outros catadores não podem entrar.

Como se vê, meu objetivo de curtir momentos de alienação no começo de noite em companhia do cachorro foi para o espaço.

A imagem daquele homem abrindo os braços no escuro para receber os detritos lançados dentro do perigoso alçapão de metal não me saiu da cabeça. Junto com ela, a pergunta clichê: como pode país tão rico obrigar brasileiros a disputar o lixo com os ratos?

Desde segunda-feira, uma versão diferente dessa cena degradante circula nas redes sociais.

É o vídeo em que pessoas de várias idades - senhoras idosas, inclusive - se amontoam na caçamba de um caminhão de lixo em Fortaleza para catar restos que vão garantir a próxima refeição.

A verdade é que, seja no Cachambi, em algum bairro da capital cearense ou próximo à casa do leitor, é cada vez mais acirrada a disputa entre homens e ratos.

Acostumado a incorporar horrores ao seu cotidiano, o Brasil assiste ao aumento exponencial da miséria como se fosse algo corriqueiro. Até que um vídeo viraliza nas redes sociais e nos faz encarar a tragédia que está debaixo de nossos narizes.

O problema é que a comoção no Twitter e no Instagram termina tão rápido quanto começa.

No Brasil real, homens e mulheres continuarão a escavar monturos de lixo mesmo depois que começar a próxima treta virtual.

É preciso urgentemente fazer algo para estancar essa indignidade.

Mesmo diante da grande diversidade de problemas que enfrenta, o país não tem prioridade maior que impedir o quanto antes que os ratos continuem a decidir o destino dos brasileiros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL