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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com a ômicron, Bolsonaro volta a apresentar seu show de horrores

Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

12/01/2022 11h12

O escritor argentino Jorge Luís Borges criou a magnífica "História Universal da Infâmia", em que descreve personagens odiosos, reais e imaginários, de vários países. Tivesse nascido oito décadas antes, Jair Bolsonaro certamente faria parte da turma. Desde que começou a pandemia, o presidente brasileiro produziu frases que superam, e muito, a crueldade de qualquer vilão.

Com o Brasil aterrorizado pelo coronavirus, causador de mais de 620 mil mortes, Bolsonaro não foi capaz de uma palavra de consolo. Pelo contrário. Aumentou a dor das famílias com sua coleção de declarações abjetas.

"Eu não sou coveiro", "A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo", "Temos que deixar de ser um país de maricas", "Se tomar vacina e virar jacaré não tenho nada a ver com isso", "Esse vírus trouxe uma certa histeria", "Tudo agora é pandemia, tem que acabar com esse negócio, pô", "Muitas [vítimas] tinham alguma comorbidade, então a covid apenas encurtou a vida delas por alguns dias ou algumas semanas", e por aí vai.

Nos últimos meses, a incidência de covid-19 diminuiu e os brasileiros pensaram que teriam, enfim, algum alívio. Todos estaríamos também livres das manifestações diárias de negacionismo do presidente, que poderia se dedicar a falar bobagens sobre outros temas.

Com a variante ômicron, porém, o pesadelo voltou. Tanto o temor da pandemia — dessa vez com uma modalidade de vírus que se propaga a uma velocidade muito maior — quanto a revolta com as entrevistas de Bolsonaro estão novamente atormentando o país.

Em entrevista veiculada ontem em uma emissora chapa branca de rádio e TV, o ocupante do Palácio do Planalto abordou o assunto. Já começou a sabotar a possibilidade de novas medidas de distanciamento social, dizendo que "o Brasil não resiste a um novo lockdown" (algo que o país nunca teve).

Caprichou no terrorismo.

"Será o caos. Será uma rebelião, uma explosão de ações onde grupos vão defender o seu direito à sobrevivência. Não teremos Forças Armadas suficientes para a garantia da lei e da ordem", delirou o presidente.

Depois de tanto tempo de sofrimento, nessa nova temporada da pandemia, o Brasil merecia ao menos se ver livre das indignidades presidenciais. Enquanto as famílias tentam se proteger, os governadores e prefeitos tentam planejar o atendimento ao tsunami de infectados e os profissionais de saúde vão mais uma vez para o sacrifício, Bolsonaro se dedica a mentir, atrapalhar o combate ao coronavirus e desestimular a vacinação de crianças.

Nem mesmo na galeria de facínoras descrita pelo argentino Borges existe vilão capaz de infâmia tão grande.

Que Bolsonaro e seus cúmplices um dia prestem contas de seus crimes, é o que se pode esperar caso queiramos ser uma nação minimamente civilizada.