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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Morte de Olavo de Carvalho foi a mais comemorada da história do Brasil

Olavo de Carvalho - Reprodução/TV Globo
Olavo de Carvalho Imagem: Reprodução/TV Globo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

26/01/2022 12h39

Nunca se viu tantas manifestações de alegria e humor por causa de um falecimento. Segundo o analista de redes Pedro Barciela, em mais de meio milhão de tuites publicados ontem sobre a morte de Olavo de Carvalho, apenas 24,8% foram de grupos bolsonaristas e 71% continham alguma ironia sobre o guru da extrema-direita.

Em situações normais, mortes não são comemoradas. Mas o discurso de ódio e o incentivo ao aniquilamento do adversário, que Olavo inspirou em seus discípulos, acabou provocando uma revanche do outro lado.

Parte dos bolsonaristas se fez de contrito para condenar as mensagens contra o astrólogo da Virgínia. Justamente a turma que costuma aplaudir quando apresentadores de programas policiais da TV fazem dancinha para comemorar as mortes ocorridas em ações policiais. Uma dessas coreografias contou até com a participação do presidente Jair Bolsonaro, que segurava uma réplica de documento em que se lia "CPF Cancelado".

O próprio Olavo exercitou ironia em momentos que deveriam ser de luto. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando morreu Alfredo Sirkis — politico, escritor e ex-guerrilheiro — e também em relação às vítimas da pandemia (duvidou que o vírus "mocoronga" matasse as pessoas).

Os discípulos olavistas acharam tudo isso normal. Agora, cobram um decoro que nunca tiveram.

Não deveria surpreender que alguém que se dedicou tantos anos a disseminar o ódio recebesse de volta a rebarba de seus sentimentos. Ele nem foi "um dos maiores pensadores da história" do país e muito menos um "gigante na luta pela liberdade", como disse Bolsonaro em seu tuite. Suas ideias eram confusas e boa parte não tinha base nos fatos, como prova a campanha antivacina. Não quis libertar, mas usar seu poder de persuasão para dominar seus discípulos.

Também o vice-presidente Hamilton Mourão divulgou fake news de que Olavo era "defensor intransigente da liberdade" e que "sustentou valores conservadores". O guru não era conservador, mas reacionário. Queria que o Brasil retrocedesse em várias áreas — objetivo alcançado no governo atual.

Figuras consideradas progressistas também lamentaram a gigantesca manifestação de regozijo que se viu nas redes sociais com a morte de Olavo, algo inédito, ainda mais em um país de tradição cristã.

Não há dúvida de que uma sociedade ideal não deveria incorporar a seus hábitos a comemoração do falecimento dos adversários. É um retrocesso civilizatório. Deve-se levar em conta, porém, que foi o grupo de extrema-direita que está no poder, sob inspiração de Olavo de Carvalho, que instaurou esse clima.

Espera-se ao menos que, experimentando o ódio que ajudaram a propagar, essa facção aprenda finalmente o que sente o país que é vítima de sua falta de empatia.

Quem sabe isso acabe por nos desviar da barbárie propagada nos últimos três anos e nos devolva ao caminho da civilização, já que alguns só aprendem quando sofrem na pele o mal que impuseram ao outro.

Infelizmente, alguns nem assim.